A expectativa de vida de negros e brancos, nos EUA e Brasil

Desigualdade racial em indicador caiu entre os norte-americanos e também entre brasileiros, por motivos diferentes

 

Uma reportagem publicada pela revista americana The Economist em 15 de junho de 2019 chama atenção para uma tendência recente na demografia e na saúde pública dos Estados Unidos.

A diferença na expectativa de vida de homens negros e brancos vem caindo em ritmo estável nos últimos anos, alcançando marcas históricas. A expectativa de vida ao nascer é calculada a partir de dados de mortalidade em um país.

Em 2017, homens brancos tinham em média 76,1 anos de expectativa de vida ao nascer, enquanto homens negros tinham 71,5 (o período que os homens brancos vivem a mais em relação aos negros, em média, é de 4,6 anos).

Assim como se verifica em outros países, mulheres de todos os grupos étnicos majoritários vivem mais do que os homens.

Em 1900, menos de meio século após a abolição da escravidão nos EUA, a expectativa de vida de um menino negro ao nascer era de 32,5 anos – 14,1 a menos do que a de um menino branco.

Esse ano é o primeiro com estatísticas disponíveis do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, órgão vinculado ao departamento de saúde que fornece os dados analisados pela Economist.

Apesar da melhora em termos raciais, diferenças significativas no tempo médio de vida por classe, renda e escolaridade permanecem nos EUA.

Isso sugere que a convergência na expectativa de vida de negros e brancos está ligada ao fato de que negros com melhor condição socioeconômica estão vivendo mais e brancos menos abastados, com menor escolaridade, não estão vivendo tanto.

Uma série de outros fenômenos simultâneos apontados pela reportagem explica a aproximação da longevidade média de negros e brancos nos Estados Unidos:

Fatores que explicam a aproximação

Homicídios

No que diz respeito às mortes prematuras, a desigualdade entre homens negros e brancos se estreitou devido à redução da mortalidade por homicídio, resultante da queda da criminalidade nos Estados Unidos a partir de meados da década de 1990.

Homens negros são historicamente as vítimas mais frequentes de assassinato no país.

Mas, com base no cálculo feito pelos sociólogos Patrick Sharkey e Michael Friedson, professores da Universidade de Nova York e da Universidade de Wisconsin, respectivamente, a queda na taxa de homicídios é responsável por 17% da redução total da diferença de expectativa de vida entre negros e brancos entre 1991 e 2014.

Um estudo dos pesquisadores publicado em março de 2019 mostra que, caso a taxa de homicídios de 1991 tivesse permanecido constante ao longo das décadas seguintes, a expectativa de vida de homens negros seria 0,8 anos menor.

HIV

A redução da mortalidade pelo vírus do HIV, devido ao aprimoramento do tratamento médico da doença, também fez decrescer significativamente o número de mortes prematuras de homens negros infectados.

No auge da epidemia nos EUA, por volta de 1994, o vírus estava matando pessoas negras a uma taxa de 60 a cada 100 mil. Nos anos 2010, a taxa decaiu para 10 para cada 100 mil.

Ainda assim, homens negros receberam quase um terço (32%) dos diagnósticos de HIV nos Estados Unidos em 2016. A taxa é oito vezes maior em comparação com homens brancos.

Crise dos opioides

Overdoses, especialmente de opioides, são um dos principais fatores que levaram à queda da expectativa de vida de toda a população dos Estados Unidos entre 2015 e 2017.

Esse fenômeno afeta mais a população branca americana: a taxa de mortes causadas por todas as drogas mais que quadruplicou entre os brancos de 1999 e 2017, e é 32% mais alta atualmente do que entre os negros.

Das 47.600 pessoas mortas por opioides em 2017, 37.100 eram brancas. Segundo a Economist, uma das razões para isto pode ser a discriminação racial existente no sistema de saúde: pessoas negras têm menor probabilidade de receber prescrições para opioides, normalmente indicados para combater a dor.

Câncer e doenças cardíacas

Entre os mais velhos, estudos recentes têm mostrado que a mortalidade por doenças cardíacas e câncer têm caído para os negros.

Um estudo da American Cancer Society divulgado em fevereiro de 2019 mostra que a queda contínua, ao longo de 25 anos, na taxa de mortes por câncer entre indivíduos negros, resultou em mais 462 mil mortes a menos por câncer nessa faixa da população durante esse período.

Segundo o artigo, o risco maior de morte por câncer de negros, em relação a brancos, caiu de 47% para 19% entre 1990 e 2016.

Um segundo estudo, feito pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças e divulgado em março de 2018, mostra que, embora a taxa de mortalidade por doenças cardíacas tenha se mantido mais alta entre negros do que entre brancos a partir de 1975, a redução desta taxa se acelerou para os negros entre 1998 e 2015.

De 2005 a 2015, especificamente, a razão entre a mortalidade por doenças cardíacas de negros e brancos diminuiu, refletindo uma queda maior da mortalidade por esta causa entre negros neste período.

Expectativa vs. qualidade

Embora classifique a tendência observada nos Estados Unidos como positiva, Adilson José Moreira, especialista em direito antidiscriminatório, enfatiza a diferença entre expectativa e qualidade de vida.

“Ao mesmo tempo em que há estudos demonstrando que a diferença da expectativa de vida entre negros e brancos diminuiu, há também uma série de outros que mostram como a qualidade de vida dos homens negros norte-americanos permanece ruim”, disse Moreira ao Nexo.

Os autores desses estudos levam em consideração os danos psicológicos causados à população negra pelo racismo sistemático existente na sociedade americana, em suas diferentes manifestações.

O racismo estrutural, recreativo, institucional, simbólico e cultural, estão presentes, segundo Moreira, tanto no Brasil como nos Estados Unidos,  fazendo com que pessoas negras tenham propensão a desenvolver problemas de saúde mental e manifestações psicossomáticas.

Qual a situação no Brasil

Para o sociólogo Tulio Custódio, a origem da diferença na expectativa de vida de negros e brancos, tanto nos Estados Unidos como no Brasil, está ligada, mais do que a uma herança da escravidão, “à forma como as pessoas [negras] foram inseridas no contexto civilizacional” dessas ex-colônias.

A reprodução da ordem social anterior à abolição, perpetuada pelo racismo, gerou uma estratificação em que “há uma conexão entre a pertença racial e as condições de vida e oportunidades” a que a população negra tem acesso.

Em 2017, a expectativa de vida das pessoas brancas no Brasil era 2,92 anos maior do que em relação aos negros, de acordo com a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Em 2000, a esperança de vida ao nascer de um homem negro no Brasil era de 66,6 – aumentou para 73,2 em 2010, segundo o Atlas do Desenvolvimento Humano, plataforma desenvolvida pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento em parceria com a Fundação João Pinheiro e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.

No mesmo período, a esperança de vida de homens brancos ao nascer  foi de 71,1 para 75,3.

Houve, no Brasil, uma aproximação na expectativa de vida de homens negros e brancos comparável à ocorrida nos Estados Unidos. A qualidade de vida da população negra brasileira, porém, também tem uma defasagem expressiva com relação aos brancos.

Em 2010, o Índice de Desenvolvimento Humano da população negra alcançou a pontuação (0,679) que havia sido atingida pelos brancos dez anos antes (0,675). A informação foi divulgada em 2017, no estudo “Desenvolvimento Humano para Além das Médias”, feito pelo Ipea, Pnud e Fundação João Pinheiro.

As mudanças responsáveis pela redução da diferença de expectativa de vida de negros e brancos nos Estados Unidos não ocorreram da mesma forma no Brasil – o que talvez seja resultado de diferenças conjunturais e estruturais entre os dois países.

Homicídios

Assim como no contexto americano (principalmente até a metade da década de 1990), a violência é preponderante entre as causas de mortalidade precoce da população negra, sobretudo de homens negros.

Em 2012, segundo um documento de 2016 do Ministério da Saúde sobre saúde da população negra, o homicídio não estava entre as cinco principais causas de morte de pessoas brancas no país, mas tinha importante participação nas causas de óbito de pretos e pardos.

De acordo com a edição de 2019 do Atlas da Violência, documento anual produzido pelo Ipea e pelo Fórum de Segurança Pública, 75,5% das vítimas de homicídios em 2017 foram pessoas negras (soma de pretos ou pardos, segundo a classificação usada pelo IBGE).

Para cada indivíduo não negro assassinado em 2017, foram mortos aproximadamente 2,7 negros. Além disso, a taxa de homicídios entre negros aumentou em 33,1% de 2007 a 2017, período de uma década. A de não negros apresentou um pequeno crescimento, de 3,3%.

Nesses dados, o relatório vê a “continuidade do processo de aprofundamento da desigualdade racial nos indicadores de violência letal no Brasil, já apontado em outras edições”. 

HIV

Anteriormente em queda no Brasil, o coeficiente de mortalidade por HIV apresentou aumento na maioria dos estados brasileiros entre 2000 e 2015.

Com base no documento de 2016 do Ministério da Saúde, a taxa de mortalidade por HIV diminuiu para os homens brancos entre 2004 e 2013, aumentando entre homens pretos e pardos no mesmo período.

Nesse período, a proporção de óbitos em decorrência do vírus foi maior entre as mulheres pretas do que entre os homens. Em 2013, 13,4% dos óbitos por HIV ocorreram entre homens pretos enquanto 16,2% foram verificados em mulheres pretas.

Drogas

Em 2012, a taxa de mortalidade pelo uso de drogas foi três vezes maior entre pretos e pardos do que entre brancos segundo dados do Datasus e IBGE. Não há dados disponíveis que discriminem as mortes por tipo exato de droga consumida.

Por que reduziu

Ao Nexo o pesquisador do Ipea Marco Aurélio Costa, um dos coordenadores do Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, explica que a existência de políticas públicas universais, notadamente na área da saúde e no combate à mortalidade infantil – indicadores que estão na base do cálculo da esperança de vida ao nascer – contribuiu em boa medida para essa redução entre brancos e negros nos anos 2000.

Embora universais, essas políticas têm um impacto maior nas populações que vivem em regiões com indicadores piores, entre pessoas negras e mulheres.

Além disso, outro indicador importante apresentou uma variação que pode ter ajudado nessa convergência. No que diz respeito à mortalidade até 5 anos de idade, Costa aponta que houve uma redução mais substancial para os negros do que para os brancos no período de 2000 a 2010.

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