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Como cortes do governo desafiam eventos culturais no Brasil

Com retirada de patrocínio de estatais, festivais recorrem a outras fontes de financiamento

 

De última hora, e após meses de incerteza, o festival Anima Mundi anunciou que obteve os recursos necessários para realizar sua 27ª edição, que acontece já em julho de 2019. Realizado em São Paulo e no Rio de Janeiro, esse é um dos maiores festivais de animação do mundo, com mais de 300 filmes de 40 países.

As dúvidas sobre a viabilidade do festival, lançado em 1993, haviam sido levantadas em abril de 2019, quando a mostra entrou na lista de eventos culturais que deixariam de receber verbas da Petrobras. Em 2018, a empresa contribuíra com R$ 750 mil dos cerca de R$ 3 milhões gastos no Anima Mundi.

Já em maio, o festival lançou uma campanha de financiamento coletivo com o intuito de arrecadar verbas. Foram lançadas três metas, uma de R$ 400 mil, o mínimo para que o Anima Mundi ocorresse, outra de R$ 600 mil e mais uma de R$ 800 mil -a considerada ideal para garantir todas as atrações inicialmente planejadas.

A meta de R$ 400 mil foi atingida no dia 27 de junho de 2019, o prazo final. Se o valor não tivesse sido atingido até então, o festival teria que devolver todo o dinheiro arrecadado. A dificuldade em obter recursos não é, no entanto, exclusividade do Anima Mundi.

Ela vem ocorrendo há anos, na esteira da desaceleração econômica e dos escândalos envolvendo estatais. E se agravou a partir de fevereiro, com uma determinação do governo Bolsonaro para que estatais que vinham sendo grandes financiadoras de atividades culturais revissem seus repasses.

O contexto do corte

Desde o início de sua gestão, em janeiro de 2019, o governo Bolsonaro determinou que a política de patrocínio de eventos por meio de Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, BNDES, Petrobras e Correios fosse revisada.

De acordo com funcionários das estatais e produtores culturais ouvidos sob condição de anonimato em fevereiro pelo jornal Folha de S.Paulo, a Secretaria de Comunicação do governo passou a pedir maior detalhamento dos projetos selecionados em editais.

Segundo a reportagem do jornal, juntas essas empresas haviam gasto ao menos R$ 128 milhões em 2018.

Em abril, o presidente criticou a Lei Rouanet, que classificou como “desgraça”. Ele postou um vídeo nas redes sociais em que falou mal de obras e eventos que haviam obtido patrocínio da Petrobras - e também de alguns que na verdade não haviam recebido dinheiro da empresa.

Naquele mesmo mês, o governo alterou a Lei Rouanet, de forma que o valor máximo por projeto de incentivo caiu de R$ 60 milhões para R$ 1 milhão, com algumas exceções, como feiras literárias, construções de cinemas e teatros em cidades pequenas, óperas e festivais.

Bolsonaro também definiu um teto de financiamento de R$ 10 milhões para empresas com até 16 projetos ativos. 

Também em abril, Bolsonaro decidiu não renovar o patrocínio de 13 eventos culturais em 2019. Além do Anima Mundi, estão na lista: Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Festival do Rio, Festival de Brasília, Festival de Teatro de Curitiba, Prêmio da Música Brasileira e o Teatro Poeira, do Rio de Janeiro.

O Nexo conversou com duas pessoas envolvidas em dois desses projetos para falar sobre os desafios pelos quais o setor tem passado. São elas:

  • Aída Queiroz é uma das diretoras do festival Anima Mundi
  • Patrícia Rabello é relações públicas da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Quais fontes de financiamento têm diminuído?

Aída Queiroz Desde 2016 começou a haver uma retração, alguns patrocinadores foram parando, reduzindo patrocínios, em valores. Alguns foram saindo e focando em outras coisas, ou se limitando a editais.

Neste ano a Oi até teve edital, mas não conseguimos nos inscrever a tempo. A IBM já foi uma grande patrocinadora, mas deixou de ser.

Para as empresas privadas, a minha opinião é que veio tendo uma redução de um modo geral, pela situação econômica do país. A economia foi paralisando.

As estatais são um caso à parte, porque depende da política governamental da época. O BNDES era um grande patrocinador, e desde o ano passado não pode mais patrocinar cultura.

Isso tudo nos últimos três anos. Por mais parcerias que façamos, com aportes menores, fica muito difícil chegar no valor anterior. Fomos adaptando e diminuindo as atividades.

E a Petrobras saiu em abril [de 2019]. Como era um dos maiores patrocinadores do Anima Mundi, e o mais longevo - estava havia 23 anos - sempre tínhamos certeza de que poderíamos dimensionar o festival a partir do aporte da Petrobras.

Quando veio a definição de que não iriam mais financiar cultura, ficamos com um tempo reduzido para montar uma estratégia, e não podíamos mudar a data da mostra.

Patrícia Rabello A maior cota de patrocínio da Mostra de Cinema de São Paulo era da Petrobras. Ano passado, foram R$ 800 mil, que não vieram esse ano. Ela também pagava uma premiação de R$ 300 mil para a distribuição de filmes. É algo que está afetando todos os festivais.

A dificuldade vale para o In-Edit, que desde o ano passado não tem patrocínio próprio, só o CineSESC e um pouco de verbas de emenda parlamentar de vereador. O Ecofalante, acontecido por conta de emendas parlamentares.

Todo mundo acha que Lei Rouanet é super fácil, mas na verdade as empresas querem retorno de marketing. Entre uma mostra e a Ivete Sangalo, as empresas preferem o show.

Não tem essa visão de que cultura e educação são importantes para formar o público, formar opinião. Desde o início da Lava Jato, isso piorou, acho que por conta de todo o escândalo que envolveu a Petrobras.

Quais soluções têm sido encontradas?

Aída Queiroz A solução é buscar apoios, parcerias, novos patrocinadores, alguns que entram de última hora, agregar e trazer as produtoras mais para perto do Animamundi.

Em São Paulo, o Itaú Cultural cedeu algumas salas e está entrando com patrocínio. O Cine Belas Artes cedeu duas salas dele para o festival, não tem que alugar e está todo equipado. A prefeitura do Rio vai entrar de última hora para viabilizar.

Buscamos novos caminhos, aportes menores, mas acho que talvez colhamos esses frutos só em 2020.

Além desses novos patrocinadores, a campanha de crowdfunding foi impressionante. E a virada final, do penúltimo dia para o último, foi explosiva. Faltavam R$ 65 mil, 20% do total, que não tínhamos conseguido em 44 dias.

Começamos a acompanhar de dois em dois minutos, a campanha fechava à meia-noite, e às 17h tínhamos batido a meta. Conseguimos mais de R$ 100 mil em 24 horas com um engajamento muito grande, de pessoas fazendo doações para depositar na campanha.

Os estúdios e as produtoras também se mobilizaram e se engajaram. Foi um movimento impressionante mesmo, de muita força, com as pessoas se juntando e tentando participar.

Vai fazer uma grande diferença para o festival, e ficamos mais tranquilos.Esses caminhos alternativos na verdade são muito mais fortes do que imaginamos. O crowdfunding cria um  movimento em que as pessoas se engajam, tem uma rede viva em torno de você. Está dando certo, são mudanças boas, que às vezes vêm na adversidade.

Patrícia Rabello No geral, quando diminui o valor, diminui a seleção dos filmes, o número de convidados. Em São Paulo, vamos ter uma força-tarefa dos secretários estadual e municipal de Cultura para que a Mostra aconteça.

Vou fazer as relações do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, que está tendo essa migração do Rio para São Paulo.

O crowdfunding tem sido uma solução. Isso de o Anima Mundi ter conseguido o valor mínimo, tem dado uma animada sobre a ideia de fazer para outras mostras.

A emenda parlamentar com verbas de vereadores também é algo que ajuda.

O que preocupa o setor no médio e no longo prazos?

Aída Queiroz A curto prazo, preocupa solucionar a questão do festival e suas contas. Vamos chegar em setembro e outubro provavelmente não devendo, que era nossa preocupação.

Em médio prazo, temos que pensar em novos caminhos, novas ações, estratégias. Antes tinha um quadro montado, com o qual podíamos contar e nos planejar. Agora vamos ter que criar isso de novo para ter um planejamento,

Vamos ter que criar novas ações, não sei se uma campanha. Mas existem ações possíveis. Trabalhamos em um universo de muito “product placement” [posicionamento de produtos], de propriedade intelectual, eles [os animadores] criam personagens que, quando vão para a TV, são valiosos.

A rede do Anima Mundi agora é bem maior, e acho que vai ser bom, vem coisa boa por aí. Vamos esperar passar esse tsunami, e no segundo semestre começar a elaborar e a pensar, porque já não temos muito tempo.

Os cortes já vinham acontecendo há dois ou três anos. São principalmente cortes de recursos públicos. A própria Petrobras vinha cortando verba  ano a ano.

Patrícia Queiroz Essa caça às bruxas. Parece que trabalhar com cultura hoje em dia é um trabalho não digno. Mas cultura gera renda, gera emprego, gera turismo. Tem muita gente que tira férias durante a mostra e vem para São Paulo, fica os 15 dias

Agora o governo está deixando todo mundo precavido de que não pode contar com órgãos públicos, com Caixa, BNDES, Petrobras, não tem mais. Acho que acabou por enquanto.

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