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General Santos Cruz: o terceiro ministro de Bolsonaro a cair

Militar travava disputa interna no governo com seguidores do escritor Olavo de Carvalho, apontado como ideólogo do presidente

     

    Carlos Alberto dos Santos Cruz deixou o governo Jair Bolsonaro nesta quinta-feira (13). O general da reserva comandava a Secretaria de Governo, uma das pastas que funcionam dentro do Palácio do Planalto e assessoram diretamente o presidente da República. Em menos de seis meses no comando do país, Bolsonaro já demitiu três integrantes do primeiro escalão.

    As demissões de ministros

    Gustavo Bebianno

    Anunciado no início do governo como titular da Secretaria-Geral da Presidência, o ex-presidente do PSL foi demitido em fevereiro, em meio ao escândalo das candidaturas laranjas que atingiu o partido de Bolsonaro e a desentendimentos diretos com Carlos Bolsonaro, vereador do Rio de Janeiro e filho do presidente. Foi substituído pelo general da reserva Floriano Peixoto.

    Ricardo Vélez Rodríguez

    Anunciado no início do governo como titular do Ministério da Educação, o professor universitário foi demitido em abril, em meio a uma série de polêmicas e também a uma crise no MEC que opunha militares e seguidores do escritor Olavo de Carvalho, que havia sido responsável pela indicação de seu nome. Foi substituído pelo também olavista Abraham Weintraub.

    Carlos Alberto dos Santos Cruz

    Anunciado como titular da Secretaria de Governo, o general da reserva era alvo de Olavo de Carvalho e Carlos Bolsonaro. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, um integrante do Palácio do Planalto classificou a demissão como “um freio de arrumação”. Será substituído pelo general Luiz Eduardo Ramos Baptista Pereira, chefe do Comando Militar do Sudeste.

    O que é a Secretaria de Governo

    A Secretaria de Governo é uma das pastas que funcionam dentro do Palácio do Planalto e assessoram diretamente o presidente da República, Jair Bolsonaro. A proximidade com a Presidência e os poderes da pasta, que tem status de ministério, colocam seu titular numa posição central no governo.

    O órgão tem as atribuições de relações institucionais, ligadas à articulação política do governo no Congresso, além do diálogo com governadores, prefeitos, movimentos sociais e organizações da sociedade civil. Também tem sob sua alçada a Secretaria de Comunicação, responsável, por exemplo, pela relação com a imprensa, publicidade oficial e comunicação nas redes.

    Desde abril de 2019 o secretário de Comunicação é Fabio Wajngarten, publicitário apoiado por Carlos Bolsonaro e por Olavo de Carvalho. O agora ex-ministro e o secretário divergiam internamente sobre como a comunicação do governo deve ser feita. Segundo uma nota de bastidores publicada pela revista Época, a saída de Santos Cruz está relacionada a esses desentendimentos.

    A disputa de militares e olavistas

    Santos Cruz era um dos personagens do embate interno do governo travado entre militares e seguidores de Olavo de Carvalho, apontado como ideólogo do presidente.

    Os ministros ligados a Olavo, que privilegiam uma agenda moral, pautada no combate do que chamam de “marxismo cultural”, são Abraham Weintraub (segundo ministro da Educação na gestão) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores). A esse grupo se somam os filhos do presidente Carlos Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro, que é deputado federal.

    Carlos e Eduardo são usuários frequentes das redes sociais e costumam fazer críticas públicas à ala militar do governo e rebater ataques feitos por ela. Carlos é um dos principais responsáveis pelas contas pessoais do presidente nas redes.

    As duas alas se opuseram em episódios como: o controle do Ministério da Educação, a comunicação do governo, a crise na Venezuela, a possível mudança da embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém e a disputa pelo comando da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), instituição vinculada ao Ministério das Relações Exteriores.

    Olavo — que não ocupa nenhum cargo, mas possui influência na base de apoio de Bolsonaro — já publicou vários ataques aos militares do governo. O escritor e seus seguidores criticam principalmente o vice-presidente, general Hamilton Mourão, e Santos Cruz, afirmando que eles sabotam o governo por dentro.

    Por sua vez, a ala militar considera os olavistas radicais, com discursos que atrapalham o projeto de governo e geram ódio contra os próprios ministros militares e suas medidas. O segmento se vê como mais pragmático e menos ideológico. Santos Cruz já disse que Olavo “não tem importância nenhuma”. Publicamente, Bolsonaro minimiza o conflito e tem tomado ações que agradam aos dois lados.

    As investidas contra Santos Cruz

    Entre os ministros militares, Santos Cruz era o maior alvo de críticas da ala olavista. O principal motivo disso é seu poder sobre a área de comunicação governamental.

    Segundo olavistas, Santos Cruz não dava o devido valor às redes sociais e prejudicava a imagem do governo. Em mais de um episódio ele já tomou medidas que contrariaram a ala ideológica. Em abril, por exemplo, o ministro disse ao jornal O Estado de S. Paulo que o uso das redes na comunicação oficial precisa ser comedido para “não virar arma nas mãos dos grupos radicais”.

    Santos Cruz também reprovou o conteúdo e pediu diminuição de gastos no plano de campanha publicitária de Wajngarten sobre a reforma da Previdência que o governo está tentando aprovar no Congresso.

    O maior embate na área da comunicação envolveu o Banco do Brasil. Bolsonaro vetou em abril a veiculação de uma propaganda do banco público com atores jovens, negros e brancos, e uma pessoa transexual — vários deles tinham tatuagens e cabelo colorido. O presidente então determinou que todas as propagandas de estatais teriam que passar antes pelo crivo da Secretaria de Comunicação.

    Santos Cruz foi contra, dizendo publicamente que essa medida iria contra a Lei das Estatais. Pela legislação, o governo pode interferir nos anúncios institucionais das estatais, não nos que sejam mercadológicos, destinados a vender produtos e serviços. Bolsonaro então recuou sobre as propagandas.

    Santos Cruz foi alvo de montagem

    Santos Cruz disse ao jornal Folha de S.Paulo em 14 de maio ter sido alvo de uma montagem “criminosa” feita para prejudicá-lo. Trata-se da imagem de uma conversa de WhatsApp na qual ele seria um dos interlocutores e falaria mal de Bolsonaro. A autoria é desconhecida.

    Na imagem, o suposto Santos Cruz falava mal do presidente e dos filhos Carlos e Flávio Bolsonaro (senador pelo PSL, suspeito no caso das “rachadinhas” quando era deputado da Assembleia do Rio) e diz que a solução para o governo seria colocar Mourão no lugar de Bolsonaro. Segundo o agora ex-ministro, foi algo feito “para criar atrito” e que deve ser investigado pela Polícia Federal. Santos Cruz já reclamou para Bolsonaro ser alvo de montagens e conteúdos falsos.

    Mais poder para a secretaria

    No dia 15 de maio, um decreto presidencial modificou os poderes dos ministros sobre indicações de cargos públicos e favoreceu a Secretaria de Governo.

    Esse decreto passará a valer apenas em 25 de junho. Quando foi editado, a sinalização era de que Santos Cruz ganharia poder. Na verdade, é seu sucessor que ganhará. O novo ministro vai poder avalizar indicados a cargos como reitores de universidades federais, embaixadores, cônsules, secretários-executivos, cargos federais de confiança de alto nível, cargos do Banco Central e de agências reguladoras.

    O decreto também institui um sistema interno do governo para nomeações e consulta do currículo dos nomeados, que fica sob a alçada da Casa Civil, chefiada pelo ministro Onyx Lorenzoni.

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