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O retorno do sarampo à cidade de São Paulo

Cidade não registrava casos da doença desde 2015. Número de ocorrências saltou 143% em menos de um mês

    Em 20 dias, o número de casos confirmados de sarampo em São Paulo saltou de 32, em meados de junho, para 78, no início de julho. O aumento registrado no período foi de 143%. A cidade voltou a registrar casos da doença em 2019. Isso não ocorria desde 2015.

    De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, há notificações de sarampo em todas as regiões da cidade. Existem ainda 364 suspeitas sendo investigadas. Não foi registrada nenhuma morte em decorrência da doença até o momento.

    “O vírus está circulando em nosso município”, declarou a doutora Solange Saboya, coordenadora da Covisa (Coordenadoria da Vigilância em Saúde), departamento da secretaria municipal de Saúde, ao Nexo. “A gente tem um alerta. As pessoas precisam se vacinar para que a gente não tenha um aumento de casos ou ampliação do vírus”.

    Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), “o sarampo é uma das doenças mais contagiosas do mundo, com potencial para ser extremamente grave”. Se não tratado, o sarampo pode matar.

    Quando a secretaria tem uma suspeita da doença promove ações de vacinação nos oito quarteirões em torno da casa do doente e em ambientes frequentados por ele, como condomínio, escola e trabalho

    Até 12 de julho, há uma campanha de vacinação, na capital e alguns municípios da Grande São Paulo, com foco em pessoas de 15 a 29 anos. O motivo é que 50% dos casos estão nessa faixa etária.

    De acordo com a Covisa, é importante que toda pessoa dentro desse recorte de idade tome a vacina tríplice viral (contra sarampo, caxumba e rubéola), mesmo que já tenha sido vacinada.

    Em 2018, o município vacinou crianças entre 1 e 4 anos idade. Segundo a secretaria, foi conseguida 95,6% de cobertura vacinal, acima da meta do Ministério da Saúde.

    Os casos na USP

    Em 3 de julho, o campus da USP (Universidade de São Paulo), no Butantã, registrou o primeiro caso de aluno diagnosticado com a doença, na FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas). Na ECA (Escola de Comunicações e Artes), também da USP, há pelo menos um caso confirmado da doença, além de outros suspeitos.

    A FFLCH realizou uma ação de “vacinação de bloqueio” nas suas instalações. O objetivo é incrementar a imunidade geral por meio da vacinação de qualquer pessoa que costume circular pela área, mesmo que já seja vacinada ou já tenha contraído a doença previamente. Acredita-se que esse tipo de ação, feita em até 72 horas depois do primeiro caso, contribua para “efetivamente interromper a circulação do vírus e controlar os surtos”.

    “As fake news atrapalham em tudo, mas a saúde é a grande prejudicada”

    Solange Saboya

    Coordenadora da Covisa (Coordenadoria da Vigilância em Saúde)

    Quando a secretaria tem uma suspeita da doença promove ações de vacinação nos oito quarteirões em torno da casa do doente e em ambientes frequentados por ele, como condomínio, escola e trabalho.

    Na ação da FFLCH não houve vacinas o suficiente para atender à procura. Segundo a coordenadora da Covisa, este problema não deve acontecer nas unidades de saúde do município, que têm estoques suficientes

    As orientações da prefeitura

    De acordo com o site da Secretaria Municipal de Saúde, para além da campanha pontual, as orientações para vacinação conforme a idade são estas:

    • Todas as crianças que tenham mais de 12 meses e menos de 5 anos (quatro anos, 11 meses e 29 dias): devem tomar uma dose aos 12 meses (tríplice viral) e outra aos 15 meses (tetra viral);
    • Todas as pessoas de 5 a 29 anos que não receberam a vacina antes, devem tomar duas doses da vacina tríplice viral, com o intervalo mínimo de 30 dias entre elas. Se tomou só uma dose, basta receber mais uma, completando a sequência vacinal.
    • Todas as pessoas de 30 até 59 anos de idade completos em 2019 (nascidas a partir de 1960) que nunca receberam a vacina, devem ter aplicação de apenas uma dose da vacina tríplice viral.
    • Pessoas acima de 59 anos (nascidas antes de 1960) não precisam tomar a vacina.

    O sarampo pelo país

    Em 2016, o Brasil foi considerado livre do vírus do sarampo pela Opas (Organização Pan-Americana da Saúde). Em abril de 2019, ao ultrapassar as 10 mil notificações de casos de sarampo, o país perdeu a certificação da Opas que reconhecia a erradicação da doença.

    No ano anterior, dois surtos da doença foram registrados em Amazonas (9.778 casos) e Roraima (355 casos). Neste ano, além de São Paulo, casos isolados foram registrados no Rio Grande do Sul, Rondônia e Rio de Janeiro. Até 15 de junho eram 123 casos em todo o país computados em 2019.

    O fato de que a doença havia saído de circulação fez com que muitas pessoas baixassem a guarda e deixassem de se vacinar

    Em abril, a OMS afirmou que casos notificados de sarampo no mundo subiram 300% no primeiro trimestre de 2019, em relação ao mesmo período do ano anterior. Anos anteriores também registraram aumentos.

    Fake news e despreocupação

    Dados do Ministério da Saúde apontavam que cerca de metade dos municípios do país não havia atingido a meta da cobertura vacinal contra o sarampo, que é igual ou maior que 95%. Quanto menor o alcance da proteção, mais facilmente o vírus se alastra.

    Em estados com grande número de casos, a cobertura está muito abaixo da meta: no Pará, 83,3% dos municípios não a atingiram; em Roraima, o número chega a 73,3%; e no Amazonas, 50%.

    Para especialistas, a circulação de pessoas faz o vírus viajar de um lugar para outro. Entretanto, o fato de que a doença havia saído de circulação fez com que muitas pessoas baixassem a guarda e deixassem de se vacinar.

    Além disso, movimentos contra a vacina em conjunto com a disseminação de boatos e notícias falsas contribuíram para a retomada do sarampo. “As fake news atrapalham em tudo, mas a saúde é a grande prejudicada”, observou Saboya. “Dizem que a vacina mata, que dá autismo, não é nada disso. Ela é segura e amplamente testada.”

    No município de Santa Maria (RS), em março de 2019, circulou um áudio no WhatsApp dizendo que pessoas de branco passando nas casas dos moradores para fazer exame de glicose seriam mal-intencionadas. Segundo o boato, sua intenção real era usar a agulha para  transmitir o vírus do HIV.

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