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A saúde mental dos professores da rede pública paulista

Levantamentos realizados pelo jornal Agora nas escolas municipais e pelo SBT nas estaduais revelam dezenas de solicitações diárias de licença

 

Dezenas de professores da rede pública de São Paulo, que dão aula em escolas municipais e estaduais, solicitam diariamente afastamento do cargo por razões de saúde mental. Dois levantamentos publicados ao longo do mês de junho de 2019, um pelo SBT e outro pelo jornal Agora São Paulo, dão a dimensão do problema. As reportagens foram realizadas a partir de dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação.

No sábado (29), o SBT revelou que, em média, 45 professores da rede estadual pedem afastamento do cargo diariamente, tendo como causas cada vez mais frequentes ansiedade e depressão, segundo levantamento da emissora de TV. 

No total, foram 57.250 pedidos analisados por peritos entre janeiro de 2016 e maio de 2019. A rede dispõe de 190 mil professores.

No dia 10 de junho, o Agora revelou ter havido 22 mil afastamentos por transtornos mentais em 2018 entre professores e demais servidores (os professores são os mais numerosos) da Secretaria Municipal da Educação, o que corresponde a uma média de 62 licenças por dia. A rede tem cerca de 62.860 educadores.

Professores da rede pública municipal apontaram como razões de seu adoecimento, a jornada excessiva – com a remuneração baixa, eles assumem muitas aulas para complementar a renda –, as condições precárias das escolas, com salas lotadas e alunos com problemas de indisciplina, a violência e a desvalorização de seu trabalho.

Casos recentes de repercussão

Divulgada pelo programa Fantástico, da Rede Globo, a agressão de alunos de uma escola estadual de Carapicuíba, na Grande São Paulo, contra uma professora, ocorrida em 30 de maio de 2019 dentro da sala de aula, fez com que ela fosse internada com sintomas graves de estresse.

Gravado na mesma semana, um vídeo de um professor que foi  intimidado por um aluno do ensino médio em uma escola estadual de Jacareí (SP) também ganhou repercussão recente nas redes sociais.

Ao portal G1, o Sindicato dos Professores no Estado de São Paulo afirmou na ocasião que profissionais têm sido desrespeitados nas escolas na rede pública e que esse não foi um caso isolado.

“É um ciclo perverso de adoecimento mental. O professor quer fazer bem feito, não consegue e encontra situações contra as quais não tem condição de reagir” disse ao Agora Márcia Bandini, presidente da Anamt (Associação Nacional de Medicina do Trabalho).

Ao Nexo o professor e deputado estadual pelo Psol Carlos Giannazi afirmou observar esse crescimento das doenças psíquicas e emocionais entre professores da rede pública em suas idas a hospitais do servidor público.

“A estrutura da educação hoje está adoecendo os professores, não há dúvida. A superlotação de salas, a violência e a falta de estrutura das escolas têm agravado bastante a tensão, sobretudo na rede estadual de ensino, onde a situação é ainda mais grave. O governo estadual reduziu drasticamente programas importantes que lidavam com a violência, como o Programa Escola da Família, que sofreu cortes grandes, houve a retirada, de muitas escolas, [da figura] do professor mediador e há falta de funcionários do quadro de apoio escolar – dificilmente se encontra no estado de são paulo uma escola com o módulo completo de servidores”, disse o deputado.

Fenômeno é mais amplo

Uma pesquisa coordenada pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo em 2010, com o objetivo de traçar um panorama da saúde dos professores da rede pública estadual apontou que mais de 40% dos docentes apresentavam, em pesquisa de 2009, sua saúde mental comprometida, sendo as principais queixas a depressão (29%) e a ansiedade (23%). Esse resultado já colocava doenças mentais como as maiores responsáveis por afastamento médico de docentes no estado.

O ensaio “Trabalho e saúde de professoras e professores no Brasil: reflexões sobre trajetórias das investigações, avanços e desafios”, publicado em maio de 2019 na edição 35 dos Cadernos de Saúde Pública da Scielo (Biblioteca Eletrônica Científica Online) chama atenção para a intensificação do trabalho como um dos fatores responsáveis por seu adoecimento.

Essa intensificação, ocorrida notadamente a partir da década de 1990, se relaciona a um processo de precarização das condições salariais, da jornada de trabalho e mudanças na organização e processo produtivo das escolas.

O ensaio faz referência, ainda, ao conceito de “mal-estar docente” formulado  nos anos 1990 pelo professor da Universidade de Málaga, na Espanha, José Manuel Esteve Zaragoza: um fenômeno social que envolve a desvalorização do professor, associada ao contínuo incremento de exigências profissionais, à violência e à indisciplina no ambiente escolar. 

Com isso, o docente entra em uma crise de identidade: “questiona-se sobre a sua escolha profissional e o sentido da sua profissão. Como impactos dessas condições emergem esgotamento, fadiga, sofrimento e desencantamento”, resume o ensaio publicado nos Cadernos de Saúde Pública. 

Apesar da prevalência desses problemas, “as questões referentes à saúde permaneceram periféricas no setor educacional, seja pela gestão escolar, movimento dos/as trabalhadores/as ou pelo/a próprio/a professor/a”, afirma o ensaio.

“Sintomas de adoecimento são negados ou minimizados; apenas quando um problema atinge patamar de severidade é que se atenta para a sua existência. Em geral, a doença segue vivenciada como processo individual, uma inadequação ou dificuldade pessoal. O caráter coletivo do adoecer na atividade docente, associado à determinada configuração do trabalho, permanece um olhar a ser construído entre docentes”.

Uma pesquisa online realizada pela Associação Nova Escola com mais de cinco mil educadores, entre os meses de junho e julho de 2018, identificou que 66% dos participantes já precisaram se afastar do trabalho por questões de saúde.

O levantamento mostrou ainda que 87% dos participantes acreditam que o seu problema é ocasionado ou intensificado pelo trabalho. Entre os problemas que aparecem com maior frequência então a ansiedade, que afeta 68% dos educadores, estresse e dores de cabeça (63%), insônia (39%), dores nos membros (38%), alergias (38%) e 28% deles afirmaram que sofrem ou já sofreram de depressão.

Uma outra pesquisa citada na reportagem da Nova Escola, realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais em parceria com o Ministério da Educação, identificou em seus resultados preliminares que 17,7% dos professores sofrem com problemas vocais, seguidos por problemas respiratórios (14,6%) e emocionais (14,5%). O estudo foi feito com 6.510 professores de todo o Brasil.

O que as secretarias dizem

Ao Nexo a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo esclarece ser “equivocado associar todos os pedidos de licença médica de servidores da Educação ao ambiente escolar. Existem casos em determinadas unidades escolares, com base em estudos, para os quais medidas serão anunciadas por esta gestão nas próximas semanas”.

Segundo a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, a pasta desenvolve um conjunto de medidas voltadas para a melhoria das condições de saúde de seus profissionais, entre elas o serviço especializado oferecido pelo Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual.

“Os servidores podem buscar atendimento inclusive de forma preventiva. Desta forma, eles são encaminhados para tratamento de acordo com a especialidade médica”, informou a secretaria.

Ao jornal Agora a gestão Bruno Covas (PSDB) declarou que a Secretaria Municipal de Gestão constituiu um grupo de trabalho intersecretarial para discutir causas de afastamentos e soluções para sua diminuição.

A gestão afirmou entender a natureza do trabalho do professor e seus desafios, “especialmente quanto ao contato direto com crianças e adolescentes”. Segundo a prefeitura, a Coordenação de Gestão de Saúde do Servidor realiza encontros com diretores de escola, programas de promoção à saúde e de orientação aos readaptados.

 

 

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