O zumbido do rapper will.i.am. E como lidar com esse sintoma

Estudo afirma que até 20% da população pode ser afetada por uma percepção permanente de ruído

 

“Eu não sei mais o que é o som do silêncio”, disse o rapper will.i.am ao jornal britânico The Express na última quinta-feira (9). O motivo é um problema comum e desagradável: o tinnitus aurium, popularmente conhecido como zumbido. Ele não é uma doença, mas antes o sintoma de algum outro problema.

Batizado William Adams, o músico americano de 44 anos começou a se tornar conhecido a partir dos anos 1990, ao liderar o grupo de hip hop Black Eyed Peas. Hoje, é jurado do concurso de talentos The Voice UK, da BBC.

“Tem um ‘beep’ [ou apito] todo dia, o dia inteiro, inclusive agora. Eu não sei exatamente há quanto tempo eu tenho isso, mas gradualmente está piorando”, disse na entrevista.

Uma consequência normal depois de ficar exposto a eventos com volume de som muito alto (como um show, por exemplo) é ficar com zumbido no ouvido durante algum tempo. Mas, para muitas pessoas, como will.i.am, a percepção de ruído é permanente.

Em um artigo publicado em junho de 2018, a colunista do Nexo Lilia Schwarcz escreveu sobre o sintoma. Ela descreveu seu ruído como o som de uma “cachoeira íntima” percebida em ambos seus ouvidos, que surgiu em 2017 e a acompanha desde então. 

Se para Schwarcz o som percebido é de uma cachoeira, para outros pode ser um alarme, um rugido, um clique, um chiado, um murmúrio. Pode afetar apenas um ou ambos os ouvidos, mas também pode causar a sensação de vir de dentro da cabeça, ou de um lugar distante.

15% - 20%

da população é afetada por algum nível de zumbido, segundo informações presentes no site da Mayo Clinic, uma instituição americana sem fins lucrativos voltada para serviços e pesquisas médicas

O que causa o zumbido

Há dois tipos principais de zumbido: o objetivo, que pode ser ouvido por médicos em exames, e o subjetivo, que é identificado apenas por quem sofre deles.

Uma nota do site de divulgação científica da faculdade de medicina da Universidade Harvard explica o primeiro caso, de zumbido objetivo, que é mais raro. 

De acordo com o documento, o funcionamento do corpo humano naturalmente emite ruídos. Mas eles normalmente não são percebidos, porque são ofuscados pelos sons externos. Quando a audição é bloqueada por algum motivo, esses sons internos ficam mais perceptíveis e, assim, podem se tornar zumbidos.

O zumbido subjetivo é perceptível apenas para quem sofre com ele, e é comum que a causa não seja detectada. Mas, frequentemente, o problema é causado por danos a células capilares do ouvido interno.

Essas células são pequenos fios que se movem de acordo com a pressão do ar deslocado pelas ondas sonoras. O movimento aciona sinais elétricos até o cérebro, responsável por interpretá-los. Quando sofrem danos, esses pequenos cabelos podem passar a gerar impulsos aleatórios, que levam ao zumbido permanente.

A causa do zumbido pode estar, no entanto, em qualquer etapa do processo auditivo. Tanto no ouvido externo, no ouvido médio ou no ouvido interno, quanto no funcionamento problemático de alguma parte do córtex cerebral responsável pela audição.

De acordo com um artigo acadêmico sobre o sintoma, publicado em 2016 na revista acadêmica Hearing Research, muitas das pessoas que sofrem com o problema não são incomodadas com a percepção do som.

Para outras, o zumbido pode impactar em sua qualidade de vida e causar problemas debilitantes, como “depressão, ansiedade, frustração e insônia”. O site da Mayo Clinic adiciona ainda outros problemas, como: fatiga, irritabilidade, estresse e dificuldade de concentração.

A nota cita algumas causas comuns para zumbido, que é mais frequente entre pessoas do sexo masculino, e cujo risco é potencializado pelo envelhecimento e por hábitos pouco saudáveis, como fumar.

Principais causas de zumbido

Envelhecimento e audição

É comum que, em torno dos 60 anos, ocorra perda de audição, um problema conhecido como presbiacusia. Frequentemente, essa perda de audição é acompanhada de zumbido.

Exposição a barulho

A perda de audição por exposição a barulhos altos, como aparelhos de som potentes ou muito próximos ao ouvido e equipamentos como serras-elétricas, também pode levar ao zumbido.

Cera de ouvido

A cera de ouvido se forma naturalmente e serve para proteger o canal auditivo, capturando sujeira e assim desacelerando o desenvolvimento de bactérias. O acúmulo excessivo de cera de ouvido pode desencadear perda de audição, irritação no ouvido e eventualmente zumbido. É possível que, com o acúmulo, ruídos externos sejam abafados e ruídos internos se tornem mais perceptíveis.

Mudanças nos ossos do ouvido

Ossos do ouvido médio podem se tornar mais rígidos, afetar a audição e causar zumbido. Esse problema se chama osteoclerose e tem raízes genéticas.

Medicamentos

Medicamentos também podem gerar ou piorar o zumbido, mas frequentemente a percepção do barulho desaparece quando o tratamento é interrompido. Entre as drogas que têm esse potencial, incluem-se remédios contra o câncer, antibióticos, antidiuréticos e antidepressivos.

Zumbido pulsátil

Um fenômeno chamado de zumbido pulsátil ocorre quando pessoas ouvem batidas de coração em seus ouvidos. De acordo com a nota do site da Universidade de Harvard, ele é especialmente comum em pessoas idosas, à medida que as paredes de suas artérias podem ficar mais rígidas e a pulsação nelas, mais turbulenta. Esse tipo de zumbido também pode ser sinal de um tumor ou de danos aos vasos sanguíneos.

O que fazer para lidar com o problema

É comum que pessoas se acostumem com o zumbido, que pode se tornar menos perceptível ou incômodo com o tempo. Como o problema frequentemente não vai embora sozinho e é incurável, em muitos casos a única alternativa é aprender a conviver com ele.

É possível reduzir o impacto do zumbido sobre a saúde mental tratando de distúrbios como ansiedade, estresse, depressão ou insônia. A psicoterapia, por exemplo, pode ajudar.

Os pesquisadores de Harvard observaram que algumas pessoas apontam tratamentos a base de gingko biloba (uma planta medicinal japonesa) e acupuntura como remédios eficazes contra o zumbido. Os estudos científicos, no entanto, indicam que esses tratamentos não são mais eficazes do que placebo.

A nota aponta algumas terapias que podem ajudar, apesar de não terem sido aprovadas pela FDA, o órgão do governo americano responsável por medicamentos e tratamentos. Dentre elas, estão:

Terapia cognitivo-comportamental

Esse tipo de técnica não tem a pretensão de diminuir o zumbido, mas sim de mudar a relação do indivíduo com ele, de forma a torná-lo mais suportável.

A terapia envolve técnicas de relaxamento e de “reestruturação cognitiva”, que buscam levar o paciente a aprender a identificar pensamentos irracionais ou perturbadores. Para ajudar, é comum que pacientes mantenham um diário para registrar sua evolução.

Terapia de retreinamento do zumbido

Enquanto a terapia cognitivo-comportamental aplica um tratamento puramente psicológico para o zumbido, a terapia de retreinamento do zumbido foca em retreinar o sistema auditivo. “A meta é habituar o sistema auditivo aos sinais do zumbido, tornando-os menos perceptíveis ou incômodos”, afirmam os pesquisadores de Harvard.

Uma parte do tratamento é de terapia sonora. Um aparelho é inserido no ouvido e passa a gerar um ruído que esteja de acordo com o timbre, volume e tom do zumbido do paciente.

A outra consiste no aconselhamento do paciente, explicando o que acontece com seu sistema auditivo para tentar mudar sua percepção sobre o problema.

O criador da técnica é o pesquisador Pawell Jastreboff, do Departamento de Otorrinolaringologia da Escola de Medicina da Universidade de Atlanta.

Em um artigo publicado em 2015 na revista acadêmica HNO, ele justifica as duas frentes do retreinamento: enquanto a terapia sonora busca reduzir a força da atividade neuronal associada ao zumbido, o aconselhamento tem como objetivo ajudar o paciente a encarar o zumbido como um estímulo neutro.

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