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O projeto fotográfico que quer normalizar os pelos femininos

Paulista retratou mulheres que, como ela, decidiram abandonar a depilação e reuniu imagens e depoimentos em fanzine

     

    Mulheres adultas têm pelos. A afirmação pode parecer evidente ou trivial, mas causa espanto a quem espera que a pele feminina esteja sempre depilada e lisa, como nas propagandas de lâminas e outros produtos de depilação.

    A frase também dá nome a um novo projeto fotográfico e fanzine centrado em mulheres que optaram por deixar seus pelos crescerem livremente.

    Ao Nexo a criadora do projeto Marcela Guimarães disse ter escolhido esse título por ser “direto e simples, da maneira como o assunto deveria ser tratado”.

    De Fernandópolis, no interior de São Paulo, a fotógrafa transformou o “Mulheres adultas…” em um fanzine, que mistura imagens e depoimentos das mulheres fotografadas. Ele estará disponível online a partir de 25 de junho e terá sua versão física lançada em 28 de junho, na capital paulista.

    Foto: Marcela Guimarães
    Foto do projeto 'Mulheres adultas têm pelos'
     

    Alguns dos retratos feitos por ela podem ser vistos na conta do projeto no Instagram.

    Como surgiu

    Depois de decidir parar de se depilar, a fotógrafa passou a retratar, durante cerca de um ano, outras mulheres que se encontravam no mesmo processo. O objetivo era naturalizar a presença dos pelos e valorizar a autonomia das colaboradoras sobre o próprio corpo.

    Foto: Marcela Guimarães/Divulgação
    Foto do projeto 'Mulheres adultas têm pelos'
     

    “A ideia surgiu de uma curiosidade minha em conversar com outras mulheres sobre depilação. Eu nunca me adaptei à dor da cera e tinha muitos problemas com a gilette, como pelos encravados e até sangramentos”, disse Marcela Guimarães ao Nexo. “Como nasci e morei por 22 anos no interior de São Paulo, era totalmente sem sentido ter que usar calça jeans e camiseta para esconder os pelos em um calor de quase 40 graus.”

    A partir disso, ela começou a fotografar amigas e, ao divulgar as imagens no Facebook, alcançou amigas de amigas e outras mulheres que quiseram participar.

    O texto que acompanha as imagens do fanzine foi tirado das conversas que a fotógrafa teve com as mulheres antes dos ensaios.

    “Na adolescência, começaram a implicar com os pelos dos meus dedos das mãos. Eu fiquei com tanta vergonha de ter uma 'mão peluda' que a primeira coisa que depilei na vida foi a mão”

    Beatriz Vivanco

    Fotografada para o projeto

    “Eu perguntava sobre a primeira lembrança [relativa à depilação] que vinha à mente delas – alguma mulher da família falando sobre o assunto, alguma propaganda na TV ou em revistas, comentários das meninas na escola na época da adolescência –, como foi a relação delas com os pelos ao longo da vida e o que as fez começar a questionar essa cultura da depilação”, diz Guimarães.

     

    Todas relataram incômodo com pelos encravados por causa da depilação. A fotógrafa conta que há as colaboradoras que deixam os pelos das pernas mas tiram os da virilha, as que tiram os pelos da perna mas deixam os pelos na axila e as que passam meses sem depilar, mas que, às vezes, são acometidas por uma vontade de tirar tudo – e então se depilam.

    “Um amigo meu me falou uma vez, 'brincando': 'Você já é gorda, preta, feminista e agora do sovaco cabeludo?'”

    Kerolim Marcelino

    fotografada para o projeto

    “Não tem uma regra, o mais importante é ter o direito de escolha de fazer o que quiser com o próprio corpo. É importante mostrar essas fotos para naturalizar a ideia de que mulheres adultas têm pelos. Algumas podem optar por tirar, outras optam por deixar, mas é fato que todas têm”, disse.

    Origens da exigência

    Nos últimos anos, vários projetos de artistas mulheres e até campanhas publicitárias têm buscado normalizar a presença dos pelos femininos e questionar a imposição social, que pesa exclusivamente sobre as mulheres, de se remover os pelos corporais.

    A depilação se tornou mais popular entre as mulheres à medida em que foi sendo associada à beleza, à higiene e ao que é sexualmente atraente, no fim do século 19 e durante o 20.

    Antes disso, os pelos pubianos e das axilas tinham uma intensa carga erótica, disse a historiadora brasileira Mary del Priore a uma reportagem de 2015 do jornal O Globo.

    Segundo del Priore, a inserção mais ampla das mulheres no mercado de trabalho foi um dos fatores da vida moderna que impulsionaram a exigência da remoção dos pelos.

    As tarefas nas fábricas exigiam movimentos com os braços e fizeram com que os vestidos perdessem as mangas. Deixar os pelos das axilas à mostra, tão íntimos e erotizados, seria uma indecência. A remoção deles começou a ser aconselhada às moças “de família”, primeiro nos Estados Unidos e, depois, em outras partes do mundo.

    Os primeiros anúncios de serviços de depilação em salões de beleza das capitais brasileiras começaram a circular nas revistas femininas por volta de 1915, segundo a reportagem do Globo. O foco, no começo, recaiu sobre os pelos das sobrancelhas, buço e axilas.

    Nesse momento, a higienização do corpo feminino começou a ser vendida como sinônimo de beleza. E a indústria, com cosméticos e outras invenções, pegou carona.

    Na década de 1930, surgiram cremes depilatórios e aparelhos de depilação nas farmácias. A publicidade também reforçava o ideal de uma mulher “limpa”, o que significava estar depilada e sem odores.

    Foto: Marcela Guimarães/Divulgação
    Foto do projeto 'Mulheres adultas têm pelos'
     

    A exigência de depilar outras partes do corpo, como as pernas e as partes íntimas, se deu, em parte, por consequência da moda. A chegada da minissaia e do biquíni, na década de 1960, impulsionou a incorporação de uma remoção quase total dos pelos corporais pelas mulheres.

    Baseada no desejo masculino, a pornografia também desempenha um papel na difusão cultural da remoção dos pelos pelas mulheres. O pornô mainstream acessado pela internet hoje exibe corpos lisos, com pouquíssimos ou sem nenhum pelo.

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