Ir direto ao conteúdo

Os 65 anos de O Senhor dos Anéis. E a arte de inventar línguas

O autor britânico J.R.R. Tolkien foi o primeiro a criar sistemas linguísticos complexos para uma obra ficcional, uma atividade que até hoje move a curiosidade de profissionais e amadores

    Temas
     

    O dia 29 de julho de 2019 marca o aniversário de 65 anos do lançamento de “A Sociedade do Anel”, primeira parte de “O Senhor dos Anéis”, obra máxima de J.R.R. Tolkien e um dos livros mais vendidos de todos os tempos.

    Adaptado para uma série de filmes e, em breve, um seriado produzido pela Amazon, a Terra-média tem uma legião de fãs, mas atrai também estudiosos que se aprofundam, academicamente, em diversos aspectos da obra do autor e de sua criação.

    Uma das características fundamentais da Terra-média são as línguas inventadas por Tolkien para seu mundo fictício. Segundo Akira Okrent, doutora em linguística pela Universidade de Chicago e autora do livro “In the land of invented languages”, sobre idiomas inventados, o escritor foi o primeiro a criar sistemas linguísticos complexos para uma obra ficcional.

    Antes dele, autores como Thomas More (“Utopia”) e Edgar Rice Burroughs (“Uma Princesa de Marte”) incluíram idiomas fictícios em seus livros, mas se limitaram a inventar algumas poucas palavras ou frases.

    Do “vício secreto” à criação da Terra-média

    Desde criança, Tolkien tinha como passatempo a criação de línguas, como é relatado por Humphrey Carpenter, biógrafo oficial do autor, em “J.R.R. Tolkien: Uma Biografia”.

    Aos 16 anos, o jovem Tolkien se debruçava no estudo aprofundado de idiomas do mundo todo, tentando entender a filologia de línguas como o finlandês, o galês e o anglo-saxão.

    Foi o seu auto-proclamado amor pelas palavras que o levou a criar as suas próprias, organizando-as de maneira complexa – um hábito que o próprio apelidou de seu “vício secreto”.

    “O passatempo de se criar línguas é muito comum entre as crianças, então não sou alguém peculiar por conta disso. Porém, esse processo às vezes continua na vida adulta, mas é normalmente mantido como segredo”

    J.R.R. Tolkien

    Autor britânico em carta a Denis e Charlotte Plimmer, publicada no livro “As Cartas de J.R.R. Tolkien”

    A partir do seu “vício secreto”, Tolkien percebeu que seria necessário criar histórias nas quais esses idiomas pudessem se desenvolver, como ele mesmo conta no prefácio da segunda edição de “O Senhor dos Anéis”.

    As línguas da Terra-média

    Ao todo, estima-se que Tolkien criou entre 10 e 12 línguas para as suas histórias na Terra-média. Algumas ainda são inéditas ao público. Cinco delas foram as mais trabalhadas na sua obra: o Quenya e o Sindarin, línguas faladas pelos elfos; a língua negra de Mordor, falada pelos servos de Sauron, o principal antagonista de “O Senhor dos Anéis”; o Adûnaico, idioma que deu origem ao Westron, a língua comum da Terra-média; e o Khuzdul, língua dos anões.

    O Quenya e o Sindarin receberam sistemas linguísticos complexos, ganhando vocabulário, gramática e um alfabeto próprio, o Tengwar.

    “J.R.R. Tolkien chegou ao ponto de postular o Eldarin, um élfico primitivo, algo que está para o Quenya e para o Sindarin como o latim está para o português e o francês”, explicou ao Nexo Ronald Kyrmse, especialista na obra do autor, e tradutor brasileiro de alguns de seus livros. “Ele compôs etimologias complexas, e mostrou a evolução desses idiomas desde os dias antigos até os eventos de ‘O Senhor dos Anéis’. É um trabalho que durou quase sua vida toda.”

    Algumas frases nas línguas da Terra-média

    • Elen síla lúmenn omentielvo - “Uma estrela brilha sob a hora do nosso encontro”, saudação em Quenya
    • Law pain i reviar mistar aen - “Nem todos aqueles que vagueiam estão perdidos”, trecho em Quenya de um poema feito para se referir ao personagem Aragorn
    • Savo 'lass a lalaith - “Tenha risos e alegria”, votos de boa-fé em Sindarin
    • I faer nîn 'nínia 'aden a-govedinc - “Minha alma vai chorar até o nosso próximo encontro”, em Sindarin

    A arte de inventar línguas

    O “vício secreto” de Tolkien ganhou novos adeptos ao longo dos anos. São entusiastas que, como ele, inventam seus próprios idiomas. No Reddit, rede social que agrega diversas comunidades, o fórum ‘conlangs’ (abreviação de ‘constructed languages’, ou línguas construídas) reúne cerca de 35,5 mil membros, que compartilham suas criações em postagens.

    Um conlanger (como os membros se referem a si mesmos) que transformou seu hobby em profissão é David J. Peterson, mestre em linguística pela Universidade da Califórnia em San Diego.

    Peterson começou a criar seus idiomas em 2000, quando tinha 19 anos. De lá para cá, foi contratado para desenvolver idiomas em filmes e seriados de TV, incluindo sucessos como a série “Game of Thrones” e o longa “Thor: O Mundo Sombrio”.

    Para ele, Tolkien é o pai de todos os conlangers. “Ele era um cara que criava línguas só pela diversão de se fazer isso”, disse ao Nexo. “É por causa dele que muitos conlangers começaram a criar seus idiomas.

    Em seu livro, “The Art of Language Invention” (A Arte de Inventar Linguagens, em tradução livre), Peterson conta que tudo começa com a ideia de como o idioma tem de soar. Ele explica que os produtores de “Game of Thrones” queriam que a língua dos Dothraki soasse “áspera”.

     

    Para isso, ele buscou um som presente em idiomas como o alemão, russo, espanhol e árabe: o ‘kh’, que aparece em palavras como ‘Bach’ e ‘Samech’. O fonema não é comum no Inglês e, por isso, daria uma aparência mais endurecida para o idioma Dothraki.

    Algumas línguas criadas para obras ficcionais

    • Klingon, da franquia “Star Trek”
    • Na’vi, do filme “Avatar”
    • Dovahzul, do jogo “The Elder Scrolls V: Skyrim”
    • Novilíngua, do livro “1984”
    • Nadsat, do livro “Laranja Mecânica”
    • Simlish, dos jogos “The Sims”

    A obra inacabada de Tolkien

    Segundo Humphrey Carpenter, biógrafo oficial de Tolkien, a vontade de desenvolver novas línguas aliada a um desejo de criar uma mitologia genuinamente inglesa resultou na criação da Terra-média. O trabalho ocupou 56 anos da vida do autor e permaneceu incompleto – muitos textos e ideias não finalizadas foram encontrados e publicados postumamente entre 1977 e 2018. Eles estão sendo editados por Christopher Tolkien, filho do autor e administrador de sua obra.

    A primeira dessas histórias é “A Queda de Gondolin”, escrita pela primeira vez em 1917, quando Tolkien estava na enfermaria de um quartel do Exército inglês no vilarejo de Great Haywood, Inglaterra. A trama gira em torno de uma grande batalha na cidade de Gondolin, mostrando o embate entre as forças de Turgon, um rei élfico, e Morgoth, o primeiro Senhor do Escuro na mitologia do autor.

    “Eu acho que essa história é o berço de um herói, que no caso é Eärendil”, afirmou ao Nexo Cristina Casagrande, mestre em estudos comparados de literatura em língua portuguesa pela USP. Eärendil é um dos grandes personagens da reta final de “O Silmarillion”, livro póstumo que serve como uma espécie de “Antigo Testamento” para a Terra-média.

    Ao longo dos anos, o autor reescreveu “A Queda de Gondolin” diversas vezes, em prosas e poemas. Uma compilação dessas várias versões foi lançada em 2018, anunciada como o último livro canônico da Terra-média.

    Mitopeia e subcriação

    Há um fato importante para entender como Tolkien compôs sua obra. Para ele, seus livros não se tratavam de uma criação, e sim de algo batizado por ele como “subcriação”, um mundo secundário criado a partir do mundo primário, que seria a nossa realidade.

    O conceito de subcriação está relacionado diretamente à ideia de “Mitopeia”, postulado por Aristóteles em sua “Poética”. A definição se caracteriza pela construção coletiva de uma mitologia, normalmente através da tradição oral. Tolkien pegou esse conceito emprestado para compor sua obra.

    “Tolkien não foi o único a fazer isso. E nem foi o primeiro”, apontou Casagrande. “Nós temos outros, como o George R.R. Martin (de ‘Game of Thrones’) e a J.K. Rowling (de ‘Harry Potter’). Mas Tolkien foi o que mais mostrou até hoje o que é a mitopeia na fantasia moderna.”

    Reinaldo José Lopes, doutor em estudos linguísticos e literários em inglês pela USP e tradutor brasileiro de alguns dos livros de Tolkien, diz que o autor acreditava que todos os seres humanos eram subcriadores.

    “Por termos sido criados por Deus, que tem esse potencial criativo infinito, ele acreditava que nós temos dentro de nós a centelha da criação, em um nível inferior, mas similar ao divino. No caso, não interferindo na estrutura do cosmos, mas reimaginando o universo e dando novos sentidos e visões para o que está ao nosso redor, fazendo isso através dos mitos”, explicou ao Nexo.

    Além de enxergar a Terra-média como uma subcriação, Tolkien enxergava suas histórias como “fatos” que aconteceram em um passado distante, relatados em livros antiquíssimos que, por sua vez, eram traduzidos por ele para o inglês.

    “Eu acredito que lendas e mitos são amplamente verdadeiros, e algumas verdades só podem ser recebidas dessa maneira. Há muito tempo, algumas verdades foram descobertas e precisam sempre reaparecer” 

    J.R.R. Tolkien

    Autor britânico em carta a Milton Waldman, publicada no livro “As Cartas de J.R.R. Tolkien”

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!