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O trabalho humano escondido atrás da inteligência artificial

Plataformas recrutam indivíduos de carne e osso para milhões de “microtrabalhos” precários que garantem o funcionamento de aplicativos e programas

 

Uma busca por fotos de um labrador com a língua de fora ou um pedido de informação por voz a um assistente digital no celular são exemplos simples de como a inteligência artificial faz parte do nosso cotidiano.

Pouco se sabe, ou se divulga, que por trás da ação do computador em tarefas desse tipo existe o trabalho de pessoas de carne e osso. Ao redor do mundo, existem milhões de indivíduos realizando tarefas, chamadas de "microtrabalhos", que os computadores ainda não têm capacidade de executar. Mas não é apenas essa a questão: em muitas situações, os humanos simplesmente custam mais barato. 

Os sites de microtrabalho incluem atividades como preencher formulários, responder a pesquisas ou redigir textos descritivos para produtos em sites. Mas a maior parte das tarefas está mesmo ligada à inteligência artificial

“Usar um humano para fazer o trabalho permite que você pule uma porção de desafios técnicos e de negócios”, declarou Gregory Koberger, CEO da ReadMe, empresa criadora de um aplicativo de produção de documentos técnicos, em entrevista ao jornal britânico The Guardian. “Não é possível fazer isso em maior escala, mas permite que você construa algo e pule a parte difícil [de criar uma startup] bem no início.”

“A prioridade do microtrabalho é, basicamente, alimentar a inteligência artificial”, confirmou Rafael Grohmann, pesquisador do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho da USP e criador da newsletter especializada DigiLabour, em entrevista ao Nexo.

“Eu teria dificuldade de encontrar uma empresa que se vende como sendo de inteligência artificial e que não dependesse muito ou profundamente de ‘trabalho fantasma’ para gerar seu principal produto”, afirmou Mary Gray, pesquisadora da Microsoft e autora do livro “Ghost Work (“Trabalho Fantasma” – a versão em português  do título é o termo que ela usa para classificar as atividades por trás da IA), ao site The Verge. O subtítulo da obra de Gray é “Como impedir o Vale do Silício de criar uma nova subclasse global”.

Em 2013, um trabalho de pesquisadores da Universidade de Oxford previu que a inovação tecnológica poderia converter 30% dos trabalhos em tempo integral de hoje em serviços realizados “sob demanda”, numa convergência de automação e trabalho humano.

Sites e tarefas

“Acesse uma força de trabalho global, sob demanda, 24 horas por dia, sete dias por semana”, anuncia logo na entrada o site Mechanical Turk, da gigante de varejo Amazon. Nele, tanto usuários se candidatam a trabalhos digitais como empresas buscam pessoas para tarefas específicas.

O nome da feira de trabalhos da Amazon é irônico. O “mechanical turk” original era uma fraude do século 18, em que um autômato que supostamente sabia jogar xadrez de forma brilhante era na verdade manipulado por um enxadrista escondido sob o móvel do tabuleiro.

Assim como o Mechanical Turk, fundado em 2005, existem outros sites de “crowd work” (trabalho de multidão, outro termo usado) ou microtrabalho como Microworkers, Clickworker e JobBoy. Entre as grandes, nenhuma empresa é brasileira. Ao candidato, a Amazon explica que seu trabalho não estará sujeito à legislação tributária americana. Graças à falta de regulação local, nem à brasileira.

 

Não há estatística precisa sobre a quantidade de pessoas realizando este tipo de tarefa. O site Microworkers divulga em sua home page que conta com mais de 1,3 milhão de pessoas prontas para receber uma solicitação. A Amazon há anos declara que conta com meio milhão de “turkers”, a denominação dos que trabalham nessas plataformas.

Os sites de microtrabalho incluem atividades como preencher formulários, responder a pesquisas ou redigir textos descritivos para produtos em sites. Mas a maior parte das tarefas está mesmo ligada à inteligência artificial. Abaixo alguns exemplos:

Identificação de imagens

Um exemplo de trabalho é a classificação de imagens (cachorro, rato, pessoa loira), usada para “ensinar” algoritmos de aplicativos a combinar e entender padrões realizados por usuários em determinadas situações. Depois, a máquina passa a conseguir lidar sozinha com as informações.

Conjuntos de dados

Montar “data sets”, ou conjuntos de dados, preenchendo os campos em tabelas de maneira que depois possam ser lidas e interpretadas por programas de computador. Esse tipo de tarefa é uma das mais utilizadas por empresas de tecnologia.

Assistente do assistente

Milhares de pessoas ao redor do mundo estão online o tempo todo para melhorar o desempenho da assistente digital da Amazon, Alexa, que capta a voz humana por meio de alto-falantes. Em boa parte das situações, humanos estão ouvindo também. Os registros são transcritos, recebem comentários e depois são usados com o intuito de superar falhas no entendimento de Alexa da voz humana.

Reserva humana

O aplicativo Google Duplex promete fazer reservas em restaurantes por meio da inteligência artificial. Uma reportagem do New York Times testou o serviço e constatou que, em pelo menos 25% dos casos, era um operador humano que completava a tarefa.

Poucos brasileiros

As atribuições costumam ser de curta duração, algumas levam meros segundos. O motivo é que são, em geral, divididas em fragmentos pequenos, como uma espécie de linha de montagem digital em que cada trabalhador cuida de um parafuso específico. Os valores pagos também são baixos: há inúmeras atividades que rendem 10 centavos de dólar de pagamento.

US$ 2

ganho mediano por hora na plataforma Amazon Mechanical Turk

Os sites cobram uma comissão dos solicitantes. Por exemplo, a Amazon cobra da empresa 20% em cima do valor pago para um trabalhador. Não há necessidade de supervisão direta e, em geral, não há contato com outro ser humano. 

Segundo Grohmann, é muito difícil para brasileiros conseguir trabalho no Mechanical Turk. “Eu mesmo tentei me inscrever e meu cadastro foi negado. Eles não dão nenhum tipo de explicação quando fazem isso”, explicou o pesquisador. Dos cerca de 200 países do mundo, a plataforma só aceita trabalhadores de 49. Cerca de 50% são dos Estados Unidos e 40% da Índia, de acordo com um levantamento americano de 2018.

As condições de trabalho

À primeira vista, os sites de microtrabalho parecem uma mina de oportunidades. De fato, eles podem trazer complemento de renda para muita gente, ou mesmo ser uma fonte de trabalho permanente para quem está desempregado ou tem dificuldades em sair de casa.

Mas há muitas críticas ao modelo, tanto de quem trabalha para ele quanto de quem estuda o tema.

A principal ressalva é quanto aos ganhos: é preciso trabalhar muito para aferir uma renda razoável. Um estudo acadêmico de 2017, que reuniu pesquisadores de instituições diversas, se baseou em análises de dados para constatar que o ganho mediano na plataforma era de US$ 2 por hora. Apenas 4% conseguiam receber mais do que US$ 7,25 a hora. No Wal-Mart americano, o salário mais baixo é de US$ 11 a hora.

 

Como acontece com os que oferecem serviços por meio de aplicativos tipo Uber e Rappi, o cenário dos sites de “crowd work” passa longe da dinâmica tradicional das relações de trabalho. São cenários de total falta de proteção e de direitos dos que trabalham.

“As transações são cobertas não por relações empregado-empregador, mas por ‘acordos de usuário’ e Termos de Serviço que lembram mais licenças de uso de software do que contratos empregatícios”, escreveu Mary Gray para o jornal Los Angeles Times.

“O trabalho é precário, o salário é baixo e o trabalho em si pode ser perigoso”, explicou ao site Digi Labour a pesquisadora americana Kristy Milland, que trabalhou por 13 anos na Mechanical Turk. Segundo ela, não há manuais de uso da plataforma e candidatos competem intensamente pelos bons trabalhos. O turker dedicado tem de estar sempre atento a oportunidades, com muitos deles programando alarmes para quando tarefas que pagam melhor são notificadas. Milland chegou a dormir em quarto separado do marido por causa dos sons disparados na madrugada.

“A aprovação significa que você é pago pelo tempo que gastou fazendo o trabalho, enquanto a rejeição ocorre quando um solicitante decide manter seu trabalho, mas não te paga por isso. Esse é um dos principais problemas com o sistema: roubo de salário. Além disso, quanto mais rejeições você receber, menos trabalho poderá ser feito na plataforma. Na verdade, se o seu índice de aprovação estiver abaixo de 98%, você descobrirá que grande parte do trabalho na plataforma estará indisponível para você”, relatou.

A regulação inexistente

Apesar de existir há mais de uma década, o ambiente do microtrabalho é muito pouco regulado ao redor do mundo. No Brasil, não há legislação que contemple a modalidade. A necessidade de criar um arcabouço legal para o setor é uma demanda de especialistas que estudam o tema. Na França, pesquisadores do projeto Diplab, que levanta e produz dados sobre a área, colocam como prioritário o fortalecimento da proteção social, “às vezes inexistente” dessa força de trabalho. “Como garantir que a contribuição dos trabalhadores para a inovação tecnológica seja reconhecida em seu valor real?”, indagam.

Nos Estados Unidos, turkers insatisfeitos se juntaram a alguns professores universitários em 2014 para formar uma associação de trabalhadores de plataformas

No Brasil, o especialista em direito do trabalho Renan Kalil, em sua tese de doutorado “Capitalismo de plataforma e direito do trabalho”, defende a realização de estudos que entendam as novas dinâmicas criadas pelas tecnologias que surgiram neste século. “As características do trabalho sob demanda por meio de aplicativos e do crowdwork demonstram que a atual legislação não abarca algumas situações que ocorrem nessas formas de trabalho e que, independentemente do enquadramento feito, deixa os trabalhadores desguarnecidos”, escreveu. Entre as propostas que ele elenca na tese, a maior parte de fora do país, está a da criação de uma categoria intermediária de trabalhador, entre o subordinado e o autônomo, dadas as características específicas do modelo do microtrabalho.

Com uma força de trabalho pulverizada por vários pontos do mundo e raro contato físico entre contratados, é muito difícil se organizar para reivindicar melhorias. Mas, na Índia, um grupo de trabalhadores da Mechanical Turk conseguiu pressionar a Amazon para que resolvesse uma falha no sistema de pagamentos dos serviços que resultava em inúmeros cheques extraviados pelo correio. A empresa passou a pagar os trabalhos por meio de transferência bancária.

Nos Estados Unidos, turkers insatisfeitos se juntaram a alguns professores universitários em 2014 para formar uma associação de trabalhadores de plataformas. Com o tempo, a iniciativa juntou 550 integrantes e mais de 100 acadêmicos, que demandaram pagamento melhor e maior diálogo com as empresas. A Amazon reagiu encerrando uma conta que o grupo usava dentro do Mechanical Turk com o intuito de verificar a autenticidade de candidatos a participar da associação.

Milland, que participou da mobilização dos turkers desde o início, explicou ao Digi Labour que as comunidades de turkers, além de servir de locais para trocas de dicas e tarefas, também são usadas para organização. “Por exemplo, quando um solicitante [empresa] muito ativo rotulava incorretamente as tarefas (tagueavam, por exemplo, alguma atividade como pesquisa, mas era qualquer coisa menos isso), os trabalhadores acessavam sua conta no Twitter, chamando-o e pedindo que mudasse seus comportamentos”, explicou.

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