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A descoberta de fotos inéditas da Uganda de Idi Amin Dada

Arquivo de 70 mil negativos foi encontrado em 2015. Parte dele vem a público, pela primeira vez, em exposição realizada no país africano

     

    Uma exposição inaugurada em meados de maio de 2019 no Museu de Uganda, em Campala, capital do país africano, tornou pública, pela primeira vez, mais de uma centena de imagens oficiais produzidas durante a ditadura de Idi Amin Dada (1971-1979). Mais de 300 mil pessoas foram mortas durante o regime.

    Até novembro de 2019, a exposição “The Unseen Archive of Idi Amin” (O arquivo inédito de Idi Amin) revela uma pequena fração do material encontrado em 2015 por pesquisadores em um depósito da emissora pública Uganda Broadcasting Corporation.

    No total, foram descobertos 70 mil negativos fotográficos, em sua maioria tirados na década de 1970 e nunca revelados ou publicados. 

    As imagens parecem ter sido produzidas com a finalidade de documentar ações do governo, de festividades a apreensões de mercadorias de contrabando.

    Foto: Uganda Broadcasting Corporation/Reprodução
    Fotógrafos do Ministério da Informação fazem uma pausa, em 1978
     

    Além do contrabando, a administração de Amin mirava em questões como a limpeza de ruas, preços abusivos cobrados por comerciantes e a influência de interesses asiáticos na economia de Uganda.

    Foto: Uganda Broadcasting Corporation /Reprodução
    Comerciantes são presos por venderem mercadorias a preços excessivos, em 1975
     
    “Os fotógrafos do governo Amin eram parte de um complexo de mídia que ajudava a elaborar uma narrativa com significado, direção e propósito nacional. Por isso tantos ugandenses encontravam uma razão para apoiar o governo de Amin”

    Derek R. Peterson e Richard Vokes

    Em um artigo para o site The Conversation

    O que está ausente na narrativa

    Embora tenha sido derrubado em 1979 (por exilados e tropas da Tanzânia), o governo de Idi Amin e sua perseguição a opositores, que foram sistematicamente torturados e mortos, não foram devidamente processados pelas instituições e a memória do país.

    Morto em 2003 na Arábia Saudita, o ditador não foi julgado e punido por seus crimes. Não há monumentos ou memoriais dedicados aos mortos, e são escassas as ocasiões para discutir ou aprender sobre a época. 

    O debate sobre seu legado só emergiu recentemente na vida pública de Uganda, e a descoberta das fotografias, junto com a exposição e a realização de painéis com a participação de pessoas que viveram o período, são uma oportunidade de reflexão coletiva.

    Foto: Uganda Broadcasting Corporation /Reprodução
    Coronel Abdullah Nasur, então governador de Campala, prende um ladrão de bicicletas em 1975
     

    Desde 1986, o país é governado por Yoweri Museveni, que chegou ao poder com uma revolta conduzida pelo Exército de Resistência Nacional. Museveni passou a concorrer às eleições em 1996 e vem sendo reeleito desde então.

    No ranking do Índice de Desenvolvimento Humano de 2018, feito pela Organização das Nações Unidas, o país se encontra na 162ª posição entre 189, com um índice de 0,5 (quanto mais próximo de um, maior o desenvolvimento).

    Autores do artigo para o site The Conversation, Peterson e Vokes – respectivamente, professor de história e estudos africanos na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, e professor associado de antropologia na Universidade da Austrália Ocidental – participaram da curadoria da exposição.

    Eles observam que, apesar da riqueza do arquivo, são poucas as imagens que capturam a dura realidade da vida em Uganda na década de 1970: a violência de Estado, a infraestrutura do país que entrava em colapso e a falta de abastecimento de itens básicos.

    Devido a essa lacuna, os professores contrapõem imagens oficiais de eventos importantes a fotos de pessoas assassinadas, destacam episódios como a expulsão de asiáticos do país e incluem imagens das câmaras de tortura do governo.

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