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Qual o destino dos órfãos de integrantes do Estado Islâmico

Centenas de crianças, filhas de combatentes mortos ou capturados na Síria e no Iraque, começam a ser repatriadas por países como a França

     

    A proclamada derrota do Estado Islâmico na Síria e no Iraque trouxe consigo, a partir do fim de 2016, um problema inesperado. Mais de 29 mil crianças, filhas de combatentes mortos ou capturados, estão abandonadas em campos de refugiados sem ter para onde ir.

    Algumas dessas crianças são mutiladas de guerra, atingidas por bombardeios das forças europeias, americanas, russas e de outras nacionalidades que fizeram da caçada ao Estado Islâmico uma prioridade. Os menores vivem em campos com até 75 mil refugiados, e nasceram ou foram levados a esses campos de batalha por seus pais.

    A França é um dos países que vem realizando operações diplomáticas e militares discretas para recuperar centenas dessas crianças. Elas são filhas e filhos de pais franceses que deixaram o país em algum momento para reforçar as frentes jihadistas no Oriente Médio.

    Chaves para entender

    Jihadistas

    Jihadistas é o nome dado aos combatentes adeptos da fé islâmica que evocam razões religiosas para enfrentar países e culturas tidas como hostis. A jihad pode se referir tanto ao dever moral de combater as ameaças ao Islã no campo das ideias, quanto ao engajamento militar nesse sentido.

    Estado Islâmico

    É um grupo terrorista internacional formado em 2006 no Iraque, e que expandiu seu raio de ação para a Síria em 2011. O grupo cresceu no vácuo das ações militares conduzidas pelos EUA em solo iraquiano após os atentados de 11 de Setembro de 2001. Desde então, criou uma rede internacional empenhada tanto no conflito aberto quanto em atentados pontuais em capitais europeias.

    Rede internacional de jihadistas

    Mapa Síria e Iraque

    Um dos fenômenos desencadeados pela ação do Estado Islâmico foi a convocatória de jihadistas de diversas nacionalidades para compor as fileiras do grupo em partes do Iraque e da Síria – bastiões nos quais o grupo era mais forte.

    Por anos, terroristas de nacionalidades europeias, treinados no Oriente Médio, retornaram a seus países de origem com a intenção de cometer atentados em nome da jihad. Alguns tiveram sucesso em seus intentos. Outros foram mortos ou capturados tanto na Europa quanto em solo sírio e iraquiano.

    Embora os filhos desses jihadistas não tenham nada a ver com a opção tomada por seus pais, o repatriamento desperta sensações desencontradas em algumas sociedades.

    De um lado, há o compromisso de todo Estado em proteger seus cidadãos – especialmente quando se trata de repatriar crianças órfãs no exterior. De outro, há o estigma de acolher filhos de jihadistas que dedicaram a vida a atacar o país que, como no caso da França, agora mobiliza recursos para ir em socorro dessas crianças.

    Operações de baixo perfil

    Duas operações de repatriação foram realizadas nos últimos três meses só na França, onde estima-se que haja entre 200 e 300 crianças nessa situação.

    Na primeira, em 15 de março, cinco órfãos de mãe foram localizados, contatados e levados de volta à França. Em 10 de junho, um outro grupo, dessa vez de 12 crianças “menores, órfãs ou isoladas”, foram retiradas de campos de refugiados na Síria por uma missão composta por diplomatas e membros do Exército francês.

    As crianças são entregues à ASE (Ajuda Social à Infância, em francês). A Justiça determina em seguida se essas crianças podem ficar com parentes que vivem no país. De 2016 até 2019, a ASE ficou com mais de cem menores nessa situação, filhos de jihadistas que não puderam ser dados a parentes por diferentes razões.

    Pressão por maior acolhida

    Jacques Toubon, ex-ministro da Cultura no governo de François Mitterrand, ex-ministro da Justiça de Jacques Chirac e conhecido defensor dos direitos humanos na França, defende o fim “dos tratamentos desumanos e degradantes impostos às crianças e suas mães detidas arbitrariamente em campos” de refugiados na Síria e no Iraque.

    Ele faz parte de uma corrente da sociedade que considera que o governo francês deveria fazer mais por essas crianças, em vez de apostar em operações pontuais de resgate.

    A advogada francesa Marie Dosé é ainda mais assertiva: “Deixar essas crianças e suas mães nesses campos gangrenados pela ideologia do Estado Islâmico é participar da fabricação dos atentados de amanhã.” Para ela, o Estado francês, ao não apostar num programa mais abrangente de repatriação, está “escolhendo sacrificar crianças francesas”.

    Tanto Dosé quanto Toubon demandam soluções holísticas, em vez da análise de repatriamentos no “caso a caso”. Outra ativista que pensa assim é Samia Maktouf, que defende alguns casos de famílias de jihadistas em cortes francesas.

     

    “Essas crianças são vítimas. Não estamos diante da hipótese de que elas sejam crianças soldados. Não estamos diante da hipótese de crianças que escolheram combater ou prestar fidelidade ao um Estado terrorista”, diz Maktouf.

    Nesta segunda-feira, a chilena Michelle Bachelet, alta-comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, instou os países do mundo a repatriar familiares de jihadistas que ainda estejam na Síria e no Iraque, contra os quais não haja acusações judiciais.

    O apelo foi especialmente dirigido à situação das crianças, que, de acordo com Bachelet, permanecem submetidas a um “ato de crueldade” enquanto não são resgatadas.

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