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Como a Itália salvou 750 perseguidos da ditadura Pinochet

Documentário de Nanni Moretti recupera a história de asilados chilenos que escaparam da morte em 1973 buscando proteção na embaixada italiana em Santiago

 

O documentário “Santiago, Itália”, do italiano Nanni Moretti, tem uma única cena na qual o diretor aparece. Ela dura poucos segundos. Mas é reveladora da intenção do filme inteiro.

“Santiago, Itália” – que estreia nesta quinta-feira (20) em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Recife e Porto Alegre – conta a história de aproximadamente 750 perseguidos políticos chilenos que foram salvos por diplomatas da Embaixada da Itália em Santiago do Chile após o golpe de Estado que, em 11 de setembro de 1973, derrubou o presidente socialista Salvador Allende e deu início aos 17 anos da ditadura do general Augusto Pinochet.

Foto: Str Old/Reuters - 11.09.1973
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Augusto Pinochet, general que comandou o Chile após dar um golpe em 1973
 

A cena em questão é a única na qual Moretti – vencedor da Palma de Ouro de Cannes em 2001 e do Grande Prêmio do Júri do Festival de Berlim em 1986 – deixa-se flagrar pela câmera. Ele aparece meio fora de quadro, nos corredores mal iluminados do Complexo Penitenciário de Punta Peuco, na região metropolitana de Santiago do Chile.

A câmera mostra o diretor frente a frente com Raúl Eduardo Iturriaga Neumann, que foi general do Exército do Chile e diretor da Dina (Direção de Inteligência Nacional), o temido serviço secreto que, entre 1974 e 1977, sequestrou, torturou, executou e fez desaparecer milhares de dissidentes políticos no Chile.

O general Iturriaga, que cumpre pena por sequestro e homicídio há dez anos em Punta Peuco, cumprimenta Moretti após ter gravado um depoimento no qual deu sua versão dos fatos olhando para a câmera. O militar tenta a todo custo justificar as torturas e mortes da ditadura. No fim, já de pé, despedindo-se de Moretti, o preso diz confiar que o diretor – tão famoso e premiado, como ele mesmo diz – produzirá um documentário imparcial, ao que Moretti responde, com gravidade: “eu não sou imparcial.”

A linguagem do filme

“Santiago, Itália” tem 80 minutos de duração. Ele foi gravado em setembro de 2017 e estreou em dezembro de 2018 no Festival de Turim, na Itália, mas só chegou em junho de 2019 ao Brasil.

Com esse documentário, Moretti venceu o prêmio Davi de Donatello na categoria Melhor Documentário e o prêmio Nastro d’Argento, concedido pelo Sindicato Nacional dos Jornalistas de Cinema Italianos.

 

A linguagem é simples: muitos dissidentes políticos e alguns militares contam suas memórias de frente para a câmera. Os depoimentos são entrecortados com imagens de arquivo em preto e branco.

A narrativa segue ordem cronológica, o que torna fácil o entendimento dos fatos políticos que dão a moldura dos testemunhos. Embora o filme em si não proponha uma divisão formal dos eventos, sua estrutura pode ser dividida assim:

Para entender o contexto

Eleição de Allende

O primeiro terço do filme mostra a vitória de Allende nas eleições presidenciais de 1970, com 36,6% dos votos. O mundo vivia então o auge da Guerra Fria, na qual capitalistas e comunistas se dividiam em dois polos opostos. Se em muitos países da Europa os socialistas haviam chegado ao poder pelo uso da força e com respaldo da União Soviética, no Chile um presidente marxista era eleito democraticamente naquele ano. Allende representava uma chance real de um socialismo “humanista e democrático”, como diz um dos entrevistados. O êxito de seu mandato poderia inspirar vitórias semelhantes pelo mundo, o que alimentou uma reação crescentemente violenta de parte da direita chilena respaldada pelo governo americano, até chegar ao golpe de 1973.

Golpe de Pinochet

O segundo terço do filme mostra o golpe de 11 de setembro de 1973 e as razões que levaram a ele. Respaldados pelas urnas, os socialistas implementavam uma série de reformas estruturais, incluindo a nacionalização do cobre, que é ainda hoje o principal motor da economia chilena, e a reforma agrária. Nos mercados, faltavam alimentos. Allende havia tabelado o preço da cesta básica. A direita culpava o governo pela carestia. A esquerda culpava os empresários, por buscarem lucros maiores no mercado negro. A tensão política e econômica desemboca no bombardeio da sede do governo, no suicídio de Allende e na chegada de Pinochet ao poder.

Asilo na Itália

O último terço do filme mostra o papel que a Embaixada da Itália em Santiago do Chile desempenhou. Logo após o golpe, dissidentes chilenos começaram a pular os muros da embaixada em busca de proteção. Mais de 250 chegaram a viver amontoados no local ao mesmo tempo, incluindo famílias inteiras. Os diplomatas italianos decidiram receber os solicitantes de asilo político e conseguiram negociar um salvo-conduto para levá-los ao aeroporto de Santiago, de onde foram embarcadas levas de dissidentes com destino a Roma e Milão. O filme traz testemunhos dos protagonistas dessa história. Eles contam como foi a vida dentro da embaixada e como foi a chegada na Itália, onde muitos vivem até hoje.

O elo com o momento atual

 

O golpe no Chile rendeu inúmeros filmes de ficção e documentários. A maioria deles trata os eventos de 1973 como fatos históricos, muitas vezes estanques no passado.

O documentário de Moretti tem uma preocupação de conectar os fatos históricos com a política contemporânea. Essa ligação é sutil. Ela aparece mais no final, seguindo a lógica cronológica da narrativa.

Se os imigrantes chilenos encontraram uma Itália acolhedora nos anos 1970, o mesmo não ocorre hoje com cidadãos que cruzam o Mediterrâneo em botes e balsas fugindo da guerra na Síria.

A democracia-cristã, moderada, de centro, governava a Itália no início dos anos 1970. Atualmente, o país é liderado por uma coalizão entre o partido 5 Estrelas, populista, e a Liga, de extrema direita. No Chile, governa o presidente Sebastián Piñera, de direita.

“Decidi contar essa história hoje em dia porque boa parte da sociedade italiana está precisamente andando na direção oposta da acolhida e da solidariedade”, disse Moretti, na estreia do filme na Itália, em dezembro de 2018.

 

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