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Este estudo indica que as redes não explicam a tristeza de jovens

Levantamento com britânicos de 10 a 15 anos aponta que a correlação entre tempo maior gasto com essas tecnologias e satisfação menor com a vida existe, mas é tênue e tem nuances de acordo com o grupo

 

Segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde divulgada em 2017, cerca de 300 milhões de pessoas sofrem de depressão ao redor do globo, algo como 4,4% da população mundial. A entidade destaca que os índices desse transtorno vêm aumentando, junto a outros problemas de saúde mental.

Nos Estados Unidos, o número de jovens com o distúrbio cresce em ritmo acelerado, de acordo com estudo publicado em março de 2019 do Journal of Abnormal Psychology, um periódico da Associação Americana de Psicologia. Lá, a taxa de episódios depressivos aumentou 52% entre o período de 2005 e 2017, entre jovens de 12 e 17 anos, e 63% entre jovens adultos (18 a 25 anos). Houve também aumento de episódios depressivos em todas as faixas etárias.

Várias teorias têm surgido para tentar explicar esse fenômeno. Uma das principais é aquela que associa o problema ao fortalecimento das redes sociais.

Isso porque a ascensão desses espaços de troca de informação e autopromoção constante é algo relativamente novo, e que tem um espaço central na vida de muitos jovens.

Uma reportagem publicada em março de 2019 no site da revista Time destaca alguns argumentos a favor da teoria de que as redes sociais podem aumentar casos de depressão entre adolescentes.

Um deles é a percepção de que elas diminuem a frequência de relações interpessoais ao vivo. Além disso, algumas pessoas podem ter tempo reduzido de sono, algo impulsionado pelo acesso frequente aos aplicativos.

E tem também o fenômeno conhecido como FoMo (fear of missing out), ou medo de ficar de fora, em uma tradução livre para o português: uma sensação, potencializada por redes como o Instagram, de que todo mundo está se divertindo, menos você.

Em maio de 2019, a revista acadêmica Proceedings of The National Academy of Sciences publicou um artigo baseado em um levantamento que colocou à prova a associação entre redes sociais e a depressão entre jovens.

Os dados coletados pelos pesquisadores indicaram que, apesar de haver alguma correlação entre o uso dessas tecnologias e uma satisfação menor de adolescentes com suas vidas, não é possível dizer que essa relação é um forte determinante, capaz de deixar jovens tristes.

Intitulado “O efeito duradouro das redes sociais na satisfação de vida entre adolescentes”, o trabalho foi realizado por pesquisadores da Universidade de Oxford (Inglaterra) e da Universidade de Hohenheim (Alemanha) a partir de dados coletados entre 2009 e 2016 no Understanding Society, um levantamento periódico realizado em mais de 40 mil lares no Reino Unido, financiado pelo governo britânico.

Na opinião dos pesquisadores, a discussão sobre o tema é excessivamente tomada por “hype midiático sem fundamentação”. E é necessário que cientistas adotem uma postura mais criteriosa.

Como o estudo foi feito

A pesquisa contou com a participação de 12.672 crianças e adolescentes com idades entre 10 e 15 anos. Trata-se de um estudo longitudinal, ou seja, que acompanha os estudados durante um intervalo de tempo. No caso, o período entre 2009 e 2016.

Os pesquisadores queriam saber quantas horas esses jovens gastavam conversando em mídias sociais; qual o tempo dedicado a interações com seus amigos em dias escolares;  qual o grau de satisfação com suas vidas, em relação a aspectos como autoimagem e felicidade de forma geral; além de informações sobre o relacionamento que tinham com familiares próximos.

A partir das respostas, buscaram entender se os entrevistados que usavam mais as redes sociais estavam mais satisfeitos com diferentes aspectos de suas vidas do que aqueles com uma rotina mais off-line. Os aspectos analisados foram: satisfação com “atividades escolares”; com escolas; com a vida; com amigos; com a família; com a aparência; e satisfação média.

A diferença aferida na pesquisa foi pequena, a ponto de os pesquisadores avaliarem que não é possível dizer que as redes sociais têm uma correlação determinante com uma satisfação menor de vida.

Outro escopo da análise foi entender se havia disparidades entre gêneros na forma de reagir à exposição às redes. Homens mais expostos tinham uma pequena redução na satisfação com a vida, e na satisfação média.

Entre mulheres, a maior exposição à mídia social tinha uma leve correlação com a satisfação em todos os campos, com exceção para a satisfação com a própria aparência. Isso pode ser usado para argumentar contra a ideia de que a exposição massiva a ideais de beleza faz com que as pessoas se sintam mais feias.

O levantamento também buscou entender se os jovens se tornavam mais insatisfeitos com a vida à medida que começavam a usar mais frequentemente as redes sociais. E, no caminho inverso, se adolescentes insatisfeitos acessavam essas tecnologias com frequência maior. Em ambos os casos, a relação encontrada não foi significativa.

O que os pesquisadores concluíram

A conclusão foi de que “as relações entre redes sociais e a satisfação com a vida são mais nuançadas do que se imaginava anteriormente: elas são inconsistentes, possivelmente contingentes ao gênero [ou seja, essas relações variam de acordo com o gênero], e variam substancialmente de acordo com a forma como os dados são analisados”.

“Aquilo que não se sabe a respeito dos efeitos das mídias sociais ainda é substancialmente maior do que aquilo que se sabe, mas é essencial que cientistas independentes, formuladores de políticas públicas e pesquisadores da indústria cooperem de maneira mais próxima. Cientistas precisam aderir a circunspecção, transparência e a formas robustas de trabalhar que sirvam de garantia contra flexibilidade analítica e parcialidade. Fazer isso garantirá a pais e formuladores de políticas públicas os insights confiáveis de que precisam em um tópico que é caracterizado frequentemente por hype midiático sem fundamentação”

pesquisa “O efeito duradouro das mídias sociais sobre a satisfação de vida de adolescentes”, publicada em maio de 2019 na revista Pnas

 

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