Para que servem os festivais literários nos dias de hoje

Três profissionais ligados ao tema falam ao ‘Nexo’ sobre o papel desse tipo de evento, sobre seu público e sobre o lugar ocupado pela Festa Literária de Paraty

A Festa Literária Internacional de Paraty chega à sua 17ª edição, entre 10 e 14 julho de 2019, tendo como homenageado o jornalista Euclides da Cunha. Nessas quase duas décadas, o festival — considerado o maior evento literário da América Latina — se firmou como uma data central no calendário cultural e também do mercado editorial no país.

Essa continuidade não se deu sem críticas e tensões. A Flip já foi chamada de esnobe e “leite com pera”. Viu surgir eventos paralelos, com programações autônomas, como a Flipei, Festa Literária Pirata das Editoras Independentes. E também foi cobrada para que tivesse mais autores negros e mulheres em sua programação.

Em 2015, o então curador do evento, Paulo Werneck, se contrapôs à “tentativa de pichar a Flip ou qualquer festival literário como sendo uma badalação frívola e mundana”. Hoje editor da revista Quatro Cinco Um, Werneck defendeu a ideia de que o evento de Paraty busca democratizar a literatura. Nos anos mais recentes, a festa literária foi se tornando mais plural.

Na esteira do sucesso da Flip, outros festivais importantes surgiram, como a Fliporto (Feira Literária Internacional de Pernambuco), o Fliaraxá (Festival Literário de Araxá), a Flima (Festa Literária Internacional da Mantiqueira), a Flup (Festa Literária das Periferias), entre outros.

O Nexo perguntou a três figuras do meio literário sobre o papel desse tipo de evento hoje, qual seu público no Brasil e qual lugar a Flip ocupa nesse meio atualmente:

  • Leandro Sarmatz é editor na Todavia Livros
  • Diane Padial é idealizadora e produtora da Felizs (Feira Literária da Zona Sul)
  • Schneider Carpeggiani é doutor em teoria literária e editor do Suplemento Pernambuco, publicação especializada em literatura

Para que servem as festas e festivais literários?

Leandro Sarmatz Para os leitores, a oportunidade de ficar mais próximo de seus autores favoritos. Para os autores, um novo mercado e um aprendizado de como se “colocar” diante de plateias e mídias (algo incomum e até impensável algumas décadas atrás; a pletora de festivais e eventos exigiu uma reeducação do autor). Para editoras, uma ocasião para amarrar as pontas, frequentemente soltas, em um mesmo ambiente: o leitor e o autor, o livro e as pessoas.

Diane Padial Acredito que esses eventos têm em comum o propósito de dar visibilidade aos autores, promover a literatura por meio de encontros, reflexões e acesso à produção intelectual. Servem ainda para dar escoamento à produção, para a promoção das editoras e autores independentes e para aquecer o mercado editorial.

Como idealizadora da Felizs, que chega em 2019 em sua quinta edição, acredito que temos os objetivos citados acima somados a outros: pensamos em promover os autores da periferia, tornar suas obras mais conhecidas, incentivar estudantes em relação à leitura, trazer os professores para dialogarem sobre suas dificuldades, apresentar os autores para alunos dentro de suas próprias escolas, promovendo conversas com esses autores em escolas onde estas atividades são bem raras. 

O incentivo à escrita e à leitura é uma condição essencial que buscamos promover, fazendo da literatura um instrumento pedagógico e aproximando-a da comunidade local, o que é um grande desafio.

Schneider Carpeggiani Até cerca de cinco anos atrás, os eventos literários (de festas como a Flip a feirões como as bienais) eram sobretudo vitrines, passarelas de tendências, como as semanas de moda de antes.

Acho que os festivais literários precisam investir em ser pontos de encontro, de congregação entre leitores, autores, promotores, enfim entre quem faz o mercado de livro existir. Assim, eventos mais plurais, menos separatistas, fazem mais sentido na lógica atual.

Em crise, as pessoas querem estar juntas — vide o sucesso de grupos como o projeto Leia Mulheres. Quanto mais os eventos entenderem isso, melhor para eles e, claro, mais negócios serão feitos.

Esses eventos costumam identificar ou lançar tendências?

Leandro Sarmatz Quando a curadoria é afiada, os festivais ajudam a detectar tendências, a cristalizar novas vertentes, a consagrar autores que mereceriam mais atenção. Só isso já garante o êxito de um bom festival.

Diane Padial Sim, acho que sempre surgem novidades, assuntos relevantes, imprescindíveis de ser discutidos nesses espaços. Mas somos um dos primeiros saraus da cidade de São Paulo e nunca havíamos sido chamados para a Flip, por exemplo. Só neste ano entramos na sua programação oficial.

Schneider Carpeggiani Com as redes sociais, a pluralização de pequenas e micro-editoras e, claro, a crise das grandes redes, isso mudou. Não podemos deixar de citar também o natural declínio da capacidade das grandes editoras tradicionais em se manter como eternos e solitários radares de novidades... As tendências não podem esperar ou não dependem tanto do calendário dos eventos fixos. Hoje é mais fácil ter acesso ao que está sendo lançado. E há mais eventos independentes rolando.

Quem frequenta esses eventos hoje?

Leandro Sarmatz Cada vez mais, um público diversificado em termos de idade, origem e repertório — o que tem sido fundamental para arejar o meio editorial e literário. Os festivais estão buscando cada vez mais novos públicos.

Diane Padial São diversos os segmentos e perfis dos frequentadores: estudantes, professores, intelectuais e estudiosos de assuntos relacionados à literatura, um público mais voltado a estar por “dentro” da esfera cultural.

Na Felizs, buscamos circular pelo território com as atividades em espaços culturais e educacionais, buscamos trazer as pessoas comuns da comunidade, realizamos um dia de atividade em praça pública, para atingir aqueles que nunca viram uma feira literária.

Schneider Carpeggiani Quando foi anunciado o corte de verbas para a educação há alguns meses, entrei em parafuso: quem trabalha com livro (seja editando, vendendo ou escrevendo sobre livro) depende basicamente de professores e de alunos. São as escolas, universidades e seu entorno que sustentam grande parte do público desses eventos. Assim, o mercado editorial deveria estar bem integrado à luta pela educação. É da educação que depende nossa vida ou morte.

Que lugar a Flip ocupa nesse meio?

Leandro Sarmatz Pelo pioneirismo e consistência ao longo dos anos e das diversas curadorias, a Flip tem lugar de destaque no calendário editorial do Brasil. Paraty é sempre um momento especial para autores e editores. E confio que será sempre assim.

Diane Padial Daqui [da periferia] a grande maioria nunca foi à Flip, mas ela é uma referência de um lugar da literatura. Pode ser criticada ou elogiada, mas por meio dela podemos nos inspirar para oferecer algo semelhante, redesenhada sob a ótica de interesses que vão ao encontro do povo das periferias, que carece de atividades culturais de qualidade e locais para expressarem suas artes.

Schneider Carpeggiani Não existe apenas uma Flip como antes. Existe a Flip da programação da tenda dos autores e existe também essa outra Flip, que acontece ao redor da Flipzona e que não pode mais ser tratada como secundária. É a Flip das casas das editoras pequenas (ou bem pequenas) que traz uma programação plural a Paraty. Que traz autores e publicações fora do radar tradicional. E que enche os bares.

Se você agregar todas essas Flips (e fazer alianças é a chave de sobrevivência fundamental para esses tempos), a ideia de Flip permanece imbatível.

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