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A onda de bares não alcoólicos. E a chance de a ideia vingar no país

Estabelecimentos estrangeiros oferecem ambiente de entretenimento noturno semelhante ao de um bar qualquer

    Foto: Reprodução/Instagram
    Coquetel não alcoólico do bar nova-iorquino Getaway
     

    Uma série de bares abertos recentemente em cidades como Nova York, Londres e Dublin contrariam o que seria, a princípio, o propósito desse tipo de estabelecimento.

    Chamados de bares sóbrios (“sober bars”, em inglês) ou bares sem álcool, são pontos de encontro que em geral abrem à noite, são aconchegantes, com iluminação baixa e pessoas socializando – lembram, em tudo, o ambiente de um bar qualquer, mas não servem nenhuma bebida alcoólica.

    Nos Estados Unidos, há exemplos como o Getaway e o Listen Bar, em Nova York, e o The Other Side, na cidade de Crystal Lake. A rede Redemption Bar já tem três unidades em Londres, serve comida vegana e nenhuma bebida alcoólica, no intuito de promover uma socialização que não se dê às custas da saúde das pessoas, segundo a descrição do site.

    No lugar de cerveja e drinks alcoólicos, muitos desses locais têm apostado em elaboradas preparações não alcoólicas e os coquetéis sem álcool têm se tornado mais populares mesmo em bares e restaurantes com opções alcoólicas.

    De onde vem a novidade

    Segundo uma reportagem da BBC, esses novos negócios vão ao encontro do questionamento que tem sido feito por jovens adultos, nessas grandes cidades, sobre o papel do álcool em suas vidas.

    Criadora do Listen Bar, Lorelei Bandrovschi explica em um texto publicado no Medium as razões para abrir um bar sem álcool.

    Ela argumenta que, em uma cidade como Nova York, quase não há opções de vida noturna que não girem em torno do álcool. Como beber é a regra, pessoas que não bebem ou que simplesmente não queiram beber naquele dia acabam se sentindo deslocadas ou forçadas a beber nesses ambientes.  

    Foto: Reprodução/Instagram
    Drink sem álcool do Listen Bar, em Nova York
     

    Em entrevista à BBC, Bandrovschi defendeu que “para chegar a uma cultura de bebida opcional, temos que celebrar a escolha de não beber."

    Além de estarem refletindo sobre se os momentos de lazer e diversão devem necessariamente ser celebrados com bebidas alcoólicas, os jovens estão bebendo menos em países como Estados Unidos e Inglaterra.

    A própria indústria tem respondido a essa redução no consumo introduzindo mais opções sem ou com baixo teor de álcool.

    Origem histórica dos bares

    O consumo de bebida alcoólica data ainda da Pré-história (período que vai até por volta de 3.500 a.C.). Já as casas que servem bebidas figuravam no Código de Hamurabi da Babilônia, conjunto de leis de 1750 a.C. que é o mais antigo que se tem notícia. Segundo o código, a pena de morte poderia ser aplicada ao proprietário de um estabelecimento que diluísse água na cerveja.  

    Além de atraírem o público consumidor pela bebida, os bares são lugares de encontro e de interação social.

    Os bares sóbrios surgidos recentemente não são os primeiros da história. No século 19, existiram na Inglaterra os “bares de temperança”, que não serviam álcool. Eles foram consequência do movimento pela temperança, que promovia a moderação e, frequentemente, a total abstinência de bebidas alcoólicas.

    E no Brasil?

    Com a Lei Seca no trânsito, que foi instituída em 2008 e vem ficando cada vez mais rígida desde então, alguns bares passaram a oferecer opções não alcoólicas para quem saiu na balada de carro.

    Uma reportagem de 2018 do programa SP no Ar, da TV Record, afirma que a procura por drinks sem álcool está aumentando nos bares de São Paulo, muito em função da proibição de dirigir após ter bebido.

    A tendência dos bares que não servem nenhum tipo de bebida alcoólica, porém, ainda está longe de pegar por aqui. 

    Ao Nexo a jornalista especializada em cerveja e colunista do Estado de S.Paulo Heloisa Lupinacci afirmou não conhecer iniciativas parecidas no Brasil. Além disso, não considera que o sucesso desse tipo de bar possa ser emplacado aqui.

    “A discussão em torno do consumo de álcool não ‘pega’ por aqui. Há um abismo no consumo de bebidas zero álcool em outros países do mundo e aqui. A tendência é forte e cresce em outros países  – mas aqui não vai”, diz Lupinacci.

    Ela diz ser possível que um bar de drinks sem álcool apareça no circuito hipster das cidades brasileiras. “Mas um bar não é tendência, é  apenas um bar…”, pondera. “Por exemplo, tem uma torneira com kombucha [bebida fermentada feita a partir de chá] no Empório Alto dos Pinheiros [bar em São Paulo]. É super legal, mas não dá pra dizer que há uma tendência de trocar cerveja por kombucha”.

    “De onde eu observo o mercado e a cena, especificamente pelo viés da cerveja, a gente tem um jeito muito legal de beber, associado a sentar em torno de uma mesa e conversar, quase sempre com comida, em uma experiência de convívio que é legal. Mas essa ideia está quase totalmente ligada ao consumo de bebida alcoólica por todos na mesa. E acho que todo mundo que já quis ficar um tempo sem beber ou teve que se privar do consumo de bebida alcoólica sabe a dificuldade que é encontrar uma turma e não beber... Vem sempre um: ‘ah, que chato, que corta clima, tá grávida, tá tomando antibiótico?’. Imagina a barra que é tentar sair do alcoolismo num contexto desse?”, diz a jornalista.

    O consumo de álcool entre os mais jovens também parece não estar em queda no Brasil. Segundo um documento lançado em 2019 pela ONG Centro de Informações sobre Saúde e Álcool, que traz um panorama sobre o consumo de bebidas alcoólicas no Brasil entre 2010 e 2017, houve uma redução de 11% do consumo per capita de álcool entre 2010 e 2016 no país (de 8,8 para 7,8 litros ao ano). Entre os adolescentes, porém, o consumo aumentou.

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