Ir direto ao conteúdo

Por que estudar música pode melhorar o desempenho escolar

Pesquisa realizada a partir do histórico de mais de 110 mil alunos canadenses relacionou prática a notas melhores

 

Aprovada em 2008, a lei número 11.769 inseriu o ensino de música como parte da grade curricular das escolas da rede pública e privada do Brasil. Apesar disso, ainda hoje a maior parte das instituições de ensino não oferece a disciplina.

As discussões sobre mudanças curriculares no Brasil, no geral, trazem à tona o argumento de que inserir novas disciplinas na grade pode retirar o foco dos alunos. Com mais disciplinas, eles ficariam com menos tempo para estudar matérias básicas, que sairiam prejudicadas.

Um estudo publicado em junho de 2019 no Journal of Educational Psychology indica, no entanto, que, ao menos no caso do ensino da música, esse argumento pode não se aplicar. Isso porque o trabalho concluiu que alunos que estudavam mais música se saíram melhor nas disciplinas básicas: ciências, matemática e inglês (língua oficial dos estudantes pesquisados).

A pesquisa foi realizada a partir do histórico escolar de mais de 110 mil alunos canadenses, e indicou que os que estudavam música tendiam a ter notas melhores.

Trata-se de um estudo observacional, ou seja, que apenas observa dados, sem estabelecer, a princípio, causa e consequência. Mas, como a tendência a notas melhores ocorreu em estudantes de diversos tipos, independente de perfil socioeconômico ou background cultural, por exemplo, os pesquisadores acreditam que encontraram uma causalidade.

Como a pesquisa foi feita

O trabalho se baseou em dados coletados no decorrer de vários anos entre alunos da província da Colúmbia Britânica, no Canadá, para buscar captar associações entre a prática de aulas de música entre alunos do ensino secundário e suas notas em exames de matemática, ciências e inglês.

No total, os pesquisadores analisaram o histórico escolar de 112.916 alunos do ensino médio da província - no Canadá, o ensino secundário ocorre entre os 12 e 18 anos. Para se formar no ensino secundário na Colúmbia Britânica, alunos precisam executar pelo menos um curso de artes (música, teatro, dança ou artes visuais), ou então educação financeira ou economia doméstica.

Foram consideradas também informações sobre perfil socioeconômico e os resultados obtidos pelos alunos durante o ensino infantil. A pesquisa buscou responder a estas perguntas:

  • Há uma diferença média entre alunos que participaram de atividades musicais na escola e alunos que não participaram de atividades na escola?
  • Essa diferença é significativa, mesmo considerando as conquistas acadêmicas anteriores, gênero, status socioeconômico e background cultural?
  • Os resultados são diferentes de acordo com a matéria estudada (ciências, matemática ou inglês)?
  • A associação é diferente se a música praticada pelo aluno é instrumental ou vocal?
  • A associação difere de acordo com o nível de excelência em música obtida anteriormente pelos estudantes? Ou seja, alunos que são músicos melhores têm também uma tendência maior a obter notas mais altas do que aqueles que são músicos, mas de um nível inferior?

O que o estudo concluiu

O trabalho concluiu que alunos que realizavam cursos de música na escola tendiam a ter resultados melhores em inglês, matemática e em ciência, de forma similar entre as três matérias. Essa associação se mantinha independentemente de perfil socioeconômico, gênero ou background cultural.

Isso, segundo a pesquisa é um indício de que pode haver uma relação de causa e efeito entre estudar música e se sair melhor nos estudos. Os resultados sugerem “que a música tem uma influência positiva nos resultados escolares, e não é apenas o resultado de diferenças individuais”.

“As diferenças foram substanciais ao se comparar as notas de estudantes com um comprometimento muito grande com música instrumental em comparação com aqueles sem nenhum comprometimento”, diz o trabalho.

Isso contraria a tese de que determinar que alunos gastem mais tempo estudando música representa um “custo de oportunidade”, à medida que sobra menos tempo para que possam estudar inglês, ciências ou matemática.

Os efeitos foram maiores no caso de estudantes que praticavam música instrumental do que entre aqueles que praticavam apenas música vocal. Estudantes que tinham desempenho superior em música tendiam a se sair ainda melhor do que aqueles que estudavam música mas não atingiam o mesmo nível de proficiência.

O trabalho também trouxe algumas hipóteses que podem ajudar a explicar a associação entre ensino de música e desempenho melhor em outras disciplinas.

Funções executivas para atenção

O termo “função executiva” é usado para se referir ao grupo de processos cognitivos executados por humanos para regular seu próprio comportamento. Isso inclui, por exemplo, o controle da atenção, flexibilidade e memória de trabalho, que é uma parte da memória de curto prazo responsável por guardar temporariamente informações e executar determinada função.

Uma das teorias usadas para explicar a associação entre melhor desempenho em ciências e o estudo de música é o fato de que essa prática pode ter um impacto positivo nas funções executivas.

“Fazer música frequentemente envolve vários processos relacionados a funções executivas, incluindo antecipação, planejamento, memória, sincronização com outros músicos; a produção de música instrumental em especial leva à alternância entre tarefas mentais ou físicas (por exemplo: rearranjar os dedos para executar padrões), relembrar a partir da memória de trabalho diferentes peças de música e padrões de execução, e também ter controle substancial sobre os próprios comportamentos expressivos”, diz o trabalho.

Motivação para executar tarefas

Uma outra linha de explicação sugere que a prática de música pode levar ao desenvolvimento de características ligadas a motivação. Isso inclui, por exemplo, disciplina de aprendizado e capacidade de executar funções que levam ao domínio de algo.

“O processo de treino de música -que frequentemente inclui horas de prática, tipicamente de forma solitária, e o compromisso com o treinamento musical concomitantemente com outras atividades curriculares e extracurriculares- pode fomentar características ligadas à motivação”, afirma o estudo.

Alunos de música que conseguem dominar um instrumento podem atingir uma percepção de “auto-eficácia”, ou seja a crença na própria capacidade de ter sucesso ao lidar com determinado desafio. Isso pode contribuir para que se sintam motivados a dominar outros campos do conhecimento de forma resoluta.

“Programas de intervenção baseados em música já observaram melhoras em autoestima, confiança, disciplina e motivação entre jovens”, afirma o trabalho. Em um outro estudo citado na pesquisa, um grupo de estudantes que “recebeu lições de piano no decorrer de três anos demonstrou ganhos de autoestima (especificamente na dimensão acadêmica), enquanto o grupo de controle não demonstrou esses ganhos”.

Desenvolvimento social e pessoal

Uma outra teoria para explicar esses ganhos é a ideia de que estudantes que participam de atividades musicais têm a chance de se conectarem com outras pessoas, e de obterem a sensação de que conquistaram algo como grupo.

“A experiência de um clima acadêmico e disciplinar positivo está, por sua vez, relacionada a maiores conquistas acadêmicas, e menores taxas de evasão escolar”, diz o estudo.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!