Como cafés viraram espaço de mobilização de mulheres afegãs

Estabelecimentos abrigam debates sobre desigualdade de gênero, costumes tradicionais pós-Talibã e o futuro das negociações de paz com os EUA

 

Em Cabul, capital do Afeganistão, cafés têm se estabelecido como espaços seguros para mulheres jovens que não seguem costumes tradicionais ao menos desde 2016, quando novos estabelecimentos voltaram a surgir após atentados do Talibã a cafés em 2014.

Neles, elas podem criticar abertamente a desigualdade de gênero no país, debater política, não utilizar o véu e interagir com homens jovens sem juízo de valor, conforme relata reportagem feita em Cabul pelo jornal americano The New York Times.

O surgimento desses cafés ocorre em um contexto marcado por baixos índices de segurança para o gênero feminino. O Afeganistão já foi considerado, em 2011, o país mais perigoso para ser mulher no mundo, segundo uma pesquisa da fundação Thomson Reuters, braço filantrópico do mesmo grupo da agência de notícias Reuters. Sete anos depois, em 2018, em nova pesquisa feita pela mesma fundação, o país caiu apenas uma posição e foi para o 2º lugar, depois da Índia.

O Afeganistão ainda enfrenta questões relacionadas à permanência de uma atuação extraoficial do Talibã, grupo fundamentalista islâmico que governou o país durante cinco anos, a partir de 1996, e instituiu políticas extremistas em relação às mulheres, como a proibição de que trabalhassem fora de casa e execuções por questões de “honra” — como suspeições de adultério e interações não permitidas com algum homem em específico. Em 2001, o Talibã foi deposto pela ação de tropas ocidentais lideradas pelos Estados Unidos.

Apesar de mudanças em relação às mulheres terem sido implementadas na Constituição afegã após a queda do Talibã, como esforços para promover políticas igualitárias de acesso à educação e a garantia de uma cota de mulheres na Assembleia Nacional do país, entre outros direitos garantidos por outras leis, elas nem sempre são seguidas à risca. Além disso, tradições conservadoras ainda persistem — exemplo disso é a existência de espaços separados para homens e “famílias” (esposas e filhos) em restaurantes.

“Ainda hoje, nós não conseguimos andar nas ruas sem sermos assediadas”, afirmou uma frequentadora dos cafés ao jornal americano. “As pessoas nos chamam de prostitutas, de ocidentalizadas, [de parte] da ‘geração democracia’.”

“Aqui é o único lugar onde eu consigo relaxar e me sentir livre, mesmo que por apenas algumas horas”, disse outra mulher sobre a importância dos cafés à mesma reportagem.

A relação entre os cafés e a conjuntura afegã

Há tanto cafés mistos como os que permitem apenas a entrada de mulheres. O primeiro cibercafé exclusivamente para mulheres no Afeganistão foi criado em 2012 como um “local seguro” para que elas utilizassem a internet.

O surgimento de cafés desse tipo no Afeganistão se dá muito tempo depois do período em que o Talibã esteve à frente do governo do país, entre 1996 e 2001, legislando com base na sharia, ou seja, na interpretação radical das tradições islâmicas presentes no Alcorão. A deposição do grupo se deu rapidamente, a partir de ação militar encabeçada pelos EUA, após o atentado às Torres Gêmeas em 11 de setembro. O então presidente americano George W. Bush acreditava que o Talibã havia abrigado Osama Bin Laden, líder do grupo terrorista Al Qaeda, responsável pelo atentado.

A presença militar ocidental no Afeganistão deu início a uma guerra que se prolonga há 18 anos, uma vez que o grupo ainda atua como uma força insurgente, que tenta reaver seu poder efetivo.

A partir da morte de Osama Bin Laden, por uma operação coordenada pelos EUA, em 2011, no Paquistão, começou a haver uma retirada gradual de tropas americanas do Afeganistão. No fim de 2014, sob a gestão do então presidente americano Barack Obama, os EUA declararam o fim de operações de combate por suas tropas no país, mantendo parte dos militares com o objetivo de ajudar a treinar e fortalecer o exército e forças policiais afegãs e proteger embaixadas estrangeiras.

Há questionamentos, porém, sobre a efetividade da ação naquele momento, visto o grau de dependência de soldados e policiais afegãos em relação às tropas estrangeiras para lidar com a força insurgente do Talibã. Entre 2014 e 2018, mais de 25 mil soldados e policiais afegãos foram mortos em atuação no Afeganistão.

Também em 2014, o Talibã foi responsável por uma série de ataques com homens-bomba e tiros em Cabul contra cafés e restaurantes que, segundo suas concepções, violavam os costumes e a lei islâmica.

Um café popular da cidade, chamado Taverna du Liban, onde álcool era servido e havia livre convivência entre homens e mulheres afegãos e pessoas ocidentais, teve 21 de seus clientes mortos em um ataque.

O consumo de álcool para cidadãos afegãos é proibido no geral, mas há um forte mercado ilegal de produtos alcoólicos que facilita esse acesso. Para turistas, há uma cota específica que é permitida legalmente. Desde a queda do Talibã, diversos bares no Afeganistão, assim como o Taverna du Liban, passaram a oferecer álcool a turistas e estrangeiros.

A partir desses atentados, diversos cafés fecharam em 2014, tanto por medo de novos ataques quanto por orientações governamentais de segurança. Nos anos seguintes, 2015 e 2016, pessoas que queriam conviver a partir de outros costumes ou a partir de parâmetros da cultura ocidental passaram a fazê-lo em ambientes domésticos.

Ainda em 2016, porém, como forma de resistência, novos cafés para esses fins voltaram a surgir, restabelecendo esse espaço de convivência. Mas isso não significa que tenha havido perda de força do Talibã no Afeganistão.

Segundo levantamento feito pelo jornal inglês BBC, em 2017, a partir de mais de 1.200 entrevistas com moradores de diversas regiões do Afeganistão, o Talibã ainda tem presença ativa e declarada em cerca de 66% do território. A atuação do grupo se dá sobretudo em áreas rurais, mas há registros de atentados até mesmo em cidades mais populosas e na capital, Cabul.

Quem são as mulheres que vão aos cafés

Muitos dos cafés são frequentados por mulheres jovens, que eram crianças ou nem mesmo haviam nascido quando o Talibã efetivamente governou o país. No geral, elas vivem em cidades como Cabul, Herat e Mazar-i-Sharif, que estão entre as mais populosas do país e têm maior abertura para o surgimento desses espaços. Mas há também cafés em cidades menores, como Bamiyan, em menor proporção.

As frequentadoras dos cafés se tornaram adolescentes ou adultas durante a luta pós-Talibã de jovens afegãs que queriam se libertar da herança de políticas restritivas em relação às mulheres. Elas cresceram tendo celulares, acesso às redes sociais, liberdade de expressão, em uma perspectiva legal, e vendo mulheres ocuparem posições políticas.

De acordo com dados do Banco Mundial de 2017, apenas 11% da população total do Afeganistão têm acesso à internet, dado que ajuda a localizar algumas dessas mulheres no espectro social e de renda do país. Isso não quer dizer que sejam necessariamente ricas, especialmente se forem de cidades menores — devido a anos de guerra, o Afeganistão é no geral um país com altos índices de pobreza. Em 2018, segundo o Banco Mundial, mais da metade da população afegã vivia abaixo da linha da pobreza nacional, o que foi considerado um “aumento significativo” em relação aos cinco anos anteriores.

“Os altos índices de pobreza representam o resultado conjunto de um crescimento econômico estagnado, o crescimento de pressões demogr��ficas e a deterioração da segurança em um contexto de uma economia já empobrecida e uma sociedade onde o capital humano e os meios de subsistência foram erodidos durante décadas de conflito e estabilidade”

Shubham Chaudhuri

diretor para o Afeganistão do Banco Mundial, em texto publicado em 2018

Não é apenas para acessar a internet que as frequentadoras dos cafés utilizam o espaço. Há mulheres com diferentes ocupações, que vão para estudar, ler, comer e, especialmente, interagir livremente. É nos cafés que encontram espaço para discutir a proteção das conquistas para o gênero feminino pós-Talibã.

Os cafés representam um espaço onde podem conversar sobre seus medos e agir no paralelo de maneira prática. A jornalista e frequentadora de cafés Farahnaz Forotan, por exemplo, criou a hashtag #myredline, que faz referência aos limites que mulheres afegãs acreditam que não devem mais ser ultrapassados e à reivindicação de direitos. Para Forotan, que publica diversas fotos suas em cafés em seu Facebook, esses espaços simbolizam um dos seus limites.

 

Sobre os limites que essa geração de mulheres acredita serem intransponíveis, está uma questão conjuntural comumente debatida nos cafés: as negociações de paz entre EUA e Talibã, que, na gestão do presidente Donald Trump, vêm ocorrendo desde janeiro de 2019.

As conversas ainda dizem pouco sobre qual será o futuro do Afeganistão. Até agora, caso os EUA aceitem retirar suas tropas do país (hoje são 14 mil militares, além dos 8.000 que representam a OTAN e países aliados), os insurgentes dizem que se comprometerão a evitar que o Afeganistão volte a abrigar membros e lideranças de grupos terroristas. Porém, não há consenso sobre um cessar-fogo, exigência americana para deixar o país, e o Talibã se recusa a dialogar com o governo afegão, uma variável importante para o equilíbrio de forças na região.

Devido à intransigência do grupo em relação ao governo afegão e ao peso que ainda tem no país (estima-se que que o grupo conta com mais de 60 mil membros), especialistas em política internacional e cidadãos afegãos temem que o avanço do acordo com os EUA e a retirada dos militares americanos deem espaço para que o Talibã volte a expandir seu poder e restitua oficialmente as normas que estiveram em vigor durante sua gestão.

Em entrevista ao Arab News, uma frequentadora de um café em Bamiyan afirmou: “Nos últimos 15 anos, [a situação das] mulheres progrediu muito. Mas a atmosfera no Afeganistão é tão incerta e insegura que você nunca sabe quando o país vai ser tomado novamente pelo Talibã. Esse é o maior medo que as mulheres têm”.

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