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Quem são as ativistas trans que vão virar monumento em NY

Segundo relatos, as militantes trans Marsha P. Johnson (1945-1992) e Sylvia Rivera (1951-2002) estiveram na Revolta de Stonewall. Elas receberão monumentos em sua homenagem

 

No início de junho de 2019, a prefeitura de Nova York anunciou que duas ativistas trans serão lembradas em um monumento na cidade.

Elas são Marsha P. Johnson (1945-1992) e Sylvia Rivera (1951-2002). Ambas militavam pela causa LGBTI e pela população afetada pelo HIV, e hoje são encaradas como importantes militantes trans, em um contexto em que o movimento LGBTI tem buscado reconhecer o protagonismo de ativistas não cisgênero (que têm o gênero de acordo com o sexo biológico).

De acordo com o anúncio do município, trata-se do primeiro monumento do mundo a homenagear pessoas transgênero, ou seja, que têm identidade de gênero diferente daquela que lhes foi atribuída ao nascer.

Há relatos de que ambas participaram de uma revolta de 1969 da comunidade LGBTI, após uma ação policial no bar Stonewall Inn. O episódio é um marco internacional e ficou conhecido como a Revolta de Stonewall.

O monumento será erguido no Ruth Wittenberg Triangle, um espaço público que fica próximo ao bar, que funciona até hoje na rua Christopher Street, no bairro de Greenwich Village.

O formato do monumento ainda não foi definido, mas ele deverá ser financiado com US$ 750 mil, oriundos de um edital aberto para artistas no valor de US$ 10 milhões. A previsão é que fique pronto em 2021.

O que foi a Revolta de Stonewall

Na década de 1960, o Stonewall Inn era um bar de Nova York controlado pela máfia, que servia como uma espécie de refúgio boêmio para marginalizados. Entre eles, homens afeminados, trans, lésbicas masculinizadas, prostitutas e moradores de rua.

Na época, vigorava uma lei na cidade que proibia o encorajamento a relações homossexuais, e era comum que policiais fizessem incursões agressivas em bares como o Stonewall. Uma ação policial do dia 28 de junho de 1969 no Stonewall Inn foi, no entanto, diferente.

Nove policiais entraram no local e prenderam funcionários que estavam vendendo álcool sem licença, agrediram clientes e esvaziaram o bar.

Eles aplicaram uma legislação da cidade que permitia a prisão de quaisquer pessoas que não estivessem utilizando ao menos três peças de roupa de acordo com seu gênero, e detiveram vários dos frequentadores.

Era a terceira ação do tipo em um curto período de tempo na região. Dessa vez, no entanto, pessoas do lado de fora do bar começaram a vaiar e gritar enquanto os clientes eram conduzidos para o camburão de polícia.

Garrafas e pedras foram atiradas contra os policiais, que se abrigaram dentro do próprio Stonewall, montaram uma barricada e pediram reforços, enquanto cerca de 400 pessoas se revoltavam do lado de fora.

A barricada foi rompida, e os revoltosos atearam fogo ao bar. Os reforços chegaram a tempo de apagar as chamas antes que o bar fosse completamente incendiado. A multidão se dispersou naquele dia, mas agitações do lado de fora do bar continuaram por cinco outros dias.

O evento se tornou conhecido como a Revolta de Stonewall, um marco na luta pelos direitos de lésbicas, gays, bissexuais e trans. As primeiras paradas do orgulho gay foram promovidas no ano seguinte. Não só nos Estados Unidos, mas em outras partes do mundo, a revolta é lembrada anualmente.

Mas a lei novaiorquina contra o uso de roupas que não se conformassem com o sexo caiu apenas em 2011. E a polícia da cidade admitiu apenas em 6 de maio de 2019 que a ação não era justificável.

No Brasil, um evento com contornos bem menos violentos, o “Levante ao Ferro’s Bar”, é frequentemente comparado a Stonewall.

No dia 19 de agosto de 1983, participantes do Galf (Grupo de Ação Lésbica-Feminista, fundado em 1981), um grupo de lésbicas que distribuía o boletim político Chanacomchana no centro de São Paulo, foi barrado no Ferro’s Bar, frequentado por essa população no centro da cidade.

Com apoio de outras feministas e de gays, as militantes driblaram o porteiro do Ferro’s, fizeram um ato político e conseguiram reverter a proibição.

Quem foi Marsha P Johnson

De acordo com um obituário do jornal americano The New York Times, Johnson nasceu em 1945, em uma família pobre que contava com sete filhos. Seu pai, Malcolm Michaels, trabalhava na fábrica da General Motors na cidade de Linden, e sua mãe era dona de casa.

Desde criança, foi criada como cristã, religião que manteve durante toda a sua vida.

Johnson nasceu com o sexo masculino, e recebeu o nome de Malcolm. Mas, desde a infância, ela começou a usar vestidos, o que fez com que se tornasse alvo de agressões. Após se formar no colégio, mudou-se para Nova York, onde passou a alternar entre os nomes Malcolm e Marsha.

Johnson é apontada como uma participante da Revolta de Stonewall, e se destacou pela sua atuação política posterior. Em 1970, fundou um grupo chamado Star (Street Transvestite Action Revolutionaries), que manteve um abrigo para travestis chamado Star House em Nova York, o primeiro abrigo para jovens LGBTI da América do Norte, a primeira organização para trabalhadoras do sexo, e a primeira organização comandada por mulheres trans negras dos Estados Unidos.

Em 1992, seu corpo foi encontrado no Rio Hudson. De pronto, a polícia classificou sua morte como um suicídio. Pessoas próximas questionaram, no entanto, essa interpretação. E, no mesmo ano, as autoridades reclassificaram o caso como um afogamento por causas indeterminadas. Em 2012, o caso foi reaberto.

Mais recentemente, a história de Marsha vem sendo resgatada, em um contexto em que há um esforço maior por reconhecer o papel de pessoas trans e não brancas no movimento LGBTI. Disponibilizado na plataforma Netflix, o documentário “A Vida e a Morte de Marsha P. Johnson”, lançado em 2017, relata os esforços da ativista Victoria Cruz de investigar as causas obscuras da morte de Marsha.

Quem foi Sylvia Rivera

Sylvia Rivera nasceu em 1951 em Nova York, filha de um pai portorriquenho e uma mãe venezuelana no bairro do Bronx. De acordo com um perfil do site da rede ABC, o padrasto de Rivera ameaçou matá-la quando ela tinha três anos, junto de sua mãe. Pouco tempo depois, a mãe de Rivera se matou.

Seu pai a abandonou quando criança, fazendo com que sua avó assumisse sua guarda. Rivera começou a se vestir como garota, algo que a avó desaprovava.

A jovem abandonou sua casa aos 11 anos, e começou a se prostituir nas ruas de Nova York, uma das poucas atividades que lhe restavam devido a sua performance de gênero.

Ela foi adotada informalmente por drag queens da área em que atuava, e conviveu com vícios durante grande parte de sua vida.

Sylvia se engajou no movimento LGBTI após a Revolta de Stonewall, da qual participou, e fundou, junto a Marsha P. Johnson, a Star e seu abrigo para jovens LGBTI. Ela acompanhou o movimento LGBTI, e passou a ser uma importante figura dos frequentes protestos que o marcaram. Ela morreu em 2002 de câncer de fígado, aos 50 anos.

 

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