O que é o Pisa para Escolas. E como o país começa a testá-lo

Governo de São Paulo decidiu que 300 escolas públicas do estado irão participar de avaliação internacional em 2019. Projeto-piloto de prova já foi realizado com 46 colégios brasileiros em 2017

 

O governo do estado de São Paulo decidiu que 300 colégios públicos paulistas irão realizar em 2019 o Pisa para Escolas. A participação de instituições particulares também será permitida e vai depender do interesse de cada uma das entidades, já que a prova é voluntária.

O Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) é um exame que avalia sistemas de ensino ao redor do mundo, dando notas para um país. A diferença do Pisa para Escolas é que ele trará dados de cada unidade de ensino.

Os resultados da avaliação vão permitir que os colégios brasileiros possam ser comparados com a média brasileira, a de outros países e a de outras escolas, em áreas como matemática, ciências e leitura.

O exame usa métricas definidas pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) desde 2000. Ele é aplicado a cada três anos em 80 países, entre os quais o Brasil — o mais recente foi em 2018 e o próximo será em 2021. O Pisa nas Escolas em São Paulo, portanto, será realizado entre esses dois exames.

5.667

é o número de escolas estaduais em São Paulo, que possui a maior rede de ensino do Brasil, segundo o Censo da Educação de 2018

3,5 milhões

de alunos estão matriculados em escolas do estado de São Paulo, segundo dados da Secretaria da Educação

A prova será aplicada pela Fundação Cesgranrio no Brasil em data ainda não divulgada. Ela vai avaliar alunos de 15 anos do primeiro ano do ensino médio.

Segundo o Censo da Educação de 2018, São Paulo tinha naquele ano 417.626 estudantes matriculados nessa etapa de ensino em colégios estaduais. A escolha das escolas participantes ainda está sendo estudada, segundo o secretário estadual de Educação, Rossieli Soares, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo.

“Não temos expectativa nem para uma nota acima nem abaixo da brasileira, mas sim aprender a usar o resultado. Vamos participar para fazer uma apreciação e ter uma referência efetiva de onde estamos”, afirmou o secretário, ao jornal.

R$ 2 milhões

é o custo estimado para as escolas estaduais paulistas participarem da avaliação, já que sua adesão é paga

Sua aplicação é defendida por especialistas, por ser uma avaliação diferente das que já são feitas no país pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), ligado ao Ministério da Educação. Ao jornal O Estado de S. Paulo Maria Helena Guimarães de Castro, que coordena a conferência sobre o Pisa no Brasil, diz que o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), por exemplo, está muito mais próximo do que se exige em vestibulares.

“O Pisa for Schools [Pisa nas Escolas] é a avaliação mais próxima que temos da Base Nacional Comum Curricular”, disse ela ao jornal. A base do ensino médio, homologada pelo MEC no final de 2018, orienta o que as escolas públicas e particulares devem ensinar a alunos de 15 a 17 anos.

Os critérios do Pisa nas Escolas

A prova traz questões de matemática, ciências e leitura e também um questionário contextual. Os alunos têm cerca de duas horas para responder as perguntas e 30 minutos para o questionário. A aplicação é feita por organizações credenciadas pela OCDE. A organização presta supervisão técnica e recebe os relatórios finais.

É exigido um mínimo de 35 alunos a serem avaliados e uma taxa de participação de ao menos 80% do total de alunos de 15 anos de idade das escolas com mais de 85 alunos.

Diretores também são obrigados a preencher um questionário com informações sobre a escola. Eles recebem depois um relatório abrangente sobre o desempenho da unidade de ensino.

O Brasil no Pisa geral

O país participa do Pisa desde sua primeira edição, em 2000, mas ainda não aderiu ao Pisa para Escolas. Será a primeira vez que o país realizará oficialmente a prova para avaliar as unidades. Em 2017, foi feito apenas um projeto-piloto financiado pela Fundação Lemann, organização criada em 2002 pelo empresário Jorge Paulo Lemann para desenvolver projetos em educação no país.

O Pisa mais recente, de maio de 2018, só terá os resultados apresentados no final de 2019. Foram avaliados cerca de 13 mil alunos naquele ano. Historicamente, os resultados do país sempre foram considerados desanimadores.

No Pisa de 2015, o Brasil teve uma queda de pontuação nas três áreas avaliadas e caiu no ranking mundial. Naquele ano, ocupava a 63ª posição em ciências, a 59ª em leitura e a 66ª em matemática entre 70 países avaliados.

Na época em que os dados foram divulgados, em 2016, o então ministro da Educação do governo Michel Temer, Mendonça Filho, classificou os resultados como “uma tragédia”. “Confirma exatamente o diagnóstico que fizemos, desde o início da nossa gestão, de que, apesar de termos multiplicado por três o orçamento do Ministério da Educação, em termos reais, o desempenho ficou estagnado ou até retrocedeu, como é o caso específico de matemática”, afirmou, na época.

O projeto-piloto de 2017

A Fundação Lemann decidiu realizar naquele ano um piloto da prova com 46 escolas brasileiras, sendo 33 públicas e 13 particulares. A conclusão foi que as escolas que tinham se saído bem no Enem também foram as que se destacaram no Pisa. Para a fundação, portanto, a nota do Enem pode ser um bom indicador dos resultados do Pisa.

Os resultados

Leitura

Entre as três habilidades avaliadas (ao lado de matemática e ciência), foi a que os alunos brasileiros se saíram melhor. Dez escolas ficaram acima da média da OCDE, sendo que quatro delas atendiam alunos de baixa renda, com características semelhantes à média socioeconômica brasileira. Ao todo, 15 ficaram acima da média do Chile, melhor país sul-americano no Pisa de 2015 (mas que possui média inferior à da OCDE). A análise feita pela fundação foi que, com exceção de uma única escola, todas obtiveram resultados acima do esperado.

Ciências

Apenas uma ficou abaixo do que se esperava, a exemplo do que ocorreu em leitura, mas as escolas com alunos de baixa renda não conseguiram bons resultados. Apenas oito escolas públicas ficaram acima da média da OCDE e 16 delas superaram a média do Chile. Entre as que atendem alunos de baixo nível socioeconômico, apenas duas bateram a média da OCDE.

Matemática

Seis escolas públicas superaram a média da OCDE (nenhuma dela atendida alunos de baixa renda), e 14 ficaram acima da média do Chile. Cinco escolas não conseguiram alcançar o que era esperado para o nível socioeconômico dos alunos. Foi a área com pior avaliação.

Uma análise sobre o tema

O Nexo fez duas perguntas sobre o Pisa para Escolas para Camila Pereira, diretora de educação da Fundação Lemann.

Qual a importância das escolas brasileiras participarem do Pisa para Escolas?

CAMILA PEREIRA A Base Nacional Curricular Comum deixará de focar o aprendizado apenas em conteúdo para desenvolver processos cognitivos mais complexos nos alunos como a resolução de problemas, pensamento crítico e investigação científica. O Pisa é uma avaliação que já mede esse tipo de habilidade, além de ser uma referência internacional. Também é uma oportunidade para as escolas entenderem como estão no panorama internacional da educação, uma vez que é aplicada em diversos países do mundo, medindo os mesmos parâmetros de aprendizado.

De que forma os resultados podem ser usados pelos estados?

CAMILA PEREIRA Avaliações são muito importantes para desenvolver políticas educacionais efetivas. Estamos felizes de ter viabilizado o piloto dessa avaliação no Brasil, em 2017, que possibilitou a tradução dos itens e a adaptação das questões para o contexto brasileiro. Agora, vários estados irão poder ter acesso à avaliação e saber como estão, não só nacionalmente, mas também no contexto global. Além disso, a OCDE está organizando uma comunidade de boas práticas entre os  participantes do Pisa e o Brasil terá oportunidade de participar dessa troca também.

 

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