Ir direto ao conteúdo

Quem foi Pauline Kael. E qual sua importância para o cinema

Autora de de textos célebres como aquele em que defende o filme ‘Bonnie & Clyde’, Kael influenciou críticos e diretores com sua produção

Temas
 

A crítica de cinema americana Pauline Kael (1919-2001) completaria 100 anos em 19 de junho de 2019. Ao longo de quase quatro décadas, até o início da década de 1990, Kael foi um dos nomes mais importantes da crítica cinematográfica americana e internacional – domínio historicamente masculino em que ela conquistou espaço e se firmou como uma voz influente e original.

“Ainda que seu espírito beligerante nem sempre fosse bem-vindo pelos espectadores, [Kael] não desejava se ajustar para atender às expectativas. Esperava que o brilho de seu trabalho fosse suficiente, assim como seria para um homem em sua posição”

Michelle Dean

no livro ‘Afiadas: as mulheres que fizeram da opinião uma arte’

Tendo colaborado também com outras publicações da imprensa americana ao longo da vida, Kael é mais conhecida por ter escrito para a revista The New Yorker entre 1968 e 1991. Além disso, publicou livros e chegou a produzir filmes no final da década de 1970.

Fez eco na maneira de escrever de críticos de sua geração e das posteriores, além de reverberar no próprio fazer cinematográfico de diretores americanos.

Questionada em 1998 em uma entrevista sobre se seus textos haviam tido reflexos nos cineastas de sua época e em sua produção, Kael afirmou preferir não responder. “Se eu disser que sim, sou uma egocêntrica, se eu disser que não, desperdicei minha vida.”

A marca de Kael

Brilhante e controversa, a crítica frequentemente ia contra as opiniões que predominavam entre seus colegas e os consensos estabelecidos.

Em 2016, o site Taste of Cinema listou “10 filmes de que todo mundo gosta menos Pauline Kael”, que inclui medalhões da história do cinema como “2001: Uma Odisseia no Espaço”, “Casablanca” e “Um Corpo que Cai”.

Uma de suas grandes batalhas era questionar a divisão estanque entre “cinema de arte” e “cinema de entretenimento”, questão que ela explora, por exemplo, em um importante ensaio chamado “Fantasias do Público do Cinema de Arte”, publicado pela revista britânica Sight & Sound no fim de 1961.

Em seu livro “Afiadas”, a jornalista e crítica Michelle Dean aponta que “apesar de genuinamente interessada no público de massa, Kael nunca teria medo de atacar um fenômeno popular”. Ela “acreditava que seu papel como crítica era atropelar a politicagem das reputações”, o que nem sempre contribuía para sua popularidade.

Além da defesa do gosto popular, segundo Dean, Kael “tinha questões maiores em relação à qualidade das ideias que [os filmes] representavam e a como se encaixavam no amplo quebra-cabeça da vida cultural e intelectual nos Estados Unidos”. 

“Eu trabalhei para tornar meu estilo mais solto — para escapar da pomposidade acadêmica que se aprende na faculdade. Eu queria que as frases respirassem, que tivessem o som de uma voz humana”

Pauline Kael

em entrevista publicada no livro ‘Conversations with Pauline Kael’

Ela dispensava o ideal de objetividade do crítico e colocava sua própria vida e experiência naquilo que escrevia.

“Suas resenhas eram impressionísticas e personalíssimas. Ninguém como ela recria os filmes confrontando-os com sua experiência de espectador e seu conhecimento histórico de cinema”, escreveu o crítico e curador Amir Labaki sobre Kael para a Folha de S.Paulo em 2000.

Michelle Dean afirma que, desde seus primeiros textos, a crítica já revelava uma energia exuberante que se tornaria sua marca registrada. “Sua personalidade aparece predominantemente no vigor com que analisa um objeto, revirando-o e buscando pistas”, escreve.

Em três textos célebres

A defesa de ‘Bonnie & Clyde’

Em um longo ensaio publicado pela revista New Yorker em 1967, Kael responde à rejeição que o filme de Arthur Penn vinha recebendo por parte da crítica, principalmente devido à violência por ele retratada.

A crítica defende a seriedade e importância do filme para a cultura e a arte americanas. Para Kael, a representação honesta e por vezes desagradável da violência feita pelo filme era justamente uma qualidade, pois levava o público a confrontar a morte e restabelecia sua fé na audácia de Hollywood.

A tese sobre o roteirista de ‘Cidadão Kane’

Em um artigo de 1971 chamado “Criando Kane”, também publicado na New Yorker, a crítica sustenta que o roteirista Herman Mankiewicz teria escrito sozinho o roteiro de “Cidadão Kane” e sido chantageado por Orson Welles para que ambos o assinassem. Mankiewicz seria, portanto, a verdadeira mente brilhante, injustamente eclipsada, por trás do clássico do cinema.

O texto iniciou um intenso debate sobre a questão no meio cinematográfico americano e foi alvo de uma réplica do cineasta Peter Bogdanovich, também publicada na revista.

O arrebatamento por ‘O último tango em Paris’

O filme de Bernardo Bertolucci causou uma impressão muito forte em Kael quando ela o viu no Festival de Cinema de Nova York, em 1972, de acordo com seu biógrafo Brian Kellow.

Sua crítica sobre o filme exemplifica o estado de êxtase em que ficava quando era levada ao delírio por um filme: ela diz não conseguir tirá-lo de seu sistema, celebra o choque e o desconforto que ele lhe causou e afirma que poderia vir a ser um dos filmes mais libertários já feitos.

Como foi sua trajetória

Nascida em uma fazenda na cidade de Petaluma, na Califórnia, filha de judeus de origem polonesa, Kael se mudou ainda criança para São Francisco com a família.

Estudou filosofia na Universidade da Califórnia em Berkeley, mas abandonou a faculdade e se mudou para Nova York no início da década de 1940. Como muitos intelectuais e aspirantes a artistas dessa época nos Estados Unidos, Kael levava “a vida desordenada de uma beatnik”, segundo descreveu o crítico e historiador David Thomson no The Guardian.

Retornou a São Francisco alguns anos depois e conheceu o poeta e cineasta experimental James Broughton, com quem teve uma filha, Gina James, nascida em 1948. Broughton não assumiu a paternidade e Kael teve que criá-la sozinha, o que a obrigou a buscar um trabalho e uma vida mais estáveis.

Kael resenhou livros, tentou escrever peças de teatro e escreveu o argumento de um roteiro, que foi rejeitado. Foi então que, no início da década de 1950, conheceu o poeta e editor Lawrence Ferlinghetti em um café.

Ele pediu a Kael que escrevesse uma resenha de “Luzes da ribalta”, de Charles Chaplin, para sua nova e pequena revista de cinema, chamada City Lights. O texto saiu em 1953 e foi a primeira crítica publicada por Kael.

Seu trabalho como crítica se tornou conhecido em meados da década de 1960, quando publicou seu primeiro livro “I Lost It at the Movies”, uma compilação de resenhas que se tornou um best-seller inesperado, e a partir de seu trabalho na McCall’s, uma revista feminina de grande circulação na época.

Kael passou pela revista The New Republic entre 1966 e 1967. A revista se negou a publicar seu longo ensaio sobre “Bonnie & Clyde”, mas o texto atraiu a atenção do então editor da New Yorker William Shawn, que o publicou em outubro de 1967.

No ano seguinte, Kael passou a dividir o posto de crítica de cinema da revista com Penelope Gilliatt, depois passando a ocupá-lo sozinha de 1980 a 1991.

A influência sobre críticos e diretores

Principalmente a partir do momento em que começou a escrever para a New Yorker, o estilo e os posicionamentos de Kael passaram a exercer grande influência sobre seus colegas. Nas décadas de 1970 e 1980, ela se tornou próxima de um grupo de jovens críticos que se tornaram seus discípulos, chegando a ser apelidados de “paulettes”.

No Brasil, um de seus admiradores era o jornalista Paulo Francis. “Em várias de suas colunas sobre filmes percebem-se ecos de Pauline Kael”, escreveu Amir Labaki.

Kael também foi fundamental para o desenvolvimento da carreira da geração de cineastas que estavam transformando o cinema americano nos anos 1970, entre eles Robert Altman, Francis Ford Coppola, Brian DePalma, Martin Scorsese e George Lucas.

Diretores mais jovens, como Quentin Tarantino e Wes Anderson, também já declararam que o trabalho de Kael foi uma referência determinante no desenvolvimento de uma estética própria.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!