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O documento que discute aceitar padres casados na Amazônia

Em outubro, bispos se reunirão em Roma para tratar da presença da Igreja Católica na região

     

    Um relatório divulgado pelo Vaticano na segunda-feira (17) torna mais concreta a possibilidade de que homens casados se tornem padres em condições específicas. A permissão valeria, por exemplo, para áreas remotas onde há poucos sacerdotes, como a Amazônia.

    A informação consta no documento de trabalho do Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia, que será realizado entre 6 e 27 de outubro de 2019, em Roma, com intuito de discutir a evangelização dos povos indígenas e a preservação da floresta.

    Presidido pelo papa, o sínodo é uma assembleia periódica que reúne bispos de todo o mundo para tratar de assuntos que dizem respeito à Igreja.

    O encontro foi anunciado pelo Papa Francisco em 2017, motivado pelas dificuldades da Igreja Católica na Amazônia: o território vasto, que abrange mais de 7 milhões de km² em nove países sul-americanos, é servido por poucos padres e cada vez mais disputado também por igrejas protestantes e evangélicas.

    No documento, o Vaticano também pede aos bispos que discutam formas de garantir às mulheres espaços de liderança na Igreja, especialmente na área de formação de religiosos, sem especificar quais seriam.

    O relatório sugere que o sínodo debata o “tipo de ministério oficial que possa ser conferido às mulheres, tendo em conta o papel central que elas desenvolvem na Igreja amazônica”.

    Por que menção é histórica

    A ordenação de homens casados é uma discussão antiga na Igreja.

    Desde 2017, o Papa Francisco propõe a abertura do sacerdócio para os “viri probati”, homens que, mesmo tendo constituído família, poderiam se tornar padres com base em sua virtude e fé comprovadas, por serem idosos respeitados e aceitos nas comunidades às quais pertencem.

    Ainda que limitado, o texto é o documento oficial do Vaticano que trata mais diretamente da possibilidade de haver sacerdotes casados e a presença ministerial das mulheres na Igreja, segundo aponta uma reportagem do jornal O Globo.

    A decisão final sobre o assunto deverá ocorrer somente em outubro de 2019, a partir da reunião dos cardeais no sínodo.

    O celibato imposto aos sacerdotes é uma tradição do rito latino da Igreja Católica, a Igreja Católica Apostólica Romana. As primeiras determinações da Igreja sobre o assunto vêm do século 4, quando a ideia de que padres não podem se casar começou a ser incorporada no direito canônico.

    Não se trata de doutrina (princípio professado pela Igreja), mas de disciplina, como o próprio Papa Francisco já afirmou. Muitas Igrejas Católicas do rito oriental permitem que homens casados sejam ordenados.

    Em entrevista sobre o tema concedida ao Nexo em 2017, Erico João Hammes, professor de teologia da PUC do Rio Grande do Sul e padre desde 1979, explicou que a mudança alteraria apenas regras do direito canônico, de perfil mais administrativo do que teológico, sem influir em dogmas mais profundos.

    Segundo uma reportagem da agência de notícias Associated Press, a obrigação de prover financeiramente às famílias dos padres foi um dos principais motivos para a imposição definitiva do celibato no século 11, quando a Igreja não queria que seus bens fossem herdados pelos descendentes dos religiosos.

    Em todo o mundo, no entanto, existem associações formadas por padres que deixaram o ministério sacerdotal para se casar e que gostariam de voltar a oferecer seus serviços à Igreja.

    No Brasil, há a Associação Rumos – Movimento Nacional das Famílias dos Padres Casados –, que conta com milhares de associados.

    O sínodo e o governo Bolsonaro

    Em fevereiro de 2019, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, afirmou que o sínodo sobre a Amazônia gerava preocupação no governo Bolsonaro.

    Além da evangelização no território amazônico, o evento também discutirá o combate à pobreza, a proteção à população indígena e a preservação da floresta, temas considerados pelo governo brasileiro como uma “agenda da esquerda”.

    Após vários contatos feito entre militares e representantes católicos realizados desde então, entre os quais uma reunião em Manaus entre ambas as partes que incluiu o general César Augusto Nardi, do Comando da Amazônia, o atrito foi superado, segundo afirmou o cardeal Cláudio Hummes, um dos que irão conduzir o sínodo, ao jornal O Estado de S. Paulo em junho de 2019.

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