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A ação dos EUA contra o Irã no novo capítulo de tensão no golfo

Disputas entre os dois países têm raízes em 1953, mas sua fase atual está ligada a sabotagens e à derrubada de um drone americano

     

    O presidente dos EUA, Donald Trump, assinou na-segunda-feira (24) na Casa Branca uma ordem executiva para bloquear o acesso de autoridades iranianas a contas no exterior.

    A medida é um pequeno passo dado agora, assim como no passado recente, no varejo de uma relação tumultuada e complexa cujas raízes remontam a 1953.

    Raízes do problema

    Anos 1950

    Britânicos e americanos sabotaram, em 1953, os planos de um governo nacionalista iraniano que pretendia nacionalizar a exploração do petróleo. O então primeiro-ministro Mohammed Mossadegh caiu num golpe apoiado pelas duas potências.

    Anos 1970

    Estudantes iranianos fizeram uma revolução nacionalista que em seguida foi monopolizada por clérigos xiitas, em 1979. Nessa revolução, a Embaixada dos EUA em Teerã foi sitiada. Os dois governos romperam todas as relações diplomáticas.

    Anos 2010

    O então presidente dos EUA Barack Obama e os presidentes das potências europeias firmaram em 2015 um acordo nuclear com a intenção de garantir o acesso do Irã à energia atômica para fins pacíficos, impedindo seu uso para fins militares.

    Escalada atual

    Eleição de Trump

    O atual presidente dos EUA passou a campanha eleitoral de 2016 bombardeando os termos do acordo firmado por seu antecessor, Barack Obama, com o Irã. Trump dizia que esse foi o “pior acordo do mundo”. Eleito, cumpriu a promessa e rompeu o trato nuclear em maio de 2018.

    Duas rodadas de sanções

    Em seguida, Trump aplicou duas rodadas de sanções no intervalo de um ano. A primeira, de agosto de 2017, contra empresas iranianas envolvidas na fabricação de foguetes. A segunda, de agosto de 2018, recaiu principalmente sobre empresas de mineração e de aviação.

    Sabotagens em Hormuz

    Em maio e junho de 2019, refinarias e petroleiros com bandeiras de vários países foram sabotados e atacados na costa do Irã, em Hormuz, um estreito por onde passa 20% da produção mundial de petróleo. Os EUA acusaram os iranianos. Ninguém assumiu a autoria dos ataques.

    Drone abatido

    No dia 20 de junho de 2019, militares iranianos abateram um avião militar não tripulado dos EUA (drone). O Irã disse que a aeronave estava sobre seu território. Os EUA disseram que sobrevoavam águas internacionais. A derrubada do avião alimentou ainda mais a sensação de um conflito iminente.

    Bombardeio suspenso. Ataque cibernético

    Após a derrubada do drone americano, Trump disse no dia 21 de junho que cancelou de última hora uma ordem de retaliar o Irã com um ataque militar.

    De acordo com ele, a ordem foi cancelada para não matar aproximadamente 150 pessoas que poderiam estar próximas dos três alvos escolhidos pela Força Aérea.

    Em vez do bombardeio, Trump disse ter lançado um ataque cibernético contra o Irã. Segundo os EUA, essa ação bloqueou o controle iraniano sobre todos os sistemas de lançamento de mísseis e foguetes.

    O governo iraniano disse que a ação não surtiu nenhum efeito, e que o sistema nacional de proteção cibernética impediu 33 mil tentativas desse tipo vindas dos EUA.

    A gafe nas sanções

    Ainda na versão de Trump, o ataque aéreo foi substituído pelo ataque cibernético e também pela aplicação de uma nova rodada de sanções contra autoridades iranianas.

    Basicamente, as sanções dificultam o acesso dessas autoridades a fundos que estejam investidos em instituições financeiras sobre as quais os EUA tenham algum controle ou influência.

    Ao assinar a ordem executiva sobre as sanções, o presidente americano cometeu uma gafe. Ele disse que o alvo da medida era o aiatolá Ruhollah Khomeini, líder da Revolução de 1979, morto em 1989. Trump quis dizer na verdade a Ali Khamenei, sucessor de Khomeini.

    Após a gafe, o presidente iraniano, Hassan Rouhani, disse, por sua vez, que a Casa Branca é “afligida pelo retardo mental”.

    As preocupações com o Irã

    A principal preocupação alegada pelos EUA nessa disputa é a de que o regime iraniano esteja investindo de maneira secreta num programa atômico militar que viola os termos do trato firmado em 2015.

    Mapa mostra a localização do Irã

    Além disso, os americanos dizem que o governo do Irã fornece armas, treinamento e informações para grupos que atuam em outros países da região. Esse apoio ocorreria, por exemplo, na Síria, com o respaldo do Irã ao governo de Bashar al-Assad, inimigo dos EUA. Da mesma forma, isso pode estar ocorrendo no Iêmen, onde iranianos e americanos apoiam lados opostos num conflito que aos poucos tornou-se internacionalizado.

    No campo religioso, o Irã é xiita. O principal aliado dos EUA na região, a Arábia Saudita, é sunita. Esses dois ramos do islã têm posições divergentes em questões políticas importantes para o Oriente Médio, o que também influencia o comportamento americano nesse contexto.

    As preocupações com os EUA

    Do lado contrário, a preocupação iraniana diz respeito a uma potência, os EUA, que desde o fim da Segunda Guerra Mundial atua política e militarmente para mudar governos e manter o acesso mais desimpedido possível ao petróleo que é produzido na região.

    Essa ação americana tornou-se ainda mais forte e agressiva após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. A chamada “Guerra ao Terror”, conduzida pelo então presidente George W. Bush, foi dirigida não apenas contra grupos hostis aos EUA, como o Talebã, no Afeganistão, mas contra governos que não tiveram envolvimento direto nos atentados, como o Iraque de Saddam Hussein.

    Mais tarde, em 2011, americanos e europeus agiram para derrubar o líder da Líbia, Muamar Gadafi. Em seguida, tentaram o mesmo com o líder da Síria, Assad. Essas ações alimentam o temor do Irã de que o país possa ser vítima dessa série de investidas da Casa Branca.

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