Ir direto ao conteúdo

O projeto que criará mais monumentos de mulheres em Nova York

‘She Built NYC’ quer aumentar número de estátuas no espaço público da cidade que homenageiem figuras históricas femininas

 

Entre as 150 estátuas que povoam o espaço público da cidade de Nova York, nos Estados Unidos, apenas cinco atualmente representam figuras históricas femininas: a guerreira francesa Joana d’Arc, Golda Meir, fundadora e chefe de governo do Estado de Israel, a abolicionista Harriet Tubman, a escritora Gertrude Stein e a ex-primeira dama Eleanor Roosevelt. 

Um projeto chamado She Built NYC (Ela construiu Nova York) pretende reparar esse desequilíbrio de gênero nos monumentos da cidade, criando novas estátuas para que as mulheres cheguem a 50% das figuras históricas representadas.

A primeira delas deve ser inaugurada no final de 2020 e os monumentos serão permanentes.

A cidade de São Paulo apresenta uma proporção parecida de mulheres homenageadas no espaço público.

Segundo um levantamento feito em 2017 pela revista Veja São Paulo, a capital conta com mais de 140 monumentos, marcos, estátuas e bustos públicos que homenageiam personalidades de destaque, mas apenas oito dessas obras retratam figuras femininas. A mais antiga delas, da musicista Antonieta Rudge (1885-1974), foi inaugurada somente em 1977.

De onde vem a iniciativa

A campanha foi idealizada por Chirlane McCray, primeira-dama de Nova York desde 2014, quando seu marido Bill de Blasio assumiu a prefeitura da cidade, e Alicia Glen, ex-secretária de Habitação e Desenvolvimento Econômico.

Ela faz parte de uma iniciativa maior, também da autoria de McCray e Glen, chamada Women.NYC, portal de carreira e negócios voltado para mulheres. O site serve de plataforma agregadora para oportunidades da cidade que são de interesse das mulheres, como aulas gratuitas de tecnologia e recomendações de investimento.

Em parceria com o Departamento de Cultura da cidade (a denominação equivale às secretarias municipais no Brasil), o Women.NYC lançou em junho de 2018 uma chamada aberta para indicações de eventos e mulheres que deveriam figurar nos monumentos. 

De mais de 2 mil sugestões, apenas sete foram selecionadas até o momento e devem figurar no espaço público da cidade.

Segundo o site Citylab, isso se deve ao processo oficial de seleção de novos monumentos da cidade, que passa por uma comissão de composição tradicional e é regido por um estatuto. Um porta-voz do Departamento de Cultura, porém, declarou que McCray e Glen tiveram a palavra final na aprovação.

A construção dos monumentos custará US$ 10 milhões à prefeitura, como parte da política de diversificação das obras de arte públicas instituída pela administração de Blasio. 

Propostas de monumentos e placas comemorativas que prevejam financiamento privado também serão consideradas no projeto.

Quem são as mulheres homenageadas

Marsha P. Johnson (1945-1992) e Sylvia Rivera (1951-2002). Mulheres transexuais que participaram da Revolta de Stonewall na década de 1960 constam entre as personalidades agraciadas em Nova York.

De acordo com o anúncio da prefeitura, trata-se do primeiro monumento do mundo a homenagear pessoas transgênero, ou seja, que têm identidade de gênero diferente daquela que lhes foi atribuída ao nascer.

Ao Citylab, Chirlane McCray declarou ter sido impossível não ficar arrepiada ao anunciar as estátuas de Johnson e Rivera, devido à magnitude do gesto para muitas pessoas “não só em termos da história da nossa cidade, mas para pessoas que estão lá e não se sentem visíveis ou representadas”.

Segundo McCray, quando pessoas são excluídas da paisagem e das histórias contadas no espaço público, propaga-se a mensagem de que elas não importam para a identidade da cidade.

4 outras homenageadas

Shirley Chisholm (1924-2005)

Política e educadora, Chisholm foi a primeira mulher negra eleita para o Congresso americano, em 1968, onde cumpriu sete mandatos pelo 12º distrito de Nova York.

Por ela ser natural do Brooklyn, sua estátua será colocada em uma das entradas do Prospect Park até o final de 2020. Por ser o primeiro monumento instalado pelo She Built NYC, é o único cujos artistas responsáveis já foram escolhidos – será projetado por Amanda Williams e Olalekan Jeyifous.

Billie Holiday (1915-1959)

Conhecida por seu nome artístico, Eleanora Fagan foi uma cantora de jazz com timbre e estilo únicos, considerada uma das maiores de sua época.

Sua carreira teve início nos clubes de jazz da cidade na década de 1930 e ela foi uma moradora do Queens, de modo que sua estátua ficará próxima ao edifício Queens Borough Hall.

Elizabeth Jennings Graham (1827-1901)

Professora e defensora pioneira dos direitos civis da população negra, Graham lutou para que os bondes de Nova York deixassem de ser segregados entre negros e brancos. O monumento dedicado a ela deve ser colocado próximo à Estação Grand Terminal, em Manhattan.

Seu protesto ocorreu em 1854, um século antes de Rosa Parks se recusar a sentar no fundo de um ônibus em Montgomery, no Alabama, e se tornar um símbolo para o movimento negro americano.

No ano seguinte, seu caso foi levado ao tribunal e ela venceu, ganhando uma indenização por ter sido retirada de um bonde de brancos por um policial. Na decisão, a Suprema Corte de Nova York também determinou que afro-americanos não poderiam ser excluídos do transporte público (desde que estivessem “sóbrios, bem comportados e livres de doenças).

Dr. Helen Rodriguez Trías (1929-2001)

Pediatra e ativista pelos direitos das mulheres, Trías foi a primeira mulher de origem latina a presidir a Associação Americana de Saúde Pública. Ela fundou, na década de 1970, um comitê dedicado a acabar com as esterilizações forçadas, que vinham sendo praticadas sobretudo contra as porto-riquenhas. Na década de 1980, dirigiu o Instituto de Aids do Departamento de Saúde de Nova York. Sua estátua será instalada no St. Mary’s Park, no Bronx, próximo ao Lincoln Hospital, onde ela comandou a ala pediátrica.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!