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Por que o Mali vive uma sequência de massacres

As chacinas tiveram início em 2013, quando a luta internacional contra o terrorismo agravou as disputas entre comunidades locais

 

Pelo menos 95 pessoas foram mortas na madrugada desta segunda-feira (10) em um vilarejo da região central do Mali. Sobame Da, na região de Mopti, fica a 50 km da fronteira com Burkina Faso.

De acordo com o prefeito, Ali Dolo, os moradores do pequeno vilarejo foram “queimados vivos dentro de suas casas”. Muitos dos que tentaram escapar “foram abatidos, incluindo mulheres, idosos e crianças, sem distinção”. As autoridades locais dizem desconhecer o paradeiro de aproximadamente outras 200 pessoas que viviam no local.

 

Dois meses antes do massacre, o presidente malinês, Ibrahim Boubacar Keïta, havia anunciado o envio de um efetivo de 50 militares para a região de Mopti. As tropas de paz das Nações Unidas, presentes na região desde 2013, também haviam reforçado as patrulhas no mesmo local. Mas nenhuma das duas medidas foi suficiente para impedir a matança em Sobame Da.

A tragédia evidencia uma espiral de ataques e revides que foge ao controle das autoridades e que tem origem numa mistura de violência étnica, racismo e estratégias desastrosas de combate ao terrorismo, na avaliação de analistas.

Massacres e revides

O massacre desta segunda (10) ocorreu três meses depois de outro crime semelhante na região central do Mali. Em 23 de março, 162 pessoas haviam sido assassinadas no vilarejo de Ogossagou. À época, o então primeiro-ministro, Soumeylou Boubèye Maïga, renunciou.

Os dois massacres fazem parte de um conflito étnico que se desenrola na região. Os mortos de março pertenciam ao grupo étnico dos peuls. Os mortos desta segunda-feira eram dogons.

Duas comunidades

Dogon

Comunidades de agricultores que vivem nas falésias e planícies do centro do Mali. Ligados a crenças animistas. Vítimas do massacre desta segunda-feira em Sobame Da.

Peuls

Pastores nômades que transitam pelo delta do rio Niger. Também conhecidos como Foulani, Fulani ou Fellata. Ligados majoritariamente ao Islã. Vítimas do massacre de março em Ogossagou.

As duas comunidades viveram em harmonia por séculos, pois uma dependia dos bens produzidos pela outra. Entretanto, uma onda de secas nos anos 1970 e 1980 agravou a disputa por recursos.

À época, o plano governamental de ajuda aos agricultores favoreceu os dogons, que produziam assentados sobre a terra. Essa condição reforçou o discurso dogon de propriedade sobre a terra, e de expulsão dos peuls.

Mesmo com episódios isolados de disputa, a paz prevaleceu entre as duas comunidades. Mas esse cenário mudou radicalmente a partir de 2013, com a entrada de um novo elemento em cena: o terrorismo internacional.

“Esse drama nos faz lembrar que, infelizmente, nessa espiral de violência, não há malvados de um lado e mocinhos de outro. Todos são responsáveis”

Mahamat Saleh Annadif

chefe da Minusma (Missão das Nações Unidas no Mali, na sigla em francês)

Na mesma segunda-feira (10) em que ocorreu o massacre de Sobame Da, milicianos da etnia dogon – dos agricultores, que foi vítima deste crime mais recente – disseram ter entendido a ação como uma “declaração de guerra”, e prometeram revidar contra os peuls, nômades ligados ao pastoreio e ao islã.

“Está claro que nem o Estado nem a comunidade internacional tem interesse na vida dos que foram massacrados”, disse o grupo de milicianos, conhecido como Dan Na Ambassagou (Caçadores que Confiam em Deus) – grupo conhecido por mutilar cabeças, mãos e órgãos genitais de suas vítimas.

Do jihadismo à violência comunitária

Foto: Adama Diarra/Reuters - 20.06.2012
Ansar_Dine
Combatente do grupo radical Ansar Dine em Gao, no Mali
 

Os Caçadores que Confiam em Deus (Dan Na Ambassagou), da etnia dogon, foram tratados com condescendência pelas autoridades locais por muito tempo, de acordo com o analista malinense Dougoukolo Alpha Oumar Ba-Konaré, pesquisador do Inalco (Instituto de Línguas e Civilizações Orientais, da França).

Os membros desse grupo armado possuem muitas vezes armas modernas e frequentemente circulam na companhia das forças regulares do governo do Mali.

Nos últimos anos, a milícia dogon foi vista como um mal menor no combate a uma ameaça que era tida pelo Ocidente como muito maior: o jihadismo, que é o nome dado aos extremistas que fazem uso dos ataques terroristas para impor uma doutrina religiosa – neste caso, uma interpretação radicalizada do Islã – ao mundo todo.

Em 2013, quando tropas estrangeiras foram enviadas à região, o risco de conflitos étnicos entre peuls e dogons parecia insignificante quando comparado ao crescimento do jihadismo na região. O temor de países como a França – antiga potência colonial do Mali – era de que o país se convertesse em novo celeiro para novos grupos extremistas, sendo um dos principais o Ansar Dine (Defensores da Fé), que não tem ligação formal seja com peuls ou com dogons.

Ba-Konaré considera que essa condescendência do governo do Mali e de seus aliados europeus com os milicianos dogons tornou difícil voltar atrás, agora, na espiral de violência generalizada.

O jihadismo não é uma questão de primeira ordem para os grupos comunitários que disputam acesso a rotas e recursos naturais na região central do Mali. Entretanto, a luta contra o jihadismo, impulsionada pela ação militar de países estrangeiros, ajudou a potencializar os conflitos étnicos locais.

Como o povo peul é em sua maioria islâmico, a ação armada das milícias dogons assumiu um caráter racista. O argumento do combate ao jihadismo de grupos como o Ansar Dine – que não têm ligação formal com os peuls – foi extrapolado para uma campanha de deslocamento forçado, alimentando ações de revide entre as duas etnias.

“Os jihadistas semearam a desconfiança entre vizinhos. Os racistas encorajaram a paranoia entre esses mesmos vizinhos. Uma vez queimada a terra, destruídos os seres, o que resta pertence a esses dois abutres”, diz Dougoukolo Alpha Oumar Ba-Konaré, em referência a peuls e dogons.

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