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Como o futebol feminino ganha mais atenção de torcedores

Copa do Mundo de futebol de 2019 tem cobertura midiática e interesse do público maiores em relação a eventos passados

 

Iniciada em 7 de junho de 2019, a 8ª Copa do Mundo de futebol feminino, realizada na França, já alcança níveis inéditos de popularidade e de visibilidade

No domingo (9), a seleção brasileira fez sua estreia, vencendo a seleção da Jamaica por 3 a 0, com gols marcados pela atacante Cristiane. Foi a primeira vez que as jogadoras entraram em campo em um uniforme com identidade própria, que não imitasse o traje da seleção masculina.

Também é a primeira vez que todas as partidas disputadas pela seleção brasileira no mundial feminino são transmitidas ao vivo na TV aberta pela Rede Globo. A Band, que exibe atualmente o Campeonato Brasileiro de futebol feminino, também transmite o torneio sediado na França, assim como o canal a cabo SporTV.

Números preliminares mostram que a primeira partida disputada pela seleção brasileira apresentou uma audiência superior à que é normalmente registrada pela Globo nesse dia e horário.

Esse aumento da atenção dada à modalidade praticada pelas mulheres vinha sendo longamente reivindicado e almejado pelas jogadoras.

“Eu sonhava e continuo sonhando com essa visibilidade toda. Ver essa quantidade de jornalista é de espantar”, disse a jogadora Formiga, da seleção brasileira, ao jornal O Globo, sobre a presença mais intensa de jornalistas que acompanham o time.

A música “Jogadeira”, cantada pelas brasileiras no ônibus da seleção a caminho da cidade de Grenoble, na França, onde ocorreu a estreia do time, ganhou as redes sociais. “Qual é, qual é, futebol não é pra mulher? Eu vou mostrar pra você, mané, joga a bola no meu pé”, diz o “hino do futebol feminino”, criado por Cacau, que atua no Corinthians, e Gabriela Kivitz, ex-jogadora e atual comunicóloga.

 
“Isso não é mais só sobre o futebol feminino. Isso é sobre as mulheres deixarem uma marca. Nós contamos com o apoio de vocês para mudar a mentalidade, para que no futuro o futebol feminino seja simplesmente conhecido como futebol”

Fatma Samoura

secretária-geral da Fifa

A popularidade em números

Audiência televisiva

A partida de abertura da Copa, entre França e Coreia do Sul, alcançou 9,83 milhões de espectadores no país-sede. Trata-se da maior audiência de televisão já registrada para uma partida da seleção feminina da França, segundo a agência de notícias Reuters.

No Brasil, a disputa entre Brasil e Jamaica, transmitida a partir das 10h30 no domingo, registrou na Rede Globo média de 18,5 pontos de audiência, com pico de 21 pontos, segundo dados prévios do Ibope. A emissora costuma marcar cerca de 10 pontos com a programação normal no mesmo horário.

Cada ponto de audiência representa, em 2019, 254.892 domicílios ou 693.788 pessoas.

“Muita gente só está descobrindo agora que existe uma Copa feminina. A exposição em televisão aberta é um ponto de virada importante. Contribui para mudar a visão das empresas sobre a modalidade”

Juliana Cabral

ex-zagueira e capitã do Brasil no Mundial de 2003

Outra novidade do mundial feminino de 2019 é a quantidade mais expressiva de pessoas que estão se reunindo para assistir aos jogos, em bares ou no trabalho, prática antes quase exclusivamente associada às partidas masculinas no país.

Há, inclusive, uma coordenação por trás desse fenômeno. Segundo uma reportagem do jornal O Globo, eventos de transmissão de jogos em parceria com bares de 21 cidades brasileiras foram organizados pelo coletivo Peita, autor da campanha “Jogue como uma garota”.

Em São Paulo, faz parte da campanha o bar Das, na Vila Buarque, no centro da cidade, que ficou lotado. A demanda foi inesperada para as sócias do bar, que estimam que cerca de 150 pessoas tenham passado pelo pequeno estabelecimento durante a partida.

A partir do anúncio feito pelo Grupo Boticário em 8 de março de 2019 – de que adotaria horários flexíveis durante a Copa do Mundo de futebol feminino, liberando funcionários para assistir aos jogos do Brasil – outras empresas também aderiram ao esquema que costumava vigorar apenas durante o mundial masculino.

Ingressos vendidos

Segundo o site da BBC britânica, 950 mil ingressos já foram vendidos para o mundial de 2019. As entradas para a abertura, para as semifinais e para a final esgotaram em 48 horas. Dos 52 jogos previstos no torneio, 20 estão com ingressos esgotados.

O recorde de ingressos vendidos foi batido em abril de 2019.  Em suas projeções, a Fifa (Federação Internacional de Futebol), que organiza a Copa, espera obter audiência de 1 bilhão de pessoas em 135 países.

Em 2018, o mundial masculino da Rússia teve audiência recorde, superior a 3,5 bilhões de pessoas.

De onde vem o interesse

Na Olimpíada de 2016, realizada no no Rio de Janeiro, a seleção feminina brasileira de futebol chegou à semifinal, na qual foi derrotada pela Suécia.

Os seis jogos disputados pela seleção feminina foram transmitidos pela Rede Globo e alcançaram 111 milhões de espectadores.

Derrotada pelo Canadá na briga final pelo bronze olímpico, a seleção deixou a Arena Corinthians, em São Paulo, sob aplausos em agosto de 2016.

“Fiquei assustado e impressionado, porque, embora a gente não tivesse conquistado a medalha de ouro, tínhamos conquistado o coração do povo brasileiro, sejam homens ou mulheres. Foi um ponto importantíssimo dessa Olimpíada”, disse o técnico Vadão na entrevista coletiva após a partida.

Após a partida contra o Canadá em 2016, Marta, já eleita melhor jogadora do mundo seis vezes, também declarou que a seleção saía do evento com saldo positivo em apoio, reconhecimento e visibilidade.

Na Copa do Mundo de futebol feminino de 2015, os nomes das convocadas foram divulgados apenas por meio de uma lista repassada à imprensa. Já em 2019, pela primeira vez na história do futebol feminino brasileiro, a convocação para a Copa do Mundo foi feita em um evento, que reuniu jornalistas e foi o pontapé inicial para a repercussão.

A população também passou a consumir mais futebol feminino. Segundo uma pesquisa divulgada em 7 de junho de 2019 pela empresa Kantar Ibope Media, desde 2015, ano da mais recente Copa das mulheres, houve aumento de 51% no tempo médio consumido pela população em geral para as transmissões de jogos de futebol feminino.

Para a jornalista esportiva Milly Lacombe, o aumento recente do interesse pelas mulheres no futebol tem a ver também com o feminismo. “A nova onda feminista, que começou sua ventania em 2015, não vai deixar nada em seu lugar e já está causando reviravoltas também no futebol feminino”, escreveu Lacombe para a revista Marie Claire.

A premiação oferecida para a seleção vencedora do mundial de 2019 aumentou de US$ 2 milhões para US$ 4 milhões, mas ainda é muito inferior em relação à competição masculina – a seleção francesa, campeã em 2018, recebeu US$ 38 milhões.

De 2015 para 2019, a Fifa aumentou o prêmio total da Copa do Mundo de futebol feminino, a soma do que é oferecido às 24 seleções participantes, de US$ 15 milhões para US$ 30 milhões. Na Copa de futebol masculino, em 2018, a premiação total para as 32 seleções foi de US$ 791 milhões.

Quais são as dificuldades

No Brasil, o futebol feminino chegou a ser proibido para as mulheres até a década de 1970. Assinado pelo presidente então Getúlio Vargas, o Decreto-Lei 3.199, de 1941, trazia no artigo 54: “às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza".

O futebol estava entre os esportes proibidos às mulheres por essa lei, revogada somente em 1979.

Após a queda da proibição, o futebol feminino profissional no Brasil passou a existir, enfrentando, porém, dificuldades: o baixo interesse das emissoras de televisão, de marcas e do público, além de investimentos escassos. Com isso, falta estrutura – campeonatos, clubes, profissionais e salários.

Em 2017, a Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) divulgou uma decisão segundo a qual todas as equipes brasileiras masculinas serão obrigadas a ter uma equipe feminina, ou poderão ser impedidas de participar da Copa Sul-Americana e da Libertadores.

Válida a partir de 2019, a decisão faz parte do programa de licenciamento de clubes da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), que também exige que cada equipe de futebol feminino tenha uma estrutura consolidada e uma equipe juvenil de base em formação.

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