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Como as crianças leem o mundo, segundo este dicionário

Professor colombiano organizou livro com 133 palavras e 500 definições, feitas por alunos entre 3 e 12 anos

 

“Infância vem do latim infans: o que não fala. As crianças que falaram aqui não conheciam essa definição.” É assim que o professor colombiano Javier Naranjo começa o dicionário que organizou ao longo de mais de uma década, feito por crianças de 3 a 12 anos.

O livro, chamado “Casa das Estrelas – O universo contado pelas crianças”, é de 1999 e foi relançado em 2013, na Feira Internacional do Livro em Bogotá. No mesmo ano foi publicado no Brasil pela editora Foz. Em 2018, foi reeditado no país pela Planeta.

Escritor e professor, Naranjo foi durante muito tempo responsável pelo curso primário de uma escola chamada El Triângulo, na zona rural de Rionegro, cidade colombiana do noroeste do país.

O professor dava aulas de criação literária. Segundo ele conta no prefácio do livro, sua didática não seguia um esquema rígido: as atividades aconteciam fora da sala de aula, em espaços como o jardim e a sala de jogos da escola. Junto aos alunos, lia e inventava contos, palíndromos, cartas, palavras cruzadas, poemas.

Foto: Lara Sabatier/Reprodução
Ilustração da letra "C", de Lara Sabatier para o livro "Casa das Estrelas", presente em ambas as edições brasileiras

Em meio a essas atividades, em 1988, propôs que escrevessem palavras e seus significados. Quando viu os resultados, surpreendeu-se e levou o projeto adiante. “Não quis que se tornasse uma obrigação [para as crianças]”, escreveu. “Devia continuar sendo divertido, nada que parecesse um dever, um hábito. Um jogo dos bons, desses que nunca se cansa de jogar.”

Em 1994, a partir de uma bolsa do Ministério da Cultura colombiano, conseguiu expandir seu trabalho para outras duas escolas, Chipre e Tres Puertas, também localizadas em Rionegro, em uma parte mais  urbanizada.

Segundo Naranjo afirmou em entrevista à Globo News em 2014, essas eram escolas mais pobres – em contraste à El Triangulo, frequentada por crianças ricas. O livro reflete as experiências de Naranjo com classes sociais distintas, mas, segundo o professor, reúne também medos e dúvidas comuns a crianças de ambas as realidades, inerentes à infância.

O nome do livro, “Casa das Estrelas”, é a definição que Carlos Gómez, um de seus alunos, de 12 anos, deu para a palavra “universo”.

Para fazer o dicionário, o professor selecionou 500 definições de 133 palavras, de todo o material colhido ao longo de mais de uma década. Os verbetes que constam no livro são os mais próximos possíveis daquilo que as próprias crianças escreveram: Naranjo conta que fez apenas correções ortográficas e, em poucos casos, de pontuação.

“Respeitei a voz das crianças, suas hesitações, deslocamentos, sua secreta arquitetura. Seus achados no milagre de revelar o enunciado. Respeitei sua vontade de esquecimento ou profunda memória. Sinceridade na intenção. Voz que acontece alheia ao que quer impor o já sabido: no mundo gasto, rotulado pela pobreza ‘já conheço tudo’”

Javier Naranjo

escritor e professor, no prefácio de “Casa das Estrelas”

Algumas definições de “Casa das Estrelas”

  • Adulto: “Pessoa que em toda coisa que fala, vem primeiro ela” (Andrés Felipe Bedoya, 8 anos). “É quando uma pessoa está morta” (Héctor Barajas, 8 anos).
  • Amor: “É quando batem em você e dói muito” (Viviana Castaño, 6 anos). “Se apaixonar pode ser paz” (Carolina Murillo, 7 anos).
  • Criança: “Humano feliz” (Jhonan Sebastián Agudelo, 9 anos). “É brinquedo de homens” (Carolina Álvarez, 7 anos). “Danificada da violência” (Jorge A. Villegas, 11 anos).
  • Deus: “Deus e a morte são um” (Edison Albeiro Henao, 7 anos).
  • Dinheiro: “É o fruto do trabalho mas há casos especiais” (Pepino Nates, 11 anos). “É o pior vício” (Carolina Uribe, 11 anos). “Sou muito pobre pelo dinheiro” (Andrés Felipe López, 7 anos).
  • Distância: “Alguém que se vai de alguém” (Juan Camilo Osorio, 8 anos).
  • Espírito: “É o que precisamos para sobreviver na violência” (Pepino Nates, 11 anos).
  • Eternidade: “É esperar uma pessoa” (Weimar Grisales, 9 anos). “É quando numa casa todos os filhos se casam, que não põem música, nem tem barulho. Essa casa parece uma eternidade” (Blanca Yuli Henao, 10 anos).
  • Família: “É dormir, se encontrar” (Leonardo Fabio Duque, 5 anos).
  • Igreja: “Onde as pessoas vão perdoar Deus” (Natalia Bueno, 7 anos).
  • Inveja: “A inveja é quando uma criança come” (Natalia Escobar, 8 anos).
  • Louco: “Pessoa sentimental” (Héctor Alonso Arcila, 12 anos).
  • Mãe: “A mãe é a pele da gente” (Ana Milena Hurtado, 5 anos).
  • Medo: “É quando minha mamãe dirige um carro e uns senhores que trabalham no encanamento não têm o que comer e quebram o vidro do carro e matam ela e matam meu papai e vivo sozinho” (Orlando Vásquez, 6 anos).
  • Morte: “O país” (Jorge Andrés Giraldo, 6 anos). “Para mim a morte é Deus” (Andrés Marín, 7 anos).
  • Paz: “Quando alguém se perdoa” (Juan Camilo Hurtado, 8 anos).
  • Político: “Alguém que faz promessas e nunca cumpre” (Roger de Jesús Valencia, 9 anos).
  • Tempo: “Algo que corre na gente” (Roger de Jesús Valencia, 9 anos).
  • Tristeza: “Sentir” (Juan Eduardo Atehortúa, 10 anos).
  • Violência: “Alguém pega uma menina e faz amor” (Javier Ignacio Ramírez, 6 anos).

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