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O rótulo literatura lésbica impulsiona ou limita as obras?

O ‘Nexo’ falou com três estudiosas ligadas ao tema sobre a pertinência da expressão e as representantes dessa literatura

 

Autora de “Amora”, livro de contos vencedor do Prêmio Jabuti em 2016, a escritora gaúcha Natalia Borges Polesso lança em julho de 2019 seu primeiro romance, “Controle”. Publicado pela editora Companhia das Letras, o romance acompanha a vida da personagem Nanda da adolescência à idade adulta, entre os anos 1990 e 2000.

O livro é permeado por referências a músicas e discos da banda de rock inglesa New Order. Segundo disse Polesso ao Nexo, ele trata das tentativas da protagonista, que descobre ter epilepsia após sofrer um acidente de bicicleta, “de se relacionar com ela mesma, com o corpo dela, e com as outras pessoas” - entre elas, sua amiga Joana. Assim como “Amora”, “Controle” explora as nuances das relações homoafetivas entre mulheres.

“Teve aquela vez que todo mundo se juntou no Alexandre, acho até que era aniversário dele. A foto é ótima. Será que tá na minha gaveta ainda? A gente beijou um menino, contra um imenso de um ipê-amarelo. O mesmo menino. E saímos correndo pra dançar lá dentro, na sala, onde os pais desse menino fingiam não prestar atenção na gente. Não lembro o nome dele. Fábio.Carlos. Juan. Lucas. João. Depois dançamos. Eu tinha inventado uma dança louca, coisa de criança-adolescente. Take a walk on the wild side todo mundo imitava. Um pulo, joelhos dobrados, e deixava o peso do meu corpo fazer o movimento. A Joana nas minhas costas e a gente balançava a cabeça de um lado para outro na hora do doo doo doo doo, nucas coladas, braços pra cima e depois para baixo, onde nossas mãos, naquela altura, já meio sem graça, embaraçavam e desembaraçavam. E dançamos mais algumas vezes assim, de costas uma para a outra”

Trecho de ‘Controle’

Natalia Borges Polesso

A ideia de literatura lésbica não é consenso entre teóricas e autoras. O rótulo é reconhecido por elas como importante para demarcar esta produção, frequentemente apagada do cânone literário, mas levanta questões sobre a possibilidade de restringi-la a um público ou reduzi-la a um único aspecto, estreitando sua complexidade, riqueza e apelo para todos os públicos.

O Nexo perguntou a três estudiosas ligadas ao tema sobre a pertinência da expressão, as “representantes” dessa literatura e a marginalidade a que muitas vezes ela é relegada. São elas Camila von Holdefer, crítica literária, Luciany Aparecida, escritora e professora de teoria e crítica literária, e Natalia Borges Polesso, escritora, tradutora e pesquisadora.

Chamar ou não de literatura lésbica

Além de autora de “Amora” e “Controle”, entre outros livros, Polesso desenvolve uma pesquisa de pós-doutorado pela Universidade Caxias do Sul chamada “Geografias lésbicas: literatura e gênero”. O trabalho busca “mapear, em termos representação e autoria” a produção que, segundo Polesso, foge da heteronormatividade.

Para ela, o uso da palavra lésbica é um entrave teórico em sua pesquisa. “A ideia inicial era mapear autoras lésbicas, mas eu vi que isso era um problema. [Atualmente] estou mapeando autoras lésbicas, bissexuais, transexuais, queer, não binárias”, disse a escritora ao Nexo.

Polesso explica que usa, em sua pesquisa “o termo lésbica rasurado, justamente para pensar quem ele engloba. Não é que eu tenha um problema com o termo em si, mas penso no que a [poeta e feminista americana] Adrienne Rich fala sobre essas existências lésbicas, das pluralidades dentro da lesbianidade, para justamente sair dos estereótipos. O medo é que [o termo] 'lésbica' só sirva pra falar de sexualidade e não de uma pessoa completa no mundo”.

A autora vê a necessidade de rotular para que a produção desses grupos não seja obliterada e, ao mesmo tempo, de afirmar “que essa literatura não é feita só para mulheres lésbicas, é feita para todo mundo”, diz. “A literatura lésbica é vasta, plural e se autonomeia de diversas formas. O que importa é que muitas mulheres lésbicas, bissexuais e transexuais têm pensado a sua própria literatura”.

Para Luciany Aparecida, “indispensável fazermos uso de modo afirmativo de termos como ‘lésbica’, ‘sapatão’, palavras que foram e são utilizadas negativamente para diminuir humanidades. Se a arte e a literatura humanizam, então falar de ‘literatura lésbica’ é modo de falar de humanidades, pensar pluralidades e possibilitar existências em escape à heteronormatividade compulsória”.

Ela também vê como um problema, entretanto, tratar esse termo positivo “como um rótulo que mais separa que agrega”.

“Realizar uso de rótulos como ‘literatura lésbica’ e ‘literatura negra’ num país racista e LGBTfóbico como o Brasil é campo de tensão. Um país ainda tão viciado em padrões da colonialidade, que fala de  ‘literatura-universal’ pensando homem cis, hétero, branco, classe média/alta e do Sudeste... Nenhum campo que busque fugir disso pode ser lido sem tensionamentos”, afirma.

Camila von Holdefer também problematiza  o fato de a rubrica criar uma dualidade que a opõe a uma literatura “universal”.

“Alguns acham — e têm razão — que não se pode reduzir uma narrativa ao fato de abordar a vivência lésbica, como se não houvesse nenhuma outra característica a ser levada em conta. A literatura, a universal, aquela que não precisa de um complemento ao termo, ainda seria heterossexual, e a literatura lésbica seria, portanto, uma subliteratura. Apenas um nicho, nada mais. É por isso que o rótulo pode ser perigoso”, disse ao Nexo.

A crítica literária afirma partir raramente de definições como essa, por ter receio de eliminar a complexidade de uma obra, a riqueza da forma, da linguagem e das relações estabelecidas ali.

“No entanto, o que pode soar contraditório, a classificação ainda me parece importante em alguns casos, desde que se tenha em mente que é apenas um ponto de partida — algo que escolhemos destacar, como poderíamos ter destacado qualquer outra particularidade”, afirmou von Holdefer.  

Ela observa ainda ser importante estudar o conjunto de vozes “de quem sempre foi posto à margem”, e que, nesse caso, os rótulos também são boas ferramentas de orientação e análise.

“Não digo, assim, que a questão identitária seja irrelevante no exame desses livros — apenas que não é a única questão possível”, afirma. “E não acho que o rótulo sirva apenas a pesquisadores: os leitores também podem se beneficiar dele. Gostaria de ter lido mais livros com personagens lésbicas quando era adolescente, mas não conhecia nenhum”.

As autoras e a visibilidade

Tão popular quanto censurada no período da Ditadura Militar (1964-1985), a escritora Cassandra Rios é vista como precursora dessa literatura no Brasil.

“Na história da literatura brasileira, tanto mulheres cis e trans escritoras quanto textos que que trouxessem personagens abordando suas orientações sexuais têm como marca maior a invisibilidade”, diz a escritora e professora Luciany Aparecida. “Penso que as universidades brasileiras têm papel fundamental, mesmo na parca referência que podemos trazer dessas mulheres. Professoras como Rita Terezinha Schmidt na UFRGS ou como Florentina Sousa, Milena Brito e Denise Carrascosa na UFBA, podem ser citadas como exemplos de profissionais que trazem/trouxeram para suas ementas nomes que podem auxiliar-nos a compor um quadro tanto com escritoras brasileiras quanto afro-americanas”.

Em sua pesquisa, de abrangência mundial, Natalia Borges Polesso identifica uma efervescência na produção atual dessas autoras. Ela leva em contra mulheres que tenham livros publicados ou trabalhos publicados em coletâneas.

“Estou atualmente com 228 títulos, dos quais 158 são de escritoras brasileiras LBTQ. Dessas, quase 150 são contemporâneas. Há uma super produção, mas a questão é onde ela está, por que não está circulando tanto”, diz Polesso. “A maioria está em coletâneas, que  muitas vezes não têm uma vida literária muito extensa – surgem e logo depois são esquecidas, não são retomadas para uma parte dois. Sai muita produção em editora independente, cuja circulação é restrita”.

Embora reconheça esse movimento como “muito importantes para o campo literário” e identifique produções de muita qualidade, Polesso se preocupa com a vida efêmera desses textos. “Há produção, há vontade de consumo, mas não há preocupação com a longevidade”, diz.

Entre os nomes para conhecer essa produção, ela cita as autoras contemporâneas Gabriela Soutello, Carol Bensimon, Lúcia Facco, Diedra Roiz, Cidinha da Silva, Tatiana Nascimento e Luciany Aparecida.

Sobre autoras que trazem a intersecção entre a orientação sexual e a identidade racial, Aparecida menciona o conto “Os olhos verdes de Esmeralda”, da escritora Miriam Alves. 

“Talvez tenha sido o primeiro conto que li e que vi tratar dessas duas questões. Penso que os Cadernos Negros sejam uma produç��o que no Brasil desde a década de 1970 vem tratando dessas questões. Na literatura contemporânea, penso nas poetas baiana Louise Queiroz, que publicou “Girassóis estendidos na chuva”, e Tatiana Nascimento, que tem publicado e editado outras autoras com a editora Padê em Brasília”.

A crítica Camila von Holdefer chama atenção para autoras estrangeiras nunca publicadas no Brasil, que “dificilmente serão e que deveriam ser lidas”. Ela cita a suíça Fleur Jaeggy, que, embora não seja lésbica, é autora de “Sweet Days of Discipline”, romance de 1989 ambientado em um colégio interno, em que a narradora se apaixona pela nova aluna.

“Acho inacreditável, até inaceitável, que Annemarie Schwarzenbach nunca tenha sido publicada no Brasil. Podemos esperar sentadas ou recorrer às edições portuguesas, infelizmente muito caras”, diz. 

Schwarzenbach era “escancaradamente lésbica” no seio da aristocracia europeia entre o final da década de 1920 e início da de 1940, se engajou na luta antifascista e viveu em fuga contínua.

“Ela escreveu ‘Lyric Novella’ (tradução para o inglês) e ‘Ver uma mulher’ (portuguesa), ambos romances lésbicos. ‘No átrio de um elegante hotel de Saint-Moritz, uma jovem mulher encontra o olhar de outra mulher. Há pessoas que entram e saem do bar, enquanto se ouvem notas de jazz’, diz a sinopse do segundo. O ano em que Schwarzenbach escreveu o livro? 1929!”, diz a crítica.

Von Holdefer questiona qual a validação necessária para que essas autoras sejam publicadas e por que autores gays são mais conhecidos em relação às autoras lésbicas.

“Redescobrimos Schwarzenbach ao redor do mundo, mas não no Brasil. O que nós estamos esperando? Schwarzenbach sair na New Yorker? Qual a aprovação de que nós precisamos, a de algum crítico homem? Vamos esperar Schwarzenbach receber o aval do pinto para algum editor comprar os direitos? Se o [crítico literário inglês] James Wood falar bem a gente pode ver os livros dela nas nossas livrarias?”, ironiza.

A crítica conclui comparando que “James Baldwin, mais contemporâneo, já é (com toda a razão) considerado um autor clássico, assim como Jean Genet, como André Gide, [Marcel] Proust, [Oscar] Wilde. E as lésbicas? Quantas são? Elas são minoria entre as autoras mulheres, que já são, por sua vez, marginalizadas. Virginia Woolf era bissexual. Temos Gertrude Stein (e tenho minhas dúvidas em relação a Stein) e Susan Sontag no mainstream”.

“Na história do Brasil, a visibilidade dessas produções é muito recente. Mesmo as mulheres que há tempos vem tratando desses assuntos ficam restritas a grupos de pesquisa na universidade ou a grupos políticos”, disse Luciany Aparecida. “Eu quero acreditar que agora com ampliação das redes sociais estamos ganhando mais visibilidade e meios de divulgação dessas publicações, mas tudo isso ainda é muito diminuto diante da necessidade de divulgação de literaturas e pesquisas LGBTQAI+”.

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