O que é o Enem Digital. E quais suas vantagens e desafios

Ministério da Educação anunciou que provas no papel serão abolidas em 2026, com exames em computador feitos por parte dos inscritos já a partir de 2020

 

O Ministério da Educação anunciou na quarta-feira (3) que o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) irá abandonar gradativamente as provas de papel e será totalmente digital a partir de 2026. A primeira aplicação online ocorrerá em 2020, de maneira experimental. O anúncio não interfere na prova de 2019, que será feita integralmente em papel nos dias 3 e 10 de novembro.

O primeiro projeto-piloto deverá ocorrer em 15 capitais, para um público de 50 mil candidatos, o que corresponde a apenas 1% do total de participantes. O plano experimental custará R$ 20 milhões, segundo o governo.

No período de transição, estudantes poderão optar pela prova digital, até que a cota seja preenchida. Haverá uma data para a reaplicação do teste nos casos em que o candidato for prejudicado por falhas de logística ou problemas de infraestrutura durante sua realização.

5,5 milhões

de pessoas se inscreveram no Enem de 2019

R$ 500 milhões

é o custo estimado da prova em 2019

11,5 milhões

de provas serão impressas em 2019

R$ 85

foi o valor da inscrição para a edição de 2019; as taxas só cobrem cerca de 25% do custo total da prova

492 mil

pessoas estão envolvidas na elaboração, distribuição, aplicação e correção do exame em 2019

1.725

municípios vão receber o Enem em 2019

O cronograma da digitalização

A ideia do Ministério da Educação é que, em 2021, ocorram duas aplicações digitais ao longo do ano. O plano é que esse número aumente gradativamente, entre 2022 e 2025, até quatro aplicações.

A prova de papel continuará existindo nessa etapa. Um estudante não poderá fazer mais de um Enem no mesmo ano. Em 2026, o papel será banido e apenas a prova digital será realizada.

“Há cem anos a gente faz exame do mesmo jeito, em papel. Queremos fazer como é feito lá fora”

Abraham Weintraub

Ministro da Educação, durante anúncio sobre o Enem digital

O estudante que for fazer o Enem digital vai ter de ir até o colégio responder às questões diretamente no computador, em vez de fazer isso no papel. “A pessoa pode receber a prova inteira, já corrigida, assim que der o enter final”, disse Weintraub. A ideia do MEC é fechar parcerias com as secretarias de educação e usar equipamentos das instituições de ensino de cada cidade.

A tecnologia em sala de aula

Dados mais recentes da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) sobre o uso de tecnologia em sala de aula, presentes num relatório de 2015, mostram que 73,5% dos estudantes brasileiros tinham pelo menos um computador em casa em 2012. O número era 20% superior ao de 2009. Mas, em comparação a outros países, o Brasil ia mal. A taxa era de 94,5% nos Estados Unidos.

Em relação à estrutura das escolas, o país também não apresentava bons resultados. Sua taxa era de 22,1 alunos por computador em sala de aula, enquanto a média entre os países da OCDE era de 4,7 alunos por computador (nos Estados Unidos, existia um computador para 4,2 estudantes).

20%

das escolas públicas de ensino médio no Brasil não têm banda larga, segundo o Censo Escolar de 2018

A origem da ideia

Planos de digitalização do Enem existem desde que a prova ganhou o formato atual, em 2009, e passou a ser usada como uma espécie de vestibular. A transição para o modelo online começou a ser discutida com maior vigor a partir de 2012. Já era, portanto, defendida pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) e por funcionários do MEC nas gestões anteriores.

No governo da presidente Dilma Rousseff, cogitou-se usar o modelo no Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes), que avalia o rendimento de quem conclui cursos de graduação, o que não ocorreu.

Em 2015, na gestão da petista, foi realizada uma consulta pública sobre o tema. O MEC recebeu mais de 27 mil sugestões. Ainda naquele ano, o então ministro da Educação, Aloizio Mercadante, disse que a pasta pretendia realizar um Enem online. O plano não foi levado adiante por causa do impeachment da presidente, em 2016.

Em 2018, no governo de Michel Temer, a então presidente do Inep, Maria Inês Fini, defendeu em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo que a aplicação online do Enem seria mais barata e segura.

Os argumentos pró-digitalização

  • Redução de custos na logística da prova
  • Possibilidade de várias aplicações ao longo do ano
  • Realização da prova em mais municípios
  • Uso de questões com vídeos, infográficos e games

Os desafios do modelo online

  • Garantir locais com computadores, especialmente nas regiões mais isoladas
  • Possuir quantidade de questões em número suficiente para a realização de várias provas por ano com o mesmo grau de dificuldade
  • Não prejudicar o aluno da rede pública sem acesso à informatização e que pode ter dificuldade em fazer a prova online
  • Evitar fraudes no sistema eletrônico

Como é o Enem hoje

O exame é dividido em quatro provas objetivas, com 45 questões cada, e possui uma redação argumentativa de no máximo 30 linhas.

  • Primeiro dia: São aplicados os testes de linguagens e códigos, ciências humanas e redação, com 5h30 de duração
  • Segundo dia: São aplicados os testes de ciências da natureza e matemática, com 5h de duração.

As possíveis mudanças na prova

O Enem deverá mudar nos próximos anos devido a duas decisões tomadas no governo de Michel Temer. O ensino médio passou por uma reforma, sancionada em 2017. No ano seguinte, foi aprovada a Base Nacional Comum Curricular, que definiu as habilidades e competências exigidas dos alunos. As escolas precisam se adaptar às mudanças até 2020.

A reforma estabeleceu cinco itinerários, nos quais o aluno poderá se aprofundar: matemática, linguagens, ciências da natureza, ciências humanas e ensino técnico. As escolas não são obrigadas a fornecer todos.

O Enem precisará avaliar essas áreas. A ideia é que, já na inscrição do exame, o estudante escolha a prova pelo itinerário que cursou. Por isso, as provas deverão ter várias versões.

“Quando as escolas estiverem implementando os itinerários, a gente estará apto a fazer também. Imagine o quanto aumentaria o custo e a complexidade para fazer essa diversidade de provas [em meio físico], disse ao jornal O Globo o presidente do Inep, Alexandre Lopes.

Ex-presidente do Inep e membro do Conselho Nacional de Educação, Chico Soares afirmou ao jornal carioca que é preciso decidir, primeiro, as mudanças de conteúdo do Enem, e só depois pensar em sua forma de aplicação.

“Antes de pirotecnias do que utilizar para aplicar a prova, precisamos saber o que vai estar no Enem. O que as escolas precisam é da matriz de referência da prova e menos do formato. Isso é urgente”, disse.

Segundo ele, o MEC deve debater a digitalização com as escolas. “É preciso pensar no impacto que teria para alunos que estão em escolas com sistemas de informática ainda muito defasados.”

As disparidades no acesso à informática também preocupam o ex-secretário executivo do MEC no governo Dilma Rousseff (PT) Luiz Cláudio Costa, que defendeu a ideia de tornar a prova online em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo. “[Digitalizar a prova] É um desafio porque se há um rendimento diferente [entre os grupos que fazem no computador e no papel] não pode comparar”, afirmou.

Para Renato Pellizzari, coordenador de vestibular do colégio Qi, no Rio de Janeiro, a meta do governo é difícil de ser alcançada. “É arriscado fazer uma previsão como essa para 2026. Se paralelamente fosse uma pauta do governo desenvolver um processo de inclusão digital no Brasil, levando internet e capacitação para todas as escolas públicas, com infraestrutura de computadores, talvez pudesse ser alcançada. Mas isso não está dentro das propostas do governo”, afirmou ao jornal O Globo.

Uma experiência internacional de digitalização

Nos Estados Unidos, há dois exames semelhantes ao Enem, que avaliam o conteúdo aprendido no ensino médio e são usados e aceitos por todas as universidades na hora de selecionar seus alunos: o SAT (Scholastic Aptitude Test) e o ACT (American College Testing). Ambos são realizados sete vezes ao ano.

O ACT, por exemplo, começou a ser testado em 2015 no formato digital. Até 2018, era oferecido nesse modelo em 16 estados e 1.100 distritos, mas apenas 8% dos exames feitos em 2017 foram online.

Há resistência de educadores pelo risco de acontecer problemas com os equipamentos (o estado da Carolina do Sul registrou dificuldades técnicas em 2017). Também se discute a capacidade de oferecer computadores para todos os estudantes no mesmo dia.

Embora as provas digitais reduzam custos e forneçam resultados instantâneos, desenvolver versões eletrônicas de testes padronizados exigem estudos exaustivos que incluem fatores como a velocidades de rolagem e o tempo de carregamento das páginas, afirmou em 2018 ao jornal The New York Times, Angie McAllister, que trabalha na aplicação do ACT.

Thomas Tucker, superintendente de uma escola em Cincinnati, nos Estados Unidos, disse ao jornal americano que os fatos mostram que, quando há mudança de um modelo para o outro, as notas dos alunos despencam. Isso acontece principalmente com estudantes que não usam computador diariamente para fazer trabalhos de casa. Tucker também diz que, embora nascidos em ambiente digital, os jovens têm mais familiaridade com fones do que com teclados.

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