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Como Mauricio de Sousa, 60 anos de carreira, abraça novos públicos

Com graphic novels, mangás, filmes e série, quadrinista amplia seu portfólio na cultura pop nacional

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    Mauricio de Sousa completou 60 anos de carreira em 18 de julho de 2019, num momento em que sua empresa, a Mauricio de Sousa Produções, está abrindo o seu leque de produtos e abraçando públicos diferentes em diversas mídias.

    Com mais de 1,5 milhão de espectadores e uma sequência confirmada, o filme “Turma da Mônica: Laços” ocupa a terceira posição das bilheterias nacionais, com R$ 3,5 milhões acumulados. O longa fica atrás apenas de blockbusters de franquias consagradas da Disney: “Homem-Aranha: Longe de Casa” e “Toy Story 4”.

    “Laços” é apenas uma das obras presentes na fase atual da MSP, que desde 2008 vem fazendo apostas novas, indo além dos gibis. À época, aconteceu o lançamento de “Turma da Mônica Jovem”, selo de quadrinhos no estilo mangá direcionada ao público adolescente, vendendo 1,5 milhão de exemplares em suas quatro primeiras edições.

    Conquistando jovens adultos

    Quatro anos depois, surgiu o selo Graphic MSP, publicando graphic novels, romances em quadrinhos voltados  para o público jovem adulto. Na iniciativa, autores nacionais adaptam os personagens de Mauricio de acordo com seus próprios estilos.

    Ao todo, já foram publicados 23 álbuns, com gêneros e temas variados. As histórias vão da ficção científica, em “Astronauta: Magnetar”, a um drama com pitadas de terror sobre a colonização de povos indígenas pelos europeus em “Papa-Capim: Noite Branca”.

    Conversando com o Nexo, Sidney Gusman, idealizador e editor da iniciativa Graphic MSP, disse que as HQs de Mauricio de Sousa sempre trataram de questões contemporâneas da sociedade. “Mas esses temas não podem ser tão aprofundados nas revistas de linha. Alguém pode dizer ‘Ah, mas quadrinho é só entretenimento’. Sim, são entretenimento. Também. Eles têm um papel social, podem ajudar na formação da opinião do leitor em determinados assuntos”, explicou.

    Um exemplo da discussão de um tema contemporâneo no selo acontece em “Jeremias: Pele”, lançada em 2018, com roteiros de Rafael Calça e artes de Jefferson Costa. Na HQ, Jeremias, que por quase duas décadas foi o único personagem negro da MSP, acaba sofrendo racismo durante uma atividade escolar.

     

    A ideia partiu de Gusman e foi apresentada a Mauricio. Calça quis contar a história de maneira direta e realista. “Nossas memórias da infância foram a base. O racismo, velado ou explícito, é frequente, e a criança descobre isso em algum momento”, contou o roteirista ao Nexo.

    “Tínhamos uma defasagem no trato com os personagens negros”, afirmou Mauricio ao Nexo. “A graphic superou todas as nossas expectativas, e por isso conseguimos levar adiante um projeto antigo, de ter uma família negra no Bairro do Limoeiro. E não vamos parar por aí”, acrescenta.

    Gusman também explica que não há tabu nas HQs da iniciativa, mas que alguns limites foram estabelecidos a ele e repassados para os autores: “Eu não posso mostrar um personagem do Mauricio usando drogas. Mas isso não significa que eu não possa desenvolver uma história sobre o uso de drogas. Na primeira graphic do Piteco, a história termina com a Thuga grávida dele. Mas eu não preciso mostrar o momento em que eles conceberam a criança”

    O selo, ao todo, já vendeu mais de 600 mil exemplares, e o maior impacto, segundo Gusman, está no fato de que muita gente voltou a ler quadrinhos depois de conhecer as novas graphic novels da Turma. Os autores dos álbuns também se beneficiaram da iniciativa, e, além de novas oportunidades, conseguiram se aproximar dos leitores em eventos como a CCXP, Comic Con Experience, que ocorre anualmente, em São Paulo.

    “A MSP e o Sidney foram muito certeiros, desde quando fizeram o MSP 50, depois o MSP +50, os projetos que resultaram nas graphic novels. Tinha muita gente produzindo, mas sem ter como escoar a produção, e a CCXP passou a ser um ponto de encontro pra esse pessoal falar diretamente com o público. Foi um alinhamento dos astros”, disse ao Nexo Marcelo Forlani, um dos idealizadores e organizadores do evento.

    Para Ivan Costa, outro organizador da Comic Con Experience, a renovação de Mauricio de Sousa é causa e consequência do momento atual dos quadrinhos nacionais, que, nos últimos anos, passou a ter cada vez mais nomes.

    “O selo é um efeito do mercado, mas ao mesmo tempo fomenta, porque apresenta artistas que não necessariamente o público conhecia”, avaliou Costa ao Nexo. “E esses eventos, como a CCXP, são fundamentais. Nós temos um país muito grande, com uma dificuldade muito grande na distribuição. É muito difícil, por exemplo, você fazer com que o trabalho de um artista do Sul chegue nas mãos de um leitor no Norte ou Nordeste. Ou até mesmo num bairro vizinho. O evento coloca o artista frente a frente com o público”, acrescenta.

    Telonas e novos horizontes

    O primeiro fruto direto da iniciativa Graphic MSP chegou no final de junho. “Turma da Mônica: Laços - O Filme”, com direção de Daniel Rezende (de “Bingo: O Rei das Manhãs”), estreou em todo o Brasil.

    O lançamento do longa abre margem para novas adaptações das graphic novels em outras mídias. “Quando o filme foi anunciado, em 2016, diversas produtoras entraram em contato com a gente, interessadas em adaptar outros títulos. Tem caminho para isso, e é algo que os artistas envolvidos também sabem desde o começo”, diz Gusman.

    As adaptações não se restringem apenas ao cinema. Em 2017, a MSP anunciou uma parceria com o canal HBO para o desenvolvimento de uma série em animação baseada nas Graphic MSP do Astronauta, escritas e desenhadas por Danilo Beyruth.

    Além do selo para jovens adultos, a empresa está tentando atingir outros públicos. Uma das iniciativas é o selo Mangá MSP, que estreia no começo de agosto com “Turma da Mônica - Geração 12”, uma HQ de fantasia dirigido ao público pré-adolescente.

    “Nós percebemos que havia um vácuo entre os mangás que já tínhamos e os leitores que têm por volta de 12 anos de idade. É um universo paralelo entre a Turminha e a Turma Jovem”, explica Mauricio.

    Outro produto lançado recentemente pela MSP foi o videogame “Turma da Mônica e a Guarda dos Coelhos”, lançados para computador, PlayStation 4 e Nintendo Switch, levando a turminha do Limoeiro para a comunidade gamer, com um visual inspirado nos jogos dos anos 90.

    Dentre os planos atuais da MSP estão a inauguração de uma subsidiária da empresa no Japão, um espetáculo circense com a Turma, o lançamento de um parque temático com seus personagens em Pernambuco e uma série de livros de Monteiro Lobato ilustrados por sua equipe.

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