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O que é a ‘síndrome do impostor’. E como superá-la

Nomeada na década de 1970 por psicólogas americanas, condição faz pessoas sentirem que não são realmente capazes e que os outros as superestimam em inteligência ou talento

Mesmo depois de já ter lançado uma dezena de livros, a escritora, poeta e ativista americana Maya Angelou dizia pensar consigo mesma a cada novo trabalho: “eu enganei todo mundo, mas agora eles vão me descobrir”. A sensação de ser “uma fraude” era persistente, assim como a dúvida a respeito de seu próprio talento e capacidade.

O sentimento relatado por Angelou é amplamente compartilhado por estudantes, pessoas que estão no mercado de trabalho ou cuja produção está ligada à criatividade, mesmo quando essas pessoas obtêm ótimos resultados.

Quem é atingido por esse fenômeno tem a percepção irrealista de que outras pessoas superestimam suas capacidades — seu sucesso, assim, teria se dado por sorte, esforço ou por meio de relacionamentos interpessoais.

Os “sintomas” são sentimentos de fraude, de não pertencimento, medo de “ser descoberto” pelos outros, sentimento de culpa devido a ele, ansiedade, medo de ser avaliado, de não ser capaz de repetir o sucesso anterior e da comparação com outras pessoas, além de dificuldade de se apropriar do sucesso e de receber elogios.

Embora não sejam exclusividade de nenhum grupo, mulheres são propensas a apresentar a síndrome.

Para dar nome a esses casos, as psicólogas americanas Pauline Rose Clance e Suzanne Imes criaram, na década de 1970, a expressão “fenômeno do impostor”.

O conceito chegou recentemente ao meio acadêmico brasileiro e também tem ganhado maior visibilidade fora da academia a partir de debates sobre o empoderamento feminino e de personalidades que têm falado publicamente sobre o tema, como a ex-primeira-dama americana Michelle Obama.

O estudo que nomeou o problema

De 1978, o estudo “O fenômeno do impostor em mulheres bem-sucedidas: dinâmica e intervenção terapêutica”, realizado por Clance e Imes, identificou a “experiência interna de impostura intelectual, que parece ser particularmente frequente e intensa em uma amostra selecionada de mulheres com alto desempenho”.

Apesar de suas realizações acadêmicas e profissionais, as participantes da pesquisa seguiam acreditando não ser realmente competentes e inteligentes, e que teriam enganado aqueles que as veem dessa forma.

Como muitas das pessoas que sofrem com esse problema acreditam ser as únicas, Clance chegou a criar um teste e uma escala que tornam possível medir o quanto alguém é afetado pelo fenômeno.

Embora o resultado do teste não seja equivalente a um diagnóstico, o questionário é confiável e tem validade científica, podendo ser usado para avaliação individual.

Já bastante estudada nos Estados Unidos e em outros países, a síndrome do impostor é o tema principal de poucas pesquisas brasileiras.

Apenas uma dissertação de mestrado (intitulada “Síndrome do impostor e autoeficácia de minorias sociais”, defendida em 2014 por Patricia Camargo de Matos), aparece como resultado da busca pela expressão na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações, que reúne a produção acadêmica de instituições brasileiras de ensino e pesquisa.

A condição se popularizou como síndrome do impostor, embora a terminologia original a designe como fenômeno.

Para a psicóloga e doutora pela UnB Renata Muniz Prado, a nomenclatura dada por Pauline Rose Clance e Suzanne Imes seria a mais adequada.

“A palavra síndrome traz uma conotação de transtorno, e não vejo dessa forma”, disse ao Nexo.

Qual a origem da sensação

A crença interior de não ser bom o suficiente e não pertencer ao meio onde se está pode se manifestar por várias razões, ligadas, por exemplo, ao passado, como a classe social ou a criação, ou a algo vivenciado no presente, segundo afirmou a psicóloga britânica Rachel Buchan em entrevista à BBC.

Ao Nexo, Renata Muniz Prado também disse que fatores internos e externos podem contribuir para a síndrome do impostor.

“O clássico estudo de Clance e Imes destacou a influência do ambiente familiar e, [para as mulheres] a internalização de estereótipos associados ao papel da mulher na sociedade”, disse.

Os estereótipos e expectativas de gênero influenciam a percepção das mulheres talentosas sobre si mesmas, gerando dúvidas acerca do seu potencial real.

Segundo ela, alguns estudos associaram ainda à síndrome do impostor características de personalidade como introversão, condutas defensivas, ansiedade social, baixa autoestima e crenças negativas de autoeficácia.

Por que minorias sentem mais

Embora seja sentida por pessoas de todos os grupos demográficos, mulheres e integrantes de outras minorias sociais são desproporcionalmente afetados pela síndrome do impostor.

“Ainda tenho um pouco de síndrome do impostor, ela nunca vai embora. Aquele sentimento de que vocês não deveriam me levar tão a sério nunca me abandona. O que eu sei? Compartilho isso com vocês porque todas temos dúvidas sobre nossas habilidades, sobre nosso poder e o que é esse poder”

Michelle Obama

Advogada e ex-primeira-dama dos Estados Unidos

A pressão de ser a primeira ou uma das poucas mulheres, pessoas negras ou LGBTIs a alcançar determinada posição ou feito é um dos fatores que torna essas pessoas mais suscetíveis à síndrome do impostor, disse Valerie Young, educadora e autora do livro “Os Pensamentos Secretos das Mulheres de Sucesso”, ao jornal americano New York Times.

A maneira de encarar as próprias realizações também é influenciada pelo gênero.

Estudos indicam que homens tendem a reconhecer e mesmo a superestimar suas conquistas, atribuindo-as à habilidade inata ou à inteligência, enquanto as mulheres costumam explicar o próprio sucesso por fatores como sorte, trabalho duro ou pela ajuda de outras pessoas.

“São elas [mulheres] que enfrentam as maiores barreiras no percurso de ascensão profissional. Quando chegam no topo de suas carreiras, surge a dúvida sobre as habilidades que de fato possuem versus sorte, oportunidade, influência de relacionamentos interpessoais. [Pensam] ‘tem algo errado pois não sou tão boa assim’”, diz a psicóloga Renata Muniz Prado.

O que fazer para combater a síndrome

Há várias estratégias indicadas por especialistas para lidar com a sensação permanente de ser um impostor.

Uma delas é falar com um colega ou amigo sobre o assunto — a conversa pode ajudar a perceber que há muitas outras pessoas se sentindo da mesma forma, anulando o sentimento de estar sozinho com sua insegurança.

A partir da conscientização sobre o fenômeno, segundo a psicóloga Renata Muniz Prado, e do entendimento de que não se está sozinho nisso, é possível trabalhar a ideia de que sentir-se uma fraude pode ser fruto de distorções cognitivas identificando “o que é próprio do indivíduo, sua autoestima, insegurança, vivência de conflitos pessoais e o que é resultante de influências socioculturais”.

Reconhecer suas próprias conquistas, lembrar a si mesmo daquilo em que se é bom, decidir assumir uma postura confiante, deixar de se comparar com outras pessoas e encarar o fracasso como algo natural, e não como um indicativo de ser um impostor, também são atitudes aconselhadas por psicólogos e outros profissionais.

Em sua pesquisa de doutorado pela Universidade de Brasília, Prado desenvolveu um programa de desenvolvimento de talento feminino, durante o qual se deparou com algumas mulheres que sequer conseguiam identificar suas qualidades.

Com base nessa experiência, no caso das mulheres que sofrem da síndrome do impostor, ela sugere o desenvolvimento de programas de aconselhamento e acolhimento às lideranças femininas.

“As mulheres em ascensão profissional têm dificuldade em falar sobre suas conquistas e desafios. As pessoas tendem a acolher melhor as dificuldades, mas nem sempre há espaço para compartilhar nosso sucesso”, disse a psicóloga ao Nexo.

Programas de mentoria também são bem-vindos e destacados em estudos como estratégias úteis para promover a confiança de profissionais e estudantes.

Segundo Prado, eles funcionam porque “a convivência com pessoas mais experientes oferece suporte psicossocial tanto na segurança para assumir riscos quanto para lidar com críticas, habilidades importantes em um processo de desenvolvimento profissional”.

“Eu incentivo minhas pacientes a colocarem no papel os fatores que promoveram e dificultaram chegar onde estão”, disse a psicóloga. “Observar, concretamente, de forma realista, toda a trajetória percorrida possibilita a desconstrução desse pensamento e minimiza o efeito da síndrome”.

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