Qual a chance de uma moeda única entre Brasil e Argentina

Bolsonaro mencionou ideia em visita a Buenos Aires. Governos dos dois países não deram detalhes sobre o ‘peso real’. Paulo Guedes diz que é um plano de longo prazo

Jair Bolsonaro fez sua primeira visita oficial à Argentina na quinta-feira (6). Na capital Buenos Aires, entre outros compromissos, ele teve reuniões com o presidente Mauricio Macri, com parlamentares argentinos e com empresários.

No encontro com o setor privado, Bolsonaro mencionou a ideia de criar uma moeda comum entre o Brasil e a Argentina chamada peso real. Segundo o presidente brasileiro, a ideia foi do ministro da Economia, Paulo Guedes, que tem conversado com o governo argentino sobre esse tema desde abril de 2019.

Economistas, políticos e jornalistas buscaram saber mais detalhes para o anúncio súbito, que é uma sinalização dos dois países para possíveis mudanças profundas no futuro. Ambos os governos afirmaram que não há prazos concretos são diálogos iniciais, sem detalhes.

O Banco Central do Brasil, que atualmente tem status de ministério e lida, entre outras coisas, com a política monetária, comunicou em nota ainda na quinta-feira (6) que não está realizando nenhum estudo para a implantação de uma moeda única.

Na manhã de sexta-feira (7), logo antes de embarcar de volta ao Brasil, Bolsonaro, questionado por repórteres, disse que a proposta ainda é um passo inicial para “um sonho” de uma moeda única no Mercosul (Mercado Comum do Sul) — bloco que reúne hoje como membros efetivos Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.

“Uma nova moeda é como um casamento. Você ganha de um lado e perde de outro. Você às vezes quer ver o jogo do Botafogo e não consegue porque sua esposa quer ir ao shopping. Mas, como num casamento, a gente mais ganha do que perde. Temos mais a ganhar do que perder. Com uma moeda única damos uma trava às aventuras socialistas que acontecem em alguns países da América do Sul”

Jair Bolsonaro

presidente da República, em fala a jornalistas nesta sexta (7)

Guedes falou em “somente uma especulação” e “algo que poderia acontecer daqui a 20 anos”. O vice-presidente Hamilton Mourão se referiu como uma ideia “embrionária” que representa um “baita avanço”.

As duas moedas

Real

Foi instituído em 1994. Cada dólar vale R$ 3,88, segundo cotação desta sexta (7).

Peso

Foi instituído em 1992. Cada dólar vale 45,90 pesos, segundo cotação desta sexta (7).

O debate sobre uma moeda única no Mercosul

A proposta de todos os países do Mercosul compartilharem a mesma moeda existe desde a fundação do bloco, em 1991. Nunca, porém, houve um plano concreto que desse andamento de fato a essa ideia.

Desde que o Mercosul foi criado, o Brasil e especialmente a Argentina, as duas maiores economias da região, passaram por grandes crises econômicas, incluindo desvalorização da moeda.

Em geral, uma moeda única forte requer uma autoridade monetária comum para gerir a política dos países envolvidos. O euro, maior exemplo de moeda única no mundo e usado em 19 países, tem como instituição responsável o Banco Central Europeu, com sede na Alemanha. Outras moedas únicas formalizadas são o franco CFA, em 14 países da África, e o dólar do Caribe Oriental, compartilhado entre oito nações.

Também existem casos de moeda comum sem formalização. Por exemplo, quando países vizinhos aceitam mutuamente a moeda um do outro em compras e transações no dia a dia, sem uma autoridade monetária comum, ou um país adota unilateralmente uma moeda estrangeira — é o caso do Equador, que usa dólares.

O contexto e a viabilidade da moeda única

Macri governa a Argentina desde 2015 e vai tentar ganhar mais um mandato nas eleições de outubro de 2019. Ele implementa uma política econômica liberal. Diferentemente de Bolsonaro, Macri defende e prestigia explicitamente órgãos multilaterais como o Mercosul.

A Argentina enfrenta uma crise na economia — como queda do Produto Interno Bruto em 2018, desvalorização da moeda, aumento da pobreza e congelamento de preços. Macri atribui grande parte da responsabilidade por esses índices ao governo da sua antecessora, a opositora Cristina Kirchner (2007-2015), de centro-esquerda.

Na passagem por Buenos Aires, Bolsonaro se referiu às eleições no país vizinho. Disse que os argentinos precisam votar “com muita razão e menos emoção”, uma referência de apoio a Macri e crítica a Cristina, que deverá ser candidata a vice-presidente na chapa de Alberto Fernández, maiores obstáculos para a reeleição do atual mandatário.

A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas de China e Estados Unidos. O ministro Paulo Guedes sugeriu que os argentinos seriam os mais interessados e beneficiados na unificação monetária. Bolsonaro negou que o anúncio tenha sido para beneficiar o aliado Macri, meses antes da eleição.

Ao Nexo o cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, avaliou que a posição tem sim o objetivo de tentar impulsionar o presidente argentino.

“Experiências de unificação monetária que existiram no mundo foram consequência de projetos políticos mais ambiciosos, processos muito mais amplos em que os países precisaram, em determinado momento, aproximar os pilares econômicos para aprofundar essa aproximação. Esse não é o caso entre Brasil, Argentina e Mercosul hoje”, disse Cortez.

Para o cientista político, nenhuma análise econômica recomenda, para o momento atual, a ideia do peso real, e uma moeda única iria na contramão do que os governo Bolsonaro e Macri vêm apresentando até o momento, tanto na economia como na política.

Para concretizar uma ideia de moeda única, seriam necessários anos de trabalho conjunto e próximo entre as equipes econômicas do Brasil e da Argentina. Os dois países, que estão passando por dificuldades distintas para retomar o crescimento econômico, teriam que implementar juntos políticas fiscais, de emprego e de preços e macroeconômica.

A maioria dos economistas brasileiros e argentinos consideram que uma moeda comum para o Mercosul estaria muito distante da atualidade.

Também seria necessário aprovar a mudança no Congresso dos dois países. Nesta sexta (7), o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), se posicionou contra o anúncio do peso real.

Caso haja a intenção de expandir para todo o Mercosul, haveria ainda mais etapas, nos planos político e econômico, no Paraguai e Uruguai.

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