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O movimento das japonesas contra o salto alto no trabalho

Mulheres lançaram a campanha #KuToo e levaram petição ao governo para que empregadores não possam forçar suas funcionárias a usarem esse tipo de calçado

 

Um grupo de mulheres japonesas apresentou na segunda-feira (3) uma petição ao governo do país asiático: quer uma lei nacional que proíba empregadores de forçarem o uso de salto alto por funcionárias.

A campanha, chamada de #KuToo – trocadilho com as palavras “kutsu” (sapato) e “kutsuu” (dor) –  faz referência ao movimento #MeToo, movimento americano contra o assédio sexual que ganhou força a partir de 2017.

A reivindicação conta com mais de 19 mil apoiadores. Foi encabeçada pela atriz Yumi Ishikawa, após a postagem de um tweet em que se queixava da obrigação de usar salto para pleitear uma vaga de emprego em um hotel.

A postagem viralizou, levando outras mulheres a falarem do problema. De acordo com as participantes da campanha, o uso do salto é praticamente obrigatório no Japão para buscar trabalho e para atuar em empresas quando se é mulher.

As mulheres destacam o desconforto provocado por esse tipo de sapato, os danos à saúde e a misoginia que a obrigatoriedade revela. 

Embora o Ministério do Trabalho ainda não tenha reagido oficialmente ao pedido, uma funcionária do governo que não teve o nome identificado disse simpatizar com a petição, conforme disse Ishikawa ao jornal britânico The Guardian.

Outros protestos contra o salto

Festival de Cannes

Em 2015, durante o Festival de Cannes, mulheres que não estavam usando sapatos de salto foram impedidas de entrar em sessões de gala. O festival de cinema enfrentou protestos de artistas contra o código de vestimenta, considerado sexista. Após a polêmica, o diretor do festival, Thierry Frémaux, negou que o salto fosse obrigatório no tapete vermelho. O assunto, no entanto, continuou tendo ecos nas edições seguintes. Em 2018, a atriz Kristen Stewart, então membro do júri do festival, apareceu descalça no tapete vermelho em protesto à política do festival de não permitir sapatos baixos. 

Reino Unido

Uma petição semelhante à das japonesas foi assinada por mais de 150 mil pessoas no Reino Unido em solidariedade a Nicola Thorp, mandada de volta para casa em seu primeiro dia de trabalho em uma empresa de contabilidade, em 2016, por estar usando sapatos baixos. O caso levou a um inquérito sobre códigos de vestuário no local de trabalho no país, levado adiante por um comitê de membros do parlamento britânico, e trouxe à tona outras ocorrências. A lei, no entanto, não foi alterada pelo governo, com o argumento de que o combate à exigência já estaria amparado pelo Equality Act, de 2010.

Norwegian Air

Em 2019, a companhia aérea norueguesa anunciou às integrantes da tripulação de cabine que deveriam portar justificativa médica, atualizada a cada seis meses, caso quisessem usar sapatos baixos no trabalho, e foi amplamente criticada.

O salto alto na história

Originalmente usados no século 16 como uma forma de facilitar a montaria de cavaleiros persas, os sapatos de salto alto foram adotados pelos homens da realeza europeia como um símbolo de desenvoltura no combate.

Por volta da década de 1630, mulheres da aristocracia incorporaram elementos do vestuário masculino como forma de se associar à realeza, levando à distinção entre saltos masculinos (mais quadrados e robustos) e femininos (esguios e curvilíneos).

No século 18, a postura racional e pragmática do Iluminismo se estendeu também ao vestuário masculino, que passou a dispensar o sapato de salto alto e outros adereços, que, no entanto, continuaram a ser usados por mulheres.

A associação do sapato de salto alto com a ideia de feminilidade, porém, é mais recente: se deu com as pin-ups, em meados do século 20, quando a fotografia pornográfica descobriu o potencial do salto para enaltecer as pernas das modelos.

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