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Qual a importância do Dia D para o fim da 2ª Guerra Mundial

Desembarque das forças aliadas nas praias francesas da Normandia completa 75 anos em 2019

 

 

O desembarque das tropas aliadas na Normandia, na França ocupada, no episódio que ficou conhecido como Dia D completa nesta quinta-feira (6) seu 75º aniversário. No dia 6 de junho de 1944, a megaoperação militar na costa francesa deu início a uma ofensiva que marcou a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

 

Mapa_Normandia
 

 

Quem era quem na guerra

ALIADOS

As principais potências do grupo eram Reino Unido, França, União Soviética e EUA. Outros países participavam do bloco, incluindo o Brasil.

 

EIXO

As principais potências do grupo eram Alemanha, Itália e Japão. Outros países participavam do bloco, como a Hungria.

 

O Dia D ocorreu num momento decisivo da guerra, no qual os alemães se viam obrigados a conter ofensivas dos Aliados em mais de uma frente. A data é mais importante hoje para os EUA e seus aliados europeus do que para a Rússia, que celebra outras datas significativas, como a da Batalha de Stalingrado (1942-1943).

Para tornar o Dia D possível, os Aliados desenvolveram vários planos de inteligência para confundir os alemães. Esses planos consistiam em fazer com que os nazistas acreditassem que o desembarque ocorreria em local e data diferentes do que de fato aconteceu.

Transmissões de rádio foram expostas deliberadamente à interceptação alemã. Nelas, os militares aliados trocavam informações falsas sobre planos fictícios.

Alguns grupos de paraquedistas chegaram a ser lançados em locais distantes para fazer com que os inimigos do Eixo deslocassem atenção e recursos em outras direções. Embarcações e aviões também foram usados em várias operações de acobertamento.

132 mil

soldados dos Aliados desembarcaram na Normandia no dia 6 de junho de 1944

Os desafios logísticos

Quatro praias da costa francesa da Normandia, que estava sob domínio nazista, foram escolhidas sobre o mapa para o desembarque.

O local era considerado improvável para um operação dessa envergadura. E isso era precisamente o que interessava aos planos de inteligência dos Aliados.

Não havia nenhum porto importante nessas praias, o que impedia a aproximação de grandes navios de guerra. Para contornar o problema e desembarcar as tropas, foram desenvolvidos veículos militares anfíbios especialmente para essa operação.

 

Os desafios meteorológicos

O sucesso do desembarque dependia de uma janela estreita de oportunidades climáticas. Fatores como as marés, a fase da lua, a ocorrência de chuvas e de ventos eram determinantes para o resultado.

A previsão meteorológica para o período imediatamente seguinte ao Dia D era de fortes chuvas, o que tornava qualquer grande plano de invasão improvável aos olhos dos alemães. Por isso, o comando das forças nazistas não estava em alerta e havia dispensado milhares de homens que poderiam, ao contrário, estar de sobreaviso.

A data originalmente prevista para ação era 5 de junho de 1944, mas ela teve de ser adiada para o dia seguinte em razão das condições climáticas. No fim o desembarque ocorreu mesmo sem as condições serem ideais, pois a próxima janela meteorológica demoraria duas semanas para se apresentar.

Desembarque foi só o início

O Dia D foi apenas o início de um movimento militar mais amplo, que começou a acontecer logo em seguida ao desembarque em si.

Vencidas as falésias, as minas explosivas, os tripés de metal, estacas e a artilharia alemã na região de praia, teve início a incursão da infantaria aliada. Tanques de guerra e outros veículos militares começaram a ser desembarcados logo em seguida, enquanto a aviação despejava tropas de paraquedistas terreno adentro.

As tropas aliadas logo se uniram à resistência francesa, composta por grupos de civis armados, que se opunham à ocupação nazista por meio de ações de sabotagem.

Dois meses depois, em agosto de 1944, os Aliados conseguiriam a liberação de Paris. E, entre abril e maio de 1945, veio a vitória sobre as tropas alemãs em Berlim.

Sobre a importância do Dia D para o fim da Segunda Guerra Mundial e o seu peso para países do Oriente e do Ocidente, o Nexo entrevistou Alexandre Moreli, professor de história das relações internacionais na Universidade de São Paulo.

 

Qual a importância do Dia D para o fim da 2ª Guerra?

ALEXANDRE MORELI Eu acho que é uma batalha crucial, porque fez com que os alemães dividissem suas forças. Mesmo com os russos resistindo no fronte leste, os alemães estavam concentrados nesse fronte, lutando contra os russos, e essa operação do Dia D fez com que eles tivessem que dividir as forças. [A operação] fez com que acontecesse um ataque direto em direção à Alemanha, o que pode ser considerado uma virada na guerra, por isso ela é tão lembrada.

 

Eu acho que tem uma razão estratégico-militar [para a importância do Dia D], mas também existe uma simbologia em torno da aliança anglo-americana que liderou essa operação, mesmo com outras nacionalidades presentes, como os canadenses, australianos e de outras origens. Mas essa simbologia do pilar da aliança anglo-americana, que lançou ataques, também foi lembrada pela historiografia, pela memória da Segunda Guerra Mundial, como um dia importante para valorizar esse aspecto da vitória. A gente pode colocar isso dentro de um contexto de batalhas pela memória durante a Guerra Fria [1947 - 1991]. E isso também marca a maneira como nós lembramos da Segunda Guerra Mundial, como essa história atravessa a Guerra Fria, com cada um dos lados  tentando mostrar a sua grande contribuição por essas batalhas. Então, para nós, o Dia D parece ter sido uma batalha fundamental, mas para os russos, eu diria que Stalingrado é tão importante, se não mais importante do que o Dia D.

 

Como o Dia D se encaixa no contexto dessas outras grandes batalhas?

ALEXANDRE MORELI Eu acho que Stalingrado [batalha entre Alemanha e União Soviética, entre 1942 e 1943, pela cidade de Stalingrado, hoje chamada de Volgogrado, na Rússia], a Operação Tocha, [que é] a invasão do Norte da África, e a guerra contra os submarinos alemães no oceano Atlântico, essas três batalhas, que aconteceram entre 1942 e 1943, foram batalhas que mostram que a guerra provavelmente não seria ganha pelo Eixo. Foi um momento em que os avanços do Eixo foram parados pelos Aliados. Havia até ali uma expectativa de que a vitória do Eixo fosse avassaladora e pudesse acontecer entre 1942 e 1943 a qualquer momento. E esse primeiro conjunto de batalhas – Stalingrado, Batalha do Atlântico e Operação Tocha – que pararam o avanço do Eixo e mostraram que era possível uma derrota do Eixo. O Dia D já vem num segundo conjunto de batalhas. E é interessante porque mesmo no Ocidente nós lembramos mais do Dia D do que a operação das Ilhas Marianas, na guerra do Pacífico, que aconteceu alguns dias depois e que também é uma virada no combate contra os japoneses. Então essas foram batalhas que mostraram que a guerra estava caminhando para um fim, que existia um ataque final sendo lançado. São batalhas importantes, mas elas estão em momentos diferentes da guerra.

 

O Dia D tem a mesma importância histórica no Ocidente e no Oriente?

ALEXANDRE MORELI Quando nós falamos em Oriente, é interessante saber de quem nós estamos falando, porque existem duas grandes oposições na Ásia durante a Segunda Guerra Mundial – os japoneses contra os chineses. E foi uma guerra que começou antes da guerra na Europa, que começou em 1937, e que continuou independente da guerra na Europa até 1941. O ano de 1941 foi quando essas guerras se conectaram e aí nós tivemos uma guerra mundial. Em 1941, com a entrada na guerra da União Soviética, após a invasão nazista, e com Pearl Harbor [operação aeronaval japonesa contra a base americana, localizada no Havaí], nós tivemos uma conexão de todas essas guerras. Mesmo assim, existia uma agenda de guerra japonesa que estava muito tenuamente ligada com a dos alemães. Então, para os japoneses, era muito mais importante consolidar a conquista da Ásia e se preocupar menos com o que estava acontecendo na Europa. Para eles, o mais importante era entender como os Estados Unidos iam tentar combatê-los na Ásia. Por isso, o Dia D, para os asiáticos, tem uma importância bastante relativa, porque a guerra do Pacífico estava sendo travada por questões regionais, muito singulares, e batalhas que estavam acontecendo ao mesmo tempo do Dia D são mais importantes para eles.

Sempre lembrando que os russos estão dentro das Nações Unidas [criada em 1945], esse é um termo que nasce na Segunda Guerra Mundial, que depois vai dar nome à organização multilateral que vai ser criada, então os russos estão junto com os americanos e os britânicos. E essas três grandes forças em guerra tinham uma relação muito tensa, porque os russos, que estavam combatendo os alemães desde 1941 no fronte oriental da guerra na Europa, estavam pedindo para que ingleses e americanos abrissem o segundo fronte contra a Alemanha, porque o sacrifício de guerra que os russos estavam fazendo era muito grande. E esse pedido surgiu desde 1942. Então ele vai por 1942, 1943 e 1944. Josef Stálin [líder da União Soviética] teve que esperar muito tempo, pedindo para que o segundo fronte fosse aberto, até que os americanos e os ingleses topassem. O Dia D para os soviéticos também é muito importante, porque teve essa missão de dividir as forças alemãs e diminuir o sacrifício russo.

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