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O que é o apartheid climático apontado pela ONU

Com recordes de calor na Europa, relator das Nações Unidas chama atenção para o impacto desigual que o aquecimento global provoca em ricos e pobres

 

O serviço francês de meteorologia decretou na quarta-feira (26) estado de “alerta laranja” em 78 dos 101 departamentos do país, depois de os termômetros baterem em 44º no Vale do Rhône.

Além da França, a onda de calor também atinge a Espanha, onde os termômetros indicaram 45º em Girona e 44º em Zaragoza, no norte do país. Cinco das 50 regiões espanholas estão de sobreaviso.

O “alerta laranja” aplicado a esses dois casos indica que, mesmo as pessoas “em bom estado de saúde” devem estar “muito vigilantes” em relação à exposição ao sol, à própria hidratação e à realização de atividades físicas.

Embora altas temperaturas sejam comuns em zonas quentes do planeta, esse tipo de temperatura não era registrada na Europa desde 1947. O fenômeno ocorre no mês de junho e pode se estender até julho, no período que corresponde ao verão no Hemisfério Norte.

Especialistas dizem que uma massa de ar quente vinda do deserto do Saara, no norte da África, é responsável pela subida atípica nos termômetros.

Além das causas pontuais, a onda de calor trouxe consigo o debate sobre as causas humanas relacionadas ao aquecimento global. “Este aumento dos extremos de calor está acontecendo, como a ciência previu, como resultado direto de um aquecimento induzido pelos gases causadores do efeito estufa da combustão de carvão, petróleo e gás”, disse Stefan Rahmstorf, que pesquisa a física dos oceanos no Instituto de Pesquisa sobre o Impacto Climático de Potsdam, na Alemanha.

As consequências desiguais

Além do debate sobre as causas do calor extremo, especialistas chamam atenção também para as consequências dessas mudanças em termos de direitos humanos.

Foto: Jason Lee/Reuters - 23.08.2016
Philip Alston
Relator das Nações Unidas Philip Alston
 

Enquanto alguns conseguem escapar do calor usando ar condicionado ou viajando para regiões mais frescas nos períodos de férias, outros sofrem em espaços apertados, insalubres e com pouca ventilação. Esse é só um exemplo em escala reduzida de como ricos e pobres lidam de maneira diferente com os fenômenos naturais que afetam a vida humana.

“Corremos o risco de viver um cenário de apartheid climático, no qual os ricos pagam para escapar do calor extremo, da fome e dos conflitos enquanto o resto do mundo é deixado para sofrer”, disse Philip Alston, relator das Nações Unidas para pobreza extrema e direitos humanos.

Ele citou como exemplo dessa desigualdade a passagem do Furacão Sandy por Nova York, nos EUA, em 2012. Na ocasião, “milhares de novaiorquinos de baixa renda e vulneráveis ficaram sem acesso à energia elétrica e cuidados de saúde enquanto a sede do [grupo financeiro internacional] Goldman Sachs era protegida por dezenas de milhares de sacos de areia e era abastecida pela energia de geradores”.

Alston diz que “as mudanças climáticas ameaçam retroceder 50 anos de progressos que tivemos em desenvolvimento, saúde global e de redução da pobreza”. Para ele, os países em desenvolvimento vão arcar com 75% dos custos da crise climática, que é provocada em grande medida pela poluição causada pelos países mais ricos.

“O risco de descontentamento nas sociedades, de crescimento das desigualdades e mesmo do crescimento das privações dentro de certos grupos são fatores que podem estimular o nacionalismo, a xenofobia, o racismo e outras respostas semelhantes. Manter o balanceamento entre direitos civis e políticos será algo extremamente complexo”, projeta o relator das Nações Unidas.

A ‘gentrificação climática’

Outro conceito que começa a ganhar relevância no debate ambiental é o de “gentrificação climática”. A ideia é que a migração de pessoas ricas para lugares mais frescos ou bem irrigados, por exemplo, termina por aumentar o valor dos imóveis e dos bens de consumo numa determinada região, a tal ponto que os moradores locais não conseguem mais arcar com o custo de vida.

Em setembro de 2018, o jornalista britânico Oliver Milman, especialista na cobertura de assuntos ambientais, contou a história de comunidades localizadas em zonas tórridas do estado americano do Arizona.

Num povoado chamado Flagstaff, 25% dos imóveis pertenciam a pessoas de fora, que haviam comprado essas residências por causa do clima ameno. A prefeita da cidade, Coral Evans, se referia a esses moradores de fora como “refugiados ambientais”.

Quando Phoenix, no Arizona, tem temperatura na casa dos 47º, Flagstaff, a somente duas horas de carro dali, tem os termômetros na casa dos 27º.

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