A origem da tomada de 3 pinos. E por que Bolsonaro quer seu fim

Governo estuda revogar a obrigatoriedade do dispositivo, em vigor desde 2011. Entidades dizem que modelo traz mais segurança e que proposta seria um retrocesso

 

O governo de Jair Bolsonaro estuda revogar o uso obrigatório da tomada de três pinos. Segundo o secretário especial de Produtividade e Competitividade do Ministério da Economia, Carlos Alexandre da Costa, a sociedade brasileira “rejeitou” o modelo, classificado por ele como uma “excrescência”, segundo o jornal Valor Econômico de segunda-feira (17). O dispositivo, adotado em 2011, é chamado de “tomada do PT” pelos assessores do presidente, de acordo com a publicação.

A discussão sobre a criação de um padrão para plugues e tomadas no Brasil, porém, é anterior à chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder, em 2003. A definição do modelo também ocorreu antes da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência. 

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configurações diferentes de tomadas existem no mundo, segundo o Inmetro

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tipos de plugues e oito de tomadas eram usadas no Brasil antes da substituição

A criação de um padrão

Foi nos anos 1980 que as discussões sobre o tema começaram. Em 1983, definiu-se que o Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia), uma autarquia federal, ficaria responsável por certificar a segurança de plugues e tomadas de uso doméstico no Brasil.

Na época, qualquer modelo era aceito. Bastava que o produto seguisse as exigências da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), uma entidade privada fundada em 1940 que é responsável por elaborar normas e avaliar a conformidade dos produtos comercializados no país.

Nos anos 1990, a ABNT abriu consultas públicas com objetivo de definir uma padronização. Houve a participação de fabricantes de plugues, tomadas e eletrodomésticos, institutos de pesquisa, laboratórios e consumidores. Em julho de 1998, foi publicada a norma de padronização NBR 14.136, revisada em 2002, que reduziu os modelos de plugue para os atuais com dois e três pinos. A definição, portanto, se deu no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Mas as mudanças ainda demorariam a ser aplicadas e só aconteceriam no governo Lula. Em 2000, uma portaria do Inmetro tornou obrigatório que os equipamentos fabricados e comercializados seguissem a tal norma a partir de 2006. A partir daquele ano, o padrão passou a ser exigido por lei para a concessão do Habite-se (certidão da prefeitura que atesta que a habitação está pronta) para novas construções.

Houve um processo de transição, portanto, para o novo modelo, que seguiu um cronograma de adequação. No final, comerciantes e fabricantes tiveram até dezembro de 2009 para, gradativamente, se adaptarem. Em 2011, foi proibida a comercialização de aparelhos com tomadas fora do padrão. Os lojistas flagrados desrespeitando as exigências poderiam ser multados em até R$ 1,5 milhão.

As reações à nova tomada

Estimativa divulgada pela revista Época, em 2018, diz que a mudança gerou um custo de ao menos R$ 1,4 bilhão para a população brasileira, que precisou se adaptar. Houve, ainda, resistência entre representantes do comércio. O Sindicato do Comércio Varejista de Material Elétrico e Aparelhos Eletrodomésticos no Estado de São Paulo fez campanha contra o modelo, por considerá-lo pouco funcional.

Pelos inconvenientes gerados, a tomada ficou marcada negativamente e ganhou uso político. Durante evento em 2017, o então presidenciável Ciro Gomes, que concorreria nas eleições do ano seguinte, afirmou ironicamente que “a única reforma relevante” realizada por Lula (no governo de quem Ciro foi ministro) havia sido “a tomada de três pinos”.

Em 2018, o candidato à Presidência pelo Novo, João Amoêdo, que defende ideias liberais, contrárias à interferência do Estado na vida das pessoas, criticou a imposição de um padrão em sua conta no Facebook. “A tomada de três pinos é um exemplo do que acontece quando um governo concentra muito poder: a maioria da população é prejudicada em favor de alguns privilegiados”, escreveu.

As questões de segurança

Apesar das críticas, o argumento central usado pelo Inmetro na defesa da tomada de três pinos diz respeito à segurança. Como não existe um padrão internacional de plugues e tomadas, qualquer país pode adotar o que considerar mais adequado.

O Brasil desenvolveu seu modelo de maneira que o design do dispositivo diminuísse a possibilidade de choques elétricos. E também levou em consideração o custo-benefício e a conectividade com os plugues já existentes (ele se “adapta melhor a 80% dos aparelhos”, segundo o Inmetro. Isso significa que apenas 20% dos equipamentos teriam que trocar a tomada ou usar adaptadores).

Foto: Reprodução/Inmetro
Simulação mostra como modelo antigo de tomada facilitava contato com os pinos no momento de plugar
 

O modelo impede o contato das mãos com os pinos no momento do encaixe. Isso se deve ao formato de “poço” das tomadas sextavadas (com seis lados). No desenho antigo, o risco de choque era maior pela possibilidade de os dedos tocarem o dispositivo ao ser plugado.

Foto: Reprodução/Inmetro
Por causa do design do modelo adotado em 2011, riscos de choque diminuíram por impedir toque na parte por onde passa a corrente elétrica
 

Já o pino do meio tem a função de fazer o aterramento, necessário em equipamentos como geladeiras, microondas e máquinas de lavar roupa. Ou seja, ele desmagnetiza o aparelho quando há descargas elétricas fora do normal para evitar choques e as encaminha para a terra. Mas esse efeito só ocorre se a tomada for trocada e se a construção tiver o aterramento, que direciona a corrente elétrica para o solo, onde barras de cobre estão enterradas. Ele é obrigatório desde 2006.

Ao portal UOL, o professor de engenharia da Fiap (Faculdade de Informática e Administração Paulista) Marcos Crivelaro afirmou em 2018 que as tomadas de três pinos são vantajosas por garantir a segurança dos usuários e dos aparelhos elétricos, que têm o risco de queimarem e causarem problemas na rede elétrica reduzido.

Para os críticos do modelo, porém, as tomadas não funcionam porque muitas edificações são antigas e não possuem o aterramento. “O terceiro pino ainda é um formato sem utilidade. A escolha é mais segura, mas não precisaria ter mudado o padrão. Apenas introduzir o terceiro pino como uma alternativa mais segura para aqueles que possuem o aterramento”, afirmou ao UOL Marco Aurélio Sprovieri Rodrigues, presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Material Elétrico e Aparelhos Eletrodomésticos no Estado de São Paulo.

Dados do Ministério da Saúde mostram que o país tem, em média, 1.300 mortes por choque elétrico por ano. Segundo o Corpo de Bombeiros de São Paulo, na primeira década dos anos 2000, 35 mil incêndios ocorreram no estado devido a falhas nas instalações elétricas.

O problema é real, mas não se sabe exatamente os efeitos da mudança. O número de atendimento no SUS (Sistema Único de Saúde) por exposição a corrente elétrica pulou de 857 em 2011, quando a venda de aparelhos fora do padrão foi proibida, para 1.307 em 2017. Os casos cresceram, mas o ministério não detalha as causas desses choques. Eles podem não estar relacionados a tomadas ou plugues.

Em nota enviada ao Nexo, a Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica) afirma que uma “eventual revogação do padrão expõe o usuário novamente a riscos que haviam sido sanados com a padronização: possibilidade de choque elétrico com risco de morte, funcionamento inseguro com aquecimento e risco de incêndio, perdas de energia devido a conexões inseguras”.

Os efeitos de revogar a norma

Segundo o jornal Valor Econômico, o Inmetro teria, inicialmente, sido contra a mais uma substituição dos equipamentos, mas foi pressionado pelo governo Bolsonaro a se posicionar favoravelmente à ideia. O órgão emitiu uma nota dizendo que seria “tecnicamente viável a disponibilidade de outro padrão internacional de tomada”.

“Flexibilizar a adoção de outro padrão de tomada preferido pelo consumidor, de acordo com a melhor aderência aos plugues de seus equipamentos eletroeletrônicos, pode ser considerado”, afirmou ao jornal a presidente do Inmetro,  Angela Flores Furtado.

O secretário especial de Produtividade e Competitividade do Ministério da Economia, Carlos Alexandre da Costa, nega a pressão. Para ele, abandonar a tomada de três pinos teria um impacto sobre a produtividade, pois ela dificulta a entrada de equipamentos elétricos importados e aumenta os custos de adaptação, segundo o jornal.

A deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP), líder do governo no Congresso, chegou a fazer uma enquete em seu perfil no Twitter para saber a opinião de seus seguidores sobre a tomada. A maioria (56%) concordava com a mudança.

 

O diretor técnico da ABNT, Guilherme Tolstoy, disse à revista Época que a proposta do governo é um “retrocesso”. “Foi ruim [a adoção da tomada de três pinos]? Foi. Deu trabalho? Deu. Mas temos justificativas técnicas para terem ocorrido as mudanças. Quero saber qual é a justificativa técnica para o retorno. Não existe”, afirmou.

Segundo ele, todas as construções feitas no país nos últimos oito anos estão dentro da norma, o que tornaria inviável voltar atrás. Ele defende que as empresas que queiram exportar para o Brasil façam adaptações para o modelo nacional.

A opinião é compartilhada pela Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica). “A mudança já foi assimilada pelo consumidor e uma nova alteração traria um novo ônus à população”, afirma a entidade, em nota.

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