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As vantagens de não ser um especialista, segundo este livro

Em 'Range', o jornalista David Epstein reúne pesquisas e casos para argumentar em favor de experiências e aprendizados diversos, em qualquer fase da vida

     

    O tenista suíço Roger Federer e o golfista americano Tiger Woods são dois dos esportistas mais bem-sucedidos do século. Federer foi número um do mundo por 310 semanas entre 2004 e 2018, feito inigualado por qualquer outro jogador do esporte. Já Woods conseguiu ser o primeiro atleta da história a se tornar bilionário.

    O caminho que leva algumas pessoas a alcançarem tais níveis de excelência é um assunto que vende milhões de livros e lota palestras motivacionais. Mas Federer e Woods não têm uma história parecida nesse aspecto. Na verdade, os dois tiveram criações completamente opostas: enquanto Woods teve uma formação especialista, mergulhado no golfe desde a primeira infância, Federer cresceu generalista, experimentando diferentes modalidades até se decidir pelo tênis.

    Para o jornalista e autor David Epstein, vivemos o culto exagerado à especialização. É quase senso comum crer que a obsessão monotemática é o passaporte para se tornar uma sumidade em uma área. E quanto mais cedo começarmos nessa raia exclusiva, melhor. O exemplo de Tiger Woods serve muito a essa visão: nos primeiros anos de vida, o atleta já era levado pelos pais a programas de TV para demonstrar suas habilidades com o taco.

    No livro “Range” (alcance ou variedade, em tradução livre), Epstein reúne pesquisas e casos para argumentar o contrário. Segundo ele, experiências diversas são insumos importantes em áreas como negócios, ciência, música e esportes, mesmo para negociar com a vida como um todo. "Range" tem previsão de sair no Brasil em 2020, pela Editora Globo.

    O autor explica que os pais de Federer o incentivaram apenas para que cultivasse um bom espírito esportivo. Quando o atleta começou a tomar gosto pelo tênis, eles o alertaram contra levar o esporte muito a sério. Federer praticou basquete, handebol, esqui, luta livre, natação, tênis de mesa e skate. Mais tarde, ele reconheceria a importância de ter vivido uma amplitude de experiências.

    “Com o Cirque du Soleil, eles fazem os artistas aprenderem o básico das disciplinas dos colegas — não porque vão desempenhar essas atividades, mas porque isso os ajudou a ser mais criativos para projetar novos shows e reduziu os índices de lesões em um terço”

    David Epstein

    jornalista e autor de ‘Range’

    Em uma entrevista para o canal de TV americano CBS, Epstein explicou que, ao estudar pessoas que promoveram avanços relevantes em áreas distintas, cientistas constataram que todos tiveram o que ele chama de “período de amostragem” no começo: “Eles passam por uma variedade de esportes, de instrumentos, acumulam uma pluralidade de competências gerais [e] aprendem sobre seus interesses e habilidades antes de estreitar o foco”.

    O próprio autor traz um histórico de experimentação: estudou ciência ambiental, trabalhou como pauteiro de jornal, foi jornalista esportivo e depois foi investigar a conexão entre biologia e esporte em seu primeiro livro, “A Genética Esportiva”, em 2013.

    A ideia para o livro surgiu depois que Epstein foi convidado para debater com Malcolm Gladwell, autor de “Fora de Série”. Best-seller, a obra de Gladwell contém a famosa “regra das 10 mil horas” (8 horas por dia, todos os dias, por 4 anos), que defende este período de tempo como o necessário para que alguém se torne realmente bom em alguma coisa.

    Para a conversa, o autor reuniu estudos que analisaram o desenvolvimento de atletas de elite e constatou que, entre eles, a especialização precoce não era regra. Em vez disso, em quase todos os esportes, os pesquisados passaram por um “período de amostragem” onde aprenderam sobre suas próprias habilidades e interesses. Os atletas que deixaram a especialização para mais tarde eram frequentemente melhores que seus pares que haviam feito isso mais cedo.

    Ambientes 'malvados'

    De acordo com Epstein, no capítulo que abre o livro, atividades diferentes exigem modelos de formação distintos. “A experiência específica levou a melhores jogadores de xadrez e pôquer mas não a melhores analistas do mercado financeiro”, exemplifica o autor.

    Epstein se vale do conceito de ambientes “generosos” e “malvados”, criado pelo psicólogo indo-britânico Robin Hogarth, para demonstrar como certas áreas se beneficiam mais do “generalismo” do que outras. Em domínios como golfe e xadrez, em que as regras e processos não mudam, quanto mais prática, melhor. “As situações possíveis são limitadas (...) não há comportamento humano envolvido além do seu”, pontua.

     

    Entretanto, “em territórios malvados, as regras do jogo são frequentemente obscuras ou incompletas, podem haver padrões repetitivos e eles podem não ser óbvios e informações de retorno chegam frequentemente atrasadas, imprecisas ou ambos”. O especialista tem menos preparo para lidar com esses cenários, argumenta Epstein.

    Múltipla escolha

    “Vimos em um estudo de futebolistas alemães, alguns dos quais passaram a jogar na Copa do Mundo, que eles ainda estavam fazendo outros esportes informalmente após a idade de 22 anos. Com o Cirque du Soleil, eles fazem os artistas aprenderem o básico das disciplinas dos colegas — não porque vão desempenhar essas atividades, mas porque isso os ajudou a ser mais criativos para projetar novos shows e reduziu os índices de lesões em um terço”, afirmou o autor sobre a importância de cultivar a variedade.

    Epstein recorre a exemplos históricos de pessoas que transitavam por mais de uma área e que revolucionaram seus campos: famoso por suas pinturas e esculturas, Michelangelo também era poeta; Johannes Kepler, que ajudou o ser humano a entender melhor o universo, era astrônomo, matemático e astrólogo; e Charles Darwin, responsável pela Teoria da Evolução das Espécies, atuava como naturalista, geólogo e biólogo. Um levantamento indicou que premiados do Nobel têm 22 vezes mais probabilidade de ter interesses artísticos fora de sua área do que não premiados.

    O autor aponta que generalistas desenvolvem uma capacidade de abstração que pode levar a contribuições surpreendentes, porque eles conseguem transferir conhecimento de um campo para outro. Fundamentalmente, são indivíduos que captam os conceitos, para além dos fatos específicos de uma área, e enxergam como eles podem ser conduzidos a outros territórios.

    Autoconhecimento

    "Aprendemos quem somos na prática, não na teoria", prega Herminia Ibarra, especialista em comportamento organizacional que estuda transições de carreira, citada pelo autor em sua obra. Para Epstein, essa ideia está ligada à crença de “agir primeiro e depois pensar” como forma de conhecer melhor suas habilidades, interesses e potenciais. “Há muita pesquisa que mostra que podemos fazer testes de personalidade e tudo mais, mas nossa percepção sobre nós mesmos é restrita”, declarou.

    O autor aponta que generalistas desenvolvem uma capacidade de abstração que pode levar a contribuições surpreendentes, porque eles conseguem transferir conhecimento de um campo para outro

    Para ele, é necessário tentar coisas na vida real para depois refletir sobre elas. “Os melhores alunos têm a característica de refletir sobre as coisas que fizeram, porque estão aprendendo sobre quem são”, declarou.

    Em um artigo em defesa do “polímata”, o indivíduo com conhecimento sobre vários campos, o escritor britânico Robert Twigger destacou a evidência biológica em favor de se viver uma vida aberta ao aprendizado e às novas experiências. Em seu artigo, ele detalha como uma parte do cérebro chamada núcleo basal de Meynert é responsável por produzir grandes quantidades de acetilcolina, um neurotransmissor que regula a quantidade de novas conexões feitas entre os neurônios.

    Com a idade, a tendência é o cérebro diminuir a produção de acetilcolina. E, se não estimularmos o núcleo basal de Meynert, ele começa a secar. Há pessoas idosas que não contêm nenhum traço de acetilcolina, pois deixaram a área inativa por tanto tempo que a produção cessou de vez. “Em casos extremos, esse é considerado um fator que leva ao mal de Alzheimer e outras formas de demência — tratadas, efetivamente no início, por meio do aumento artificial de níveis de acetilcolina”, escreveu Twigger.

     

    Paternidade generalista

    Um artigo na The Atlantic afirmou que Epstein pensou muito em paternidade quando escreveu “Range”. Um dos motivos é que seu primeiro filho havia nascido alguns meses antes da publicação do livro. Mais do que isso, porém, é a influência que os pais têm nas escolhas profissionais dos filhos.

    “Range” defende que pais permitam que seus filhos experimentem bastante, que tenham possibilidades de provar de coisas diversas, como parte de uma estratégia de encontrar a área onde podem se destacar. “A melhor coisa que os pais podem fazer é expor as crianças a muitas coisas, ajudá-las a refletir sobre essas coisas, isso é chamado de aprendizado autorregulador”, avalia.

    Para o autor, é um equívoco imaginar que a excelência de um indivíduo em qualquer área é um produto da criação e do esforço obstinado dos pais. De acordo com Epstein, o que geralmente ocorre é que o pai ou a mãe agiram em reação à indicação de que a criança exibia interesse ou habilidade incomuns.

    Em entrevista à Atlantic, o autor traz o exemplo de Jack Andraka, o jovem inventor americano que foi premiado por sua invenção de um teste de detecção de câncer de pâncreas. “Jack mostrava interesse em experimentar algo e seus pais simplesmente facilitavam o acesso”, explicou. “Onde pressionaram foi com relação a se dedicar às coisas, fosse o que fosse. Eles conversavam sobre ciência, sobre questões diversas. Mas conseguiam materiais para ele e o encorajavam a experimentar.”

    O livro cita um estudo realizado nos EUA com músicos entre 8 e 18 anos que revelou que estudantes que depois se destacaram em relação aos outros só começaram a treinar com mais afinco quando se identificaram com um instrumento que escolheram por conta própria.

    Embora seja comum que pais se incomodem quando seus filhos desistem daquela aula de piano ou do curso de tênis, existe um valor na desistência. Vivemos hoje em uma cultura que exalta a perseverança a qualquer custo. Entretanto, por mais que a resiliência seja uma qualidade útil em muitas situações, saber a hora certa de pular fora de algo é também um atributo importante. Pesquisas citadas no livro mostram que pessoas que abandonam atividades ingratas e que não trazem satisfação são mais felizes.

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