Como funciona o novo sistema de bloqueio de telemarketing

Mantido por empresas de telecomunicações, o site Não Me Perturbe foi criado em resposta a uma determinação da Anatel

     

    Os brasileiros ganharam uma nova ferramenta contra uma das ações corporativas mais rejeitadas da atualidade: as ligações de telemarketing que oferecem serviços e produtos. Mantido por empresas de telecomunicações, o site Não Me Perturbe permite que cidadãos cadastrem números de telefone para serem excluídos da lista das empresas que realizam as ligações.

    Foi sucesso instantâneo. No ar desde terça-feira (16), o site já tinha registrado mais de um milhão de números de telefone inscritos no segundo dia, de acordo com informações da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações).

    O número poderia ser maior. Devido ao volume de acessos, o site travou seguidamente, com muitos usuários tentando cadastrar seu número sem sucesso. Segundo a Anatel, a iniciativa terá caráter permanente.

    O Não Me Perturbe promete remover em 30 dias o número do usuário dos cadastros das empresas de telemarketing. Ele se destina apenas a barrar ligações em nome das operadoras, não se estendendo a contatos de outros tipos de empresa.

    As empresas mais citadas em reclamações de consumidores sobre telemarketing são, respectivamente, Claro/NET, Telefônica /Vivo, Oi e Tim

    Antes do Não Me Perturbe, os Procons (órgãos de proteção e defesa do consumidor) de vários estados brasileiros vinham, gradativamente, criando serviços similares de cadastramento de telefones. Atualmente, 21 estados contam com algum mecanismo de bloqueio. A maior parte realiza o procedimento por internet, mas em alguns casos a ação só pode ser realizado mediante ligação para o Procon local.

    O site das operadoras é o primeiro recurso do tipo de âmbito nacional. Ele foi saudado como “positivo” pela Proteste, organização de defesa do consumidor.

    A empresa que desrespeitar o bloqueio pode ser multada em até R$ 50 milhões. Reclamações sobre eventuais não cumprimentos da norma devem ser feitas pela central telefônica da Anatel, no número 1331.

    A decadência do telemarketing

    Na explicação sobre o projeto, o usuário é informado de que o serviço é uma “iniciativa do setor”. Na verdade, ele foi criado em resposta a uma determinação da Anatel. Em 13 de junho de 2019, a agência deu 30 dias de prazo para que as maiores empresas da área criassem um sistema a fim de atender consumidores que quisessem se ver livres do telemarketing.

    Cerca de 32% das ligações feitas por call centers são do setor de telecomunicações, segundo Elisa Leonel, superintendente de Relações com Consumidores da Anatel, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. Os contatos procuram vender serviços de telefonia, TV por assinatura e internet.

    “Com o desenvolvimento da internet e das compras online, o telemarketing ficou defasado”

    Juliana Moya

    Especialista em Relações Institucionais da Proteste

    Juliana Moya, especialista em Relações Institucionais da Proteste, disse ao Nexo que a iniciativa pode prenunciar um recuo no uso do telemarketing como ferramenta de promoção e vendas.

    Ela lembra que antes a prática era uma das únicas maneiras existentes de se atingir o consumidor. “A tecnologia avançou e o serviço tentou atingir cada vez mais pessoas. A maioria das ligações é feita por robôs”, afirmou. “Com o desenvolvimento da internet e das compras online, o telemarketing ficou defasado.”

    A automação das ligações permitiu a discagem de vários números simultaneamente. Quando um alvo atende, as outras chamadas são abortadas. Isso levou à situação cada vez mais comum em que o consumidor atende uma ligação e encontra a linha muda.

    Os números de reclamações à Anatel refletem esse aumento do número de chamadas. Em todo o Brasil, foram 19.686 reclamações em 2016, 23.125 em 2017 e 27.051 em 2018. Até meados de julho de 2019, foram computadas pela agência 16.621 queixas.

    As empresas mais citadas nas ligações de consumidores reclamantes são, respectivamente, Claro/NET, Telefônica /Vivo, Oi e Tim.

    Os Procons de todo o Brasil já contam com 2 milhões de números cadastrados em listas de bloqueio. Desde 2009, o serviço também contabilizou 100 mil reclamações de desrespeito ao pedido de remoção.

    O conselho diretor da Anatel também avalia medidas para combater ligações de telemarketing de empresas de outros setores, fora das telecomunicações.

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