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Como João Gilberto revolucionou a música brasileira sem fazer barulho

Considerado o pai da bossa nova, músico baiano morreu no Rio de Janeiro, no dia 6 de julho, aos 88 anos

Em sua autobiografia, o produtor musical André Midani conta sobre o dia em que Dorival Caymmi “nos contou a história de um jovem baiano recém-chegado ao Rio, de grande talento e de uma musicalidade muito original, que ele gostaria de nos apresentar”. Quando o encontro aconteceu, Midani conta que o rapaz era “ainda mais tímido do que a turma da bossa nova”.

Em pouco tempo, o moço quieto promoveria uma revolução na música brasileira, despindo o samba até sobrar só sua essência rítmica e melódica. O jeito baixinho de cantar e a batida no violão trazidas em “Chega de Saudade”, de 1958, soavam diferentes de tudo que havia até então.

João Gilberto Prado Pereira de Oliveira morreu em 6 de julho de 2019, aos 88 anos. A causa da morte não foi divulgada. Natural de Juazeiro, Bahia, ele é conhecido como pai da bossa nova. João Gilberto pertence a um pequeno clube de extraordinários da música brasileira.

Tocada nas rádios, “Chega de Saudade”, composição de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, teve impacto imenso. A música, parte do álbum “Canção do amor demais”, gravado por Elizete Cardoso em 1958 e considerado o disco que inaugurou a Bossa Nova, tinha João Gilberto ao violão. Em 1959, a música foi lançada em álbum que levou o mesmo nome. O LP de estreia de João Gilberto. “Aquilo era diferente de tudo que eu já tinha ouvido”, lembrou o produtor Nelson Motta por ocasião dos 60 anos do álbum. “Fiquei ouvindo aquilo extasiado (...) era uma novidade em todos os sentidos”, recordou o jornalista Zuza Homem de Mello.

Por mais orgânico e natural que pareça, João Gilberto é um fenômeno da tecnologia, no caso do avanço da tecnologia da microfonagem. A sensibilidade e nitidez maior das captações permitia que o cantor mantivesse um registro sutil e suave, emparelhado com o dedilhado do violão, um instrumento que até então não costumava ser destacado.

“Uma das músicas que despertaram, que me mostraram que podia tentar uma coisa diferente foi ‘Rosa Morena’, do Caymmi. Sentia que aquele prolongamento de som que os cantores davam prejudicava o balanço natural da música. Encurtando o som das frases, a letra cabia certa dentro dos compassos e ficava flutuando. Eu podia mexer com toda a estrutura da música, sem precisar alterar nada. Outra coisa com que eu não concordava era as mudanças que os cantores faziam em algumas palavras, fazendo o acento do ritmo cair em cima delas para criar um balanço maior. Eu acho que as palavras deveriam ser pronunciadas da forma mais natural possível, como se estivesse conversando. Qualquer mudança acaba alterando o que o letrista quis dizer com seus versos. Outra vantagem dessa preocupação é que, às vezes, você pode adiantar um pouco a frase e fazer às vezes com que caibam duas ou mais num compasso fixo. Com isso, pode-se criar uma rima de ritmo. Uma frase musical rima com a outra sem que a música seja artificialmente alterada”, João Gilberto explicou ao jornalista Tarik de Souza, em uma rara entrevista na década de 1970.

A bossa nova vinha sendo gestada em reuniões de apartamentos e encontros em faculdades da zona sul do Rio de Janeiro, por músicos como Nara Leão, Carlos Lyra e Roberto Menescal. Eram jovens de classe média, ligados em jazz e que queriam atualizar o samba do mesmo modo como o Brasil se modernizava nos anos JK (Juscelino Kubitschek).

A carreira

Em 1960, João Gilberto lança o álbum “O Amor, o Sorriso e a Flor”, e , no ano seguinte “João Gilberto”. Em 1962, se apresenta ao lado de Tom Jobim, Menescal e Lyra no Carnegie Hall, em Nova York. A bossa nova faz sucesso nos Estados Unidos e João decide se mudar para lá

Ao lado do saxofonista americano Stan Getz, grava o álbum “Getz/Gilberto”, em 1964. Durante esse período, lança álbuns esporádicos, mas fundamentais: “João Gilberto”, de 1973, e “Amoroso”, em 1977. O cantor só voltaria a morar no Brasil no início dos anos 1980.

Nesta década, grava os álbuns “João Gilberto Prado Pereira de Oliveira” e “Brasil - João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia”, respectivamente, em 1980 e 1981. O primeiro disco é fruto de um especial gravado para a TV Globo, com participações de Rita Lee e da filha Bebel Gilberto.

Realiza excursões pelo Brasil e pelo exterior. O álbum “Live At The 19th Montreux Jazz Festival” registra uma dessas apresentações, no renomado festival de jazz suíço.

É nesse período que se espalha a fama do João “difícil”, que cancela shows em cima da hora, reclama de plateias barulhentas e é rigoroso com aspectos técnicos de apresentações como a acústica da sala e o sistema de som.

Pelas próximas décadas, shows e álbuns vão rareando. Quase todos os lançamentos são gravações de espetáculos. Uma exceção é “João Voz e Violão”, de 2001. Produzido por Caetano Veloso, recebe o Grammy na categoria de melhor álbum de World Music.

Em 2008, realizou sua última apresentação ao vivo. Uma turnê em comemoração de seus 80 anos, em 2011, foi abortada por motivos de saúde.

Cada vez mais recluso, João Gilberto se recusava a dar entrevistas (nunca havia sido muito chegado nesse ritual) e só recebia familiares. Em 2017, a filha Bebel entrou na Justiça solicitando a interdição do pai devido à precariedade de sua situação financeira e de saúde. Um dos objetivos da filha era combater a influência de Cláudia Faissol, ex-companheira de João, na vida do músico. Para chegar no cantor, a polícia precisou arrombar a porta do apartamento onde vivia, no Leblon.

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