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O que esperar depois de seguidas quedas da projeção do PIB

Cinco economistas falam ao ‘Nexo’ sobre as expectativas a respeito da economia brasileira em 2019

     

     

    O crescimento da economia brasileira em 2019 deve ficar abaixo de 1%. Esta é a projeção mais recente dos economistas e instituições consultados semanalmente pelo Banco Central para o relatório Focus, que reúne projeções de agentes de mercado para os principais índices da economia. O relatório foi publicado na segunda-feira (17).

     

     

    A mediana das previsões colhidas, medida considerada a mais relevante para se determinar a avaliação geral do mercado, foi de 0,93%. Ou seja, é a primeira vez que os analistas acreditam que o crescimento do Produto Interno Bruto em 2019 será menor que 1%.

     

    O resultado demonstra pessimismo. É a 16ª semana consecutiva em que a projeção do Focus é reduzida. Em janeiro, o palpite médio dos agentes de mercado era de um crescimento de 2,53%, mais que o dobro do palpite mais recente. Um ano atrás, o otimismo era ainda maior e a mediana ficava na casa dos 3%.

     

    A função das projeções econômicas é traçar um cenário para minimizar riscos de investimentos. É por isso que grandes empresas têm departamentos próprios especializados em projetar o crescimento, a inflação, a variação do câmbio e outras variáveis econômicas de um país. É por isso que consultorias vendem esses serviços.

    Pessimismo

     

    Mais um ano fraco

    O pessimismo explicitado na retração das projeções de crescimento da economia tem a ver também com os resultados já divulgados para os primeiros meses do ano. O Produto Interno Bruto teve, no primeiro trimestre de 2019, o primeiro resultado negativo desde 2016. O desemprego segue em alta e os dados setoriais também demonstram um avanço lento.

    Esses são indicativos fortes de que a economia brasileira vai novamente frustrar as projeções que economistas tinham para ela no início do ano. Crescer menos do que o Focus previa em janeiro tem sido quase uma regra para o Brasil. Em sete dos últimos oito anos o resultado efetivo do PIB foi menor do que o que era projetado no início daquele ano.

     

    É bastante provável que isso se repita novamente em 2019, já que o PIB dificilmente vai crescer os 2,53% que se projetava em janeiro.

     

    Diante do histórico de frustrações e da sequência de reduções de palpites, o Nexo procurou cinco economistas e perguntou a eles até onde pode ir o pessimismo com o crescimento do PIB em 2019.

     

    ‘A economia se encontra numa armadilha’

    André Perfeito

    economista-chefe da Necton Investimentos

    “Minha projeção de PIB para este ano está em irrisórios 0,5% para o acumulado e pode ser revista para baixo caso o PIB do 2º trimestre vier negativo. Ainda trabalho que seja em 0% no próximo trimestre.

    A economia brasileira se encontra numa espécie de armadilha. Se de um lado o mercado dá toda a credibilidade do mundo para o governo, e isto implica dizer que os juros estão baixos, por outro os juros baixos não fazem o efeito desejado. A economia está tão fraca que os juros não encontram aderência na realidade econômica, logo gira em falso. Não adianta nada ter os juros ‘no lugar certo’ e a economia no ‘lugar errado’.

    Tudo isso sugere que o BCB deve cortar mais os juros, afinal a boa notícia é que está ruim, ou seja, a atividade econômica está tão fraca que os juros caem. A queda dos juros irá fazer a bolsa subir o que irá passar a falsa impressão que está tudo indo bem quando na verdade não está.”

    ‘Tendência de desaceleração vem desde 2018’

    Gilberto Borça Junior

    gerente de pesquisa macroeconômica do BNDES

    “Acredito que a economia vai ter uma expansão entre 0,5% e 0,8% para esse ano. Creio que, à luz dos dados de hoje, seja difícil uma contração da atividade.

    A tendência de desaceleração da economia vem ocorrendo, com maior proeminência, desde o segundo semestre de 2018. E tal tendência se agravou no início de 2019. Ainda estamos 5,3% abaixo do nível de PIB que prevalecia no primeiro trimestre de 2014. Ou seja, passados cinco anos a economia ainda encontra-se muito aquém do que um dia já foi. E os indicadores mais recentes de atividade continuam a se deteriorar nas últimas leituras. Varejo, Indústria e Serviços mostram desaceleração acentuada nos dados acumulados em 12 meses (até abril).

    O próprio mercado parece já ter se convencido de que o Banco Central precisa fornecer estímulos monetários adicionais à economia, uma vez que a inflação segue abaixo da meta e as expectativas seguem a mesma trajetória. Nas próximas semanas, provavelmente, já teremos expectativas de inflação abaixo da meta para 2020. Lembrando que para esse ano, a mediana Focus projeta 3,84% contra uma meta de 4,25%. Um corte de juros é uma medida urgente. A própria mediana Focus para Selic no final de 2019 caiu para 5,75%, a inflação implícita nas negociações dos títulos públicos aponta para algo bem abaixo da meta.

    O pano de fundo para essa lenta retomada se encontra, a meu ver, na combinação de forte redução do crédito público/direcionado com a inflexão ocorrida na trajetória da despesa primária (devido ao Teto de gastos) a partir de 2016 (entre 1998-2015, a despesa primária crescia 6% ao ano em termos reais). Tais fatores reduziram bastante o nível da demanda agregada na economia brasileira, sem a devida compensação da política monetária.”

    ‘É uma oscilação no quadro depressivo do Brasil’

    Guilherme Mello

    professor de economia e diretor do Centro de Estudos de Conjuntura da Unicamp

    “Minha projeção mais pessimista é de que a economia vai entrar em recessão, com duas quedas do PIB consecutivas, e acabará o ano com um crescimento próximo a 0% ou uma recessão leve. Não projeto recessão grave, é uma oscilação dentro desse quadro depressivo que o Brasil vive desde o fim de 2016.

    A concretização ou não desse cenário vai depender de inúmeros aspectos. Entre eles, da capacidade do governo de articular uma política minimamente anticíclica [de incentivo]. Ele está aí flertando com algumas opções como a liberação do PIS/Pasep, do saldo das contas ativas do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço). São opções complicadas porque o fundo financia, por exemplo, habitação. Mas de uma forma ou de outra isso pode gerar um pequeno choque positivo no consumo das famílias, o que pode tirar o país da tendência recessiva.

    A discussão é muito sobre a reforma da Previdência, mas não acho que ela vá ser essa alavanca. Do ponto de vista da renda, do crédito e do crescimento, tem um impacto até negativo no curto prazo. O que ela pode ter de positivo é algum tipo de choque de confiança no mercado financeiro, mas isso tem um efeito bastante limitado sobre o crescimento.

    O que poderia ajudar são medidas de impacto na renda e no emprego que, claro, tem um custo fiscal, precisam ser financiadas de alguma forma. Mas são as únicas que podem tirar a gente desse quadro.���

    ‘A onda de revisão vem da pouca reação da economia’

    Juliana Trece

    pesquisadora do Ibre da Fundação Getúlio Vargas

    “A expectativa para o crescimento do PIB em 2019 chegou hoje a 0,93%. Após 16 reduções consecutivas, a mediana das expectativas (Focus/BCB) chegou, pela primeira a um crescimento menor que 1,0%. Chama atenção que, no início do ano a expectativa de crescimento era de 2,6%.

    Considerando um cenário pessimista, com crescimento nulo nos próximos três trimestres do ano, a economia chegaria a menos de 0,5% em 2019; metade das taxas registradas nos dois últimos anos que já foram abaixo do esperado, ainda mais após a forte recessão iniciada em 2014.

    Essa onda de revisão vem da pouca reação da economia que não consegue crescer significativamente diante de tantas incertezas políticas e econômicas. A relação dívida bruta/PIB em quase 80% sintetiza a grave crise fiscal pela qual o país passa e que merece atenção dado que é uma das principais ‘travas’ da economia. As reformas são essenciais para atenuar essa situação e aumentar a confiança dos empresários a ponto de aumentar os investimentos, fazendo com que a economia cresça mais substancialmente e, consequentemente, o desemprego diminua.”

    ‘Ambiente político conturbado cria apreensões’

    Otto Nogami

    professor de economia do MBA Insper

    “A minha projeção, hoje, é de um PIB de -0,14 em 2019. E pelo andar da carruagem da reforma da Previdência, totalmente desfigurada com relação ao que seria o ideal, o governo ingressa num corredor extremamente perigoso de não conseguir financiar seu deficit em dois anos.

    O ambiente político conturbado tem criado apreensões junto aos consumidores e empresários. A briga constante entre os poderes, deixa a sociedade em constante dilema com relação ao futuro do país. E à medida que a sociedade não recebe nenhuma indicação positiva sobre as perspectivas de retomada do crescimento, e ouvindo diariamente nas mídias situações polêmicas construídas pelo governo, a confiança do consumidor e do empresário começa a esvair, levando o consumidor a conter sua demanda, seja por precaução ou por endividamento, e o empresário a postergar seus investimentos. E à medida que nos aproximamos dos 6 meses de governo, e nada de concreto foi feito ou realizado, as apreensões são naturalmente transferidas para o próximo ano.

    A retomada dos investimentos, principalmente públicos, é mais do que urgente, mas para isso o governo tem que acertar seus gastos, a começar pela previdência. A partir do momento que o governo retoma os investimentos de infraestrutura, o setor privado pode se animar e começar a investir também. Essa ação ajudará aumentar a renda, que elevará o consumo, e a atividade econômica começará a respirar.”

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