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A pequena sereia negra. E a representatividade nas telas

Críticas à escalação de atriz para interpretar a personagem Ariel falam em ‘whitewashing reverso’. Entenda o que é isso, e por que a prática não se aplica ao caso

A escolha da cantora e atriz americana Halle Bailey para interpretar o papel de Ariel na versão live action (com atores reais, em oposição a um filme de animação) de “A Pequena Sereia” foi anunciada na quarta-feira (3) pela Disney. As filmagens terão início em 2020.

Na primeira versão do filme de animação, de 1989, a sereia era branca e ruiva. Agora, passará a ser negra na nova versão, interpretada por Bailey. O anúncio feito pelo estúdio americano foi criticado por pessoas nas redes sociais e se tornou alvo de comentários racistas.

Alguns compararam a escalação da atriz à prática de “whitewashing”, antiga e recorrente na indústria cinematográfica americana. A prática, que em tradução literal significa “lavagem branca”, consiste em escalar atrizes e atores brancos para papéis de personagens asiáticos, latinos, negros ou indígenas.

Outros comemoraram, defendendo que, por ser uma personagem mítica, a sereia Ariel não precisa necessariamente ser vivida por uma atriz branca. A história que inspira o filme foi escrita por Hans Christian Andersen, autor de histórias infantis do século 19. 

O caso de James Bond

Uma semana antes do anúncio de que Bailey vai interpretar Ariel em “A Pequena Sereia”, um caso semelhante havia gerado discussão e debates nas redes. O nome do ator britânico Idris Elba, que é negro, foi especulado para ser o próximo James Bond, papel interpretado por atores brancos nas dezenas de filmes da franquia “007” produzidos desde a década de 1960.

Em uma entrevista publicada em 28 de junho de 2019, Elba se disse desanimado com comentários racistas sobre sua possível escalação para o papel. “Não preciso me colocar nessa posição”, disse o ator de “Vingadores” e “Thor” à revista Variety.

A falta de representatividade negra nas telas

A diferença entre o procedimento do whitewashing, sistematicamente praticado por Hollywood, e a escolha de atores negros para papéis anteriormente feitos por brancos, é que pessoas brancas ocupam, historicamente, papéis de destaque no cinema e em outras áreas do entretenimento.

Nas primeiras décadas do século 20, o cinema americano fazia uso de tinta para transformar atrizes e atores brancos em personagens negros ou asiáticos geralmente interpretados de maneira exagerada, burlesca e carregada de estereótipos. Essas práticas, chamadas respectivamente de blackface e yellowface, são consideradas racistas.

A representatividade nas telas ainda está longe de corresponder à realidade. Apesar de serem quase 40% da população americana em 2017, pessoas não brancas tiveram o papel principal em 19,8% dos 200 filmes americanos de maior bilheteria daquele ano, segundo a edição de 2019 do relatório anual de diversidade em Hollywood, feito pela Universidade da Califórnia em Los Angeles.

“Somos diariamente bombardeados e ensinados que o normal é branco, o ser universal é branco, os personagens em sua maioria esmagadora são todos brancos”, escreveu a produtora da Perifacon Andreza Delgado para o site Omelete. Para ela, o exercício de pensar que Ariel ou outros personagens podem ser negros ajuda a rever a construção desse imaginário.

Em um vídeo no qual defende a importância de uma Ariel negra, o crítico e youtuber Spartakus Santiago,que aborda temas ligados à cultura pop e às questões racial e LGBTI, destaca a importância dos filmes da Disney para o imaginário de uma determinada época.

Todas brancas há até pouco tempo, as princesas da Disney representam um ideal de beleza para muitas meninas. A possibilidade de que essas personagens sejam de outras etnias contribui para a autoestima de meninas negras e não-brancas em geral.

Para além do cinema ou do entretenimento, a escritora, arquiteta e ativista feminista negra Joice Berth também chama atenção para a quantidade de figuras negras que foram embranquecidas ao longo da história, como o escritor Machado de Assis.

“A branquitude é centrada e tem senso de coletividade, então se instala nos lugares de destaque e seleciona a dedo os seus iguais para ocupar esses espaços e, assim, fazer um paredão branco que impede qualquer ‘penetração racial indevida’. Vemos isso em todos os lugares, todos os dias”, escreveu Berth em um post em sua conta no Instagram.

Para Berth, deslocar a cor da pele de um personagem branco “é uma das formas de combate a ideologia racista de supremacia branca, que faz as pessoas acreditarem que são universais. O imaginário das pessoas ainda é bombardeado com informações negativas e depreciativas sobre a raça negra e tem no seu inconsciente que ser branco é régua e padrão pra tudo nesse mundo. Questionar isso é pesado, a reação é violenta e barulhenta. Mas é preciso. Linda escolha da Disney”.

O argumento da fidelidade

Além da crítica de a escolha se tratar de “whitewashing reverso”, um outro ponto levantado nas redes sociais após a escalação de Bailey para representar a sereia é que a seleção de uma atriz negra não condiz com a origem dinamarquesa da personagem ou com a aparência da Ariel do primeiro filme, de 1989.

O conto que inspirou a animação da Disney é do dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875). Os aspectos sinistros da história original foram suprimidos pela versão infantil criada pela Disney. 

A aparência da personagem Ariel no filme de 1989 foi parcialmente inspirada na atriz Alyssa Milano, então uma estrela mirim. O animador Glen Keane também já declarou que sua esposa inspirou o desenho da personagem. 

Não há indicações de que a animação da Disney se passe no Mar do Norte, que banha a costa da Dinamarca. Na dublagem em inglês, o companheiro de Ariel, o crustáceo Sebastião, tem sotaque jamaicano, o que, para alguns, leva a crer que a história se passe no Caribe.

“A pequena sereia vive em um recife de coral tropical, com uma lagosta cantora de calypso que tem um forte sotaque jamaicano. Se você parar pra pensar, é bizarro que ela fosse branca no primeiro filme”, tuitou a escritora e jornalista inglesa Caitlin Moran.

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