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Uma breve história do botão curtir nas redes sociais

A métrica, que passou a ser ocultada pelo Instagram esta semana no Brasil, é central para o modelo de negócios das redes sociais

 

Na quarta-feira (17), usuários brasileiros da rede de compartilhamento de imagens Instagram foram surpreendidos por uma mudança na forma como suas fotos são avaliadas na plataforma.

Agora, usuários não podem mais ver automaticamente o número de curtidas que as fotos ou vídeos de outras pessoas recebem. O Brasil é um dos sete países em que a medida está sendo testada. O grupo inclui o Canadá, onde os testes começaram em maio, e Irlanda, Itália, Japão, Austrália e Nova Zelândia, onde a alteração foi lançada também no dia 17.

A “curtida”, ou “like”, acontece quando um usuário clica em um botão em formato de coração ao lado do conteúdo postado. Essa interação é uma forma de mostrar apreço por algo.

Antes da mudança, qualquer um podia ver facilmente o número de curtidas que cada conteúdo recebia, o que servia como métrica de seu sucesso. Com a mudança, ainda é possível saber quem curtiu um conteúdo, mas o Instagram mostra um placar com o número de curtidas apenas para o usuário que postou o conteúdo. A métrica fica, dessa maneira, menos evidente.

A alteração começou a ser testada com alguns usuários no Canadá. No lançamento da mudança, em maio de 2019, um porta-voz da empresa afirmou ao site TechCrunch que a mudança estava sendo testada para que os seguidores “foquem nas fotos e vídeos que compartilham, não na quantidade de curtidas que eles obtêm”.

Na quarta-feira (17), a diretora de políticas do Instagram na Austrália, Mia Garlick, afirmou: “Nós esperamos que esse teste retire a pressão sobre quantas curtidas um post vai receber, para que você possa focar nas coisas que você ama”. No comunicado para o Brasil, a empresa escreveu que não quer “que as pessoas sintam que estão em uma competição dentro do Instagram”.

A medida ainda está em fase de testes, e não está claro se ela é definitiva – no mesmo dia em que o placar de curtidas sumiu no Brasil, ele voltou para alguns usuários no Canadá.

Apesar de parecer uma ferramenta quase natural das redes sociais, a função curtir foi paulatinamente assimilada pelos sites, no decorrer de anos. Além de servir para os próprios usuários interagirem entre si e acompanharem uns aos outros, o botão curtir também serve às redes sociais, como uma maneira de coletar um grande número de dados.

Dos “Diggs” ao curtir

Em um artigo publicado em 2011 no site da revista americana Fortune, o jornalista John Patrick Pullen escreve que “alegar que inventou o botão curtir é como dizer que você foi a primeira pessoa a comer pizza fria no café-da-manhã – provavelmente não é verdade, e quem quer que tenha comido a primeira fatia provavelmente não tomou nota do evento marcante”.

Há, no entanto, um importante marco para a difusão dessa função: sua inclusão, em novembro de 2005, na plataforma para compartilhamento de vídeos Vimeo, lançada um ano antes.

Em entrevista à Forbes, o vice-presidente de produtos e desenvolvimento da Vimeo, Andrew Pile, afirmou, por sua vez, que havia copiado a ideia do site Digg. Criado em 2004, o Digg é um site americano que agrega links para notícias, podcasts e vídeos e permite que usuários interajam com os conteúdos.

É possível mostrar apreço por uma postagem clicando no botão Digg, que tem o formato de um pequeno coração vazio e que se preenche de vermelho na tela do usuário que clica nele.

“Nós gostávamos do conceito do Digg, mas não queríamos chamá-lo [o botão] de ‘Diggs’, então tivemos a ideia de ‘Likes’ [curtidas]”, afirmou Piles, da Vimeo.

O Vimeo foi lançado em 2004, um ano antes do concorrente YouTube, que acabou se tornando o site mais popular para compartilhamento de vídeos. Hoje, o YouTube tem mais de 2 bilhões de usuários mensais, mas o Vimeo também é relevante, com mais de 260 milhões de usuários mensais. A inclusão do botão curtir no site contribuiu para popularizá-lo, e para fazer com que seu conteúdo se propagasse em outras plataformas.

FriendFeed, Facebook e Instagram

Em 2007, o botão curtir foi lançado no site FriendFeed, inaugurado no mesmo ano. A plataforma era um agregador que reunia em um único feed atualizações de outras redes e blogs. Na época, a companhia apresentou o botão assim:

“As pessoas usam o FriendFeed para socializar e comentar nas coisas que eles compartilham de sites pela rede (como YouTube, Google Reader ou Last.fm), e muitos dos nossos usuários dizem que eles queriam um jeito super rápido de compartilhar seu apreço pelas postagens mais engraçadas/interessantes/úteis de seus amigos. Agora você pode falar para seus amigos de quais postagens você mais gostou com um único clique”

FriendFeed

Em anúncio do botão curtir, em 2007

Desde 2006, o Facebook já tinha o seu próprio feed de notícias, similar ao do FaceFeed. Mas a empresa não instituiu um botão de curtir até fevereiro de 2009 – meses depois, comprou o FaceFeed. No Facebook, o botão é representado pelo desenho de uma mão fazendo o gesto de “joia”.

A empresa lançou naquele mesmo ano a “caixa curtir”, que podia ser incorporada por sites de fora do Facebook. Com a caixa curtir é possível, por exemplo, mostrar apreço por uma matéria dentro de um site jornalístico usando o botão da empresa. Com isso, o Facebook se torna capaz de coletar dados sobre interações que acontecem fora da sua plataforma.

Nesse processo, o Facebook exige que informações sobre o IP (protocolo da internet que identifica o internauta) do usuário desses sites externos sejam enviadas.

Isso ocorre mesmo quando os usuários são menores de idade, o que gera críticas sobre segurança e privacidade. O botão foi proibido na Alemanha em 2016 porque estava coletando informações sobre usuários que não teriam idade para participar do Facebook, mas interagiam com a empresa por meio de botões de curtir em outros sites.

YouTube, Twitter e Instagram

Comprado em 2006 pelo Google, o Youtube trocou o sistema de notas de uma a cinco estrelas pelos botões de curtir ou descurtir em 2010.

A empresa justificou a medida da seguinte maneira: “a maior parte das pessoas dava uma nota de cinco estrelas (a melhor), ou uma estrela, e muito poucas estavam usando as notas de duas a quatro estrelas”.

Desde 2006, o Twitter já tinha um botão chamado “favorito”, com o formato de uma estrela. Em 2015, a empresa o trocou pela função curtir, que usa o ícone de coração. A justificativa da companhia foi que a avaliação com estrelas de “favorito” poderia ser confusa para novatos – mais acostumados ao coração, que o Twitter chamou de “um símbolo universal”. “Você pode gostar de muitas coisas, mas pode ser que nem tudo seja seu favorito”, afirmou a empresa na época.

Lançado em 2010, o Instagram já veio com um botão de curtir em formato de coração.

Em 2012, o Facebook comprou o aplicativo por US$ 1 bilhão e incorporou a rede social concorrente que surgira dois anos antes e vinha ganhando relevância. Com a aquisição, reaproximou-se do público jovem, que vinha preferindo o Instagram, encarado como menos supervisionado por adultos do que o Facebook.

O botão like de um ponto de vista mercadológico

Publicado em 2013 na revista acadêmica New Media and Society, o artigo acadêmico “A economia do like: botões sociais e a rede intensiva de dados” analisa o botão curtir, focando na estratégia do Facebook de tentar se expandir para toda a internet agregando o seu botão em outros sites.

O artigo contextualiza o botão de curtir no âmbito de outras métricas que já foram usadas para avaliar o sucesso dos conteúdos produzidos.

Na década de 1990, a principal métrica era o número de “hits”, ou seja, requisições computadorizadas para acessar uma página. “Contadores de visitas eram uma indicação aproximada do número de visitantes de uma página, derivada do número de pedidos computadorizados – hits – para acessar uma página, e se tornaram o padrão para medir o tráfego em sites”.

Os hits se tornaram uma métrica central de engajamento de usuários, e, consequentemente, para o marketing. ”A crescente centralidade dos hits e seu valor de troca foram conceptualizados na noção de ‘economia do hit’”.

A centralidade dos hits foi relativizada na década de 1990, com a ascensão do Google. Inspirado nas citações acadêmicas, o buscador passou a ranquear as páginas de acordo com o número de links que se referiam a elas. Com isso, o número de links que levassem a uma página passou a ser uma importante métrica sobre a sua relevância.

As redes sociais se diferenciam dos sites tradicionais por permitirem, de forma mais simples, que usuários produzam conteúdo e interajam com o conteúdo dos outros.

Nesse contexto, botões como o curtir, além das funções compartilhar ou marcar, entre outros, “facilitam a referência cruzada de conteúdo na rede e, comparado a práticas especializadas de linkagem, apresentam uma atitude participativa e focada em usuários para a recomendação e criação de links entre objetos da rede”.

Para as empresas, essas interações servem como novas métricas sobre o sucesso do conteúdo e o comportamento e perfil dos usuários. Esses botões descentralizam a coleta de dados, ao mesmo tempo em que centralizam seu processamento e valorização em torno das empresas proprietárias das plataformas.

“A ‘economia do like’ criou uma infraestrutura que facilita uma experiência mais social na rede, mas também cria um tecido alternativo na rede, em que a interação social é instantaneamente metrificada e multiplicada”

Artigo acadêmico “A economia do like: botões sociais e a rede intensiva de dados”, publicado em 2013 na revista acadêmica New Media and Society

 

 

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