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O que é a whipala. E qual sua relevância para povos andinos

Multicolorida e quadriculada, bandeira é símbolo oficial da Bolívia desde 2009

Um pedaço de tecido quadrado multicolorido, como um xadrez pintado a sete cores. Assim é a whipala, bandeira típica dos povos andinos nas cores vermelha, amarela, branca, verde, azul e violeta, que, no idioma aimará (da etnia homônima), significa “objeto flexível, ondulante e quadriculado”, ou ainda “felicidade ou triunfo que ondula ao vento”.

Inventada no período pré-colonial por etnias que compunham o Império Inca (1438-1533) na região dos Andes, a whipala foi criada como símbolo sagrado usado na agricultura, em festas, cerimônias e outros eventos sociais dos povos andinos.

Após a colonização espanhola, o emblema colorido foi também associado à resistência política indígena.

Alimentada desses significados, a whipala resistiu ao tempo, ultrapassou as antigas fronteiras incas e hoje é símbolo da cultura e de manifestações políticas de indígenas na Bolívia (onde é bandeira oficial), no Peru, no norte da Argentina e do Chile, no sul do Equador e no oeste do Paraguai.

Em 2016, na Espanha, a prefeitura de Madri protestou contra o dia nacional da hispanidade (festa comemorativa da colonização das Américas que hoje é contestada por parte da sociedade) hasteando a bandeira andina.

O que significa a whipala

Apontada como o símbolo de identificação cultural dos povos da região dos Andes, a whipala representa a unidade, a solidariedade e a harmonia entre diferentes etnias no interior do Império Inca. A estrutura do desenho, simétrica, expressa a igualdade criada entre esses povos, que rejeitam conceitos como o individualismo.

A bandeira tem 49 quadrados e sete cores, que representam a diversidade das populações que vivem nos Andes. A gravura fica em torno da chamada chakana, cruz que aponta para os quatro pontos cardeais, orientando os andinos a compreender o espaço geográfico, segundo registros. A chakana tem ainda significados associados à natureza, ao tempo, à relação com o divino e ao sistema filosófico andino.

Alguns pesquisadores também apontam no desenho da whipala a representação de um instrumento de medição astronômico que os ancestrais andinos teriam utilizado para observar os movimentos da Terra em relação ao Sol e à Lua e outros fenômenos meteorológicos. A combinação de cores e direções das linhas permitiriam leituras matemáticas do tempo a partir do padrão quadriculado do desenho.

As sete cores da whipala são as mesmas do arco-íris, considerado “o reflexo cósmico do sistema comunitário e harmônico dos [grupos] quíchua e aimará [os principais que adotaram a whipala como símbolo]”, segundo o site Katari, voltado à difusão da cultura de povos originários do antigo Império Inca. A posição das cores nas diagonais da bandeira varia de acordo com a região onde a whipala é adotada.

As cores da bandeira

  • Vermelho: a Mãe Terra, Pachamama
  • Laranja: a sociedade e a cultura
  • Amarelo: a energia e a força
  • Branco: o tempo — aqui, ele expressa o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, a arte e o trabalho intelectual
  • Verde: a economia e a produção andina
  • Azul: o espaço cósmico e o infinito
  • Violeta: a política e a ideologia andina

As hipóteses sobre a origem

As aparições mais antigas encontradas de desenhos como o da whipala datam de ao menos 800 anos atrás, segundo o site Katari. Há gravuras quadriculadas sobre pedras, restos de tecido, vasos e tumbas, a maioria guardada hoje em museus de lugares como Peru e Bolívia.

A origem exata da whipala, no entanto, é desconhecida. Além disso, é também incerta a origem do emblema como ele é hoje. Alguns pontuam que o uso de bandeiras de tecido associadas a símbolos de uma sociedade é um costume mais associado à tradição europeia do que à andina — ainda que a whipala tenha características (como o formato quadrado, em vez do retangular) distintas das dos emblemas ocidentais.

Após a colonização espanhola, a whipala foi proibida nos territórios dominados nos Andes. As autoridades ligadas à coroa europeia queimaram bandeiras e perseguiram quem as carregasse em público. Ainda assim, indígenas continuaram a usar a whipala em suas cerimônias, adotando-a como objeto de resistência na clandestinidade.

A “explosão” da whipala moderna na iconografia andina, ao menos na Bolívia, ocorreu durante as mobilizações camponesas do sindicalismo indígena nos anos 1970, segundo reportagem do jornal El País. Entre outras demandas, o movimento reivindicava o reconhecimento de nações autônomas no território boliviano, como a quíchua e a aimará.

O status da whipala na Bolívia

A whipala tornou-se, em 2009, um dos símbolos do chamado Estado Plurinacional da Bolívia, ao lado da bandeira nacional, o hino boliviano, o escudo de armas, a flor de kantuta (típica dos Andes) e a do patujú.

A ideia, segundo o então ministro das Culturas boliviano, Pablo Groux, era de que a whipala, representando o “multiculturalismo da área andina”, era um “símbolo dos povos indígenas” e, portanto, dos bolivianos. A incorporação da bandeira entre os símbolos nacionais foi oficializada na nova Constituição boliviana, promulgada naquele ano.

A nova Constituição foi promulgada durante o primeiro mandato de Evo Morales, presidente boliviano desde 2006 pelo partido MAS (Movimento ao Socialismo) — ele foi eleito pela quarta vez em 2018. Adepto do bolivarianismo, Morales, quando venceu a primeira eleição, tornou-se o primeiro presidente boliviano de origem indígena (ele é descendente da etnia aimará) e apresentou propostas de inclusão dos povos nativos.

62,2%

da população boliviana era indígena em 2014, segundo relatório das Nações Unidas; é a maior proporção de indígenas da América Latina

Além de ter incorporado a whipala, a Constituição boliviana de 2009 transformou o país em um Estado Plurinacional — modelo que, na prática, reconhece o “pluralismo cultural, político, jurídico e econômico” do país, admitindo ainda nações autônomas dentro de seu território. A proposta do modelo era forte no interior de movimentos indígenas.

Desde a nova Constituição, a whipala deve ser hasteada ao lado da bandeira nacional em edifícios públicos e atos cívicos e oficiais, segundo o governo boliviano. Em 2009, a obrigatoriedade foi motivo de desentendimento entre a administração Morales e oposicionistas, que se recusaram a adotá-la. Eles associam a whipala ao partido governista.

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