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Quem é a nova reitora da UFRJ. E o que ela sinaliza

A biofísica Denise Pires de Carvalho foi escolhida pelo presidente Jair Bolsonaro. É a primeira vez que uma mulher assume o cargo da instituição, que completará 100 anos em 2020

 

A professora Denise Pires de Carvalho foi nomeada pelo presidente Jair Bolsonaro como a nova reitora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ela é a primeira mulher à frente da instituição, que completará cem anos em 2020.

Docente do Instituto de Biofísica, Carvalho havia sido eleita em abril por professores, técnicos e alunos em consulta interna e encabeçava a lista tríplice levada ao presidente. Primeiro, Bolsonaro sinalizou, em evento da Firjan (Federação das Indústrias do estado do Rio de Janeiro), em 20 de maio, que iria escolhê-la.

“Hoje, devo assinar aqui o nome da nova reitora da UFRJ. Tomei conhecimento a respeito dela, da lista tríplice, bem como de mais chegados, é a pessoa adequada para estar à frente da UFRJ . Eu disse reitora, já dei a dica de quem é. Eu agora sou o novo ‘homemfóbico’”

Jair Bolsonaro

presidente da República, em 20 de maio

O presidente assinou a nomeação apenas em 31 de maio de 2019. A publicação no Diário Oficial ocorreu na segunda-feira (3).

O quadro atual da universidade

A Universidade Federal do Rio de Janeiro ocupa a 4ª colocação em número de produções científicas no Brasil, segundo levantamento da Clarivate Analytics encomendado pela Universidade de São Paulo. A análise considerou o período de 2014 a 2018.

Denise Carvalho assume a função em meio aos esforços de reconstrução do Museu Nacional, que é vinculado à universidade e foi destruído por um incêndio em setembro de 2018, e a um contingenciamento que atinge em 30% os recursos discricionários (que excluem salários e incluem contas como as de água e luz) das instituições federais.

14.056

trabalhos científicos foram produzidos pela UFRJ entre 2014 e 2018, segundo levantamento encomendado pela USP

6,56%

de toda a ciência desenvolvida no Brasil no mesmo período foi produzida pela universidade

O perfil da nova reitora

Denise Pires de Carvalho, de 54 anos, formou-se em 1987 em medicina, pela própria UFRJ, onde também fez mestrado (1989) e doutorado (1994) em biofísica. Ela realizou um pós-doutorado na França, em 1995, e outro na Itália, em 2007.

Além de dar aulas na UFRJ, ocupou cargos de chefia na instituição. Foi coordenadora acadêmica da Pró-reitoria de Graduação e, ao ser eleita, coordenava o Laboratório de Fisiologia Endócrina Doris Rosenthal, no Instituto de Biofísica.

Segundo seu currículo na plataforma Lattes, foi avaliadora, pelo Ministério da Educação, de cursos de graduação, entre 2007 e 2015. Também presidiu o departamento de tireoide da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

Uma de suas filhas, Isabela, estuda medicina na universidade. A mais velha, Daniela, também se formou lá, mas em ecologia.

Sempre trabalhei pela UFRJ durante toda minha carreira, desde que ingressei como docente, em 1990. Eu nunca me posicionei a favor ou contra qualquer que seja o grupo político, a não ser em questões internas relacionadas à administração da universidade. O que queremos é uma universidade pública, gratuita e fortalecida, com o pesquisador que é também professor”, afirmou Carvalho ao jornal O Globo, em entrevista publicada na segunda-feira (3).

Em 6 de abril de 2019, na segunda vez em que concorria ao cargo de reitora, saiu vitoriosa com 9.427 votos (o segundo, Oscar Rosa Mattos, da Escola Politécnica, obteve 8.825). Ao todo, 19.232 pessoas votaram.

Ela foi escolhida criticando o aumento no número de alunos da UFRJ sem que houvesse expansão física da universidade e prometendo melhorar o índice de conclusão de cursos e implantar projetos de iniciação científica com bolsas pagas pela própria instituição (sem que o aluno dependa da Capes ou do CNPq).

Em entrevista à TV Globo, disse que pretende “seguir com a reconstrução do Museu Nacional, aumentar a internacionalização e as atividades de inovação”. “Sabemos todos que há contingenciamento de recursos para as universidades, o que nos deixa muito apreensivos quanto ao futuro da nossa instituição sob o ponto de vista administrativo”, disse.

Bolsonaro e as verbas da educação

A nova reitora disse ter temido que sua nomeação não fosse confirmada por Bolsonaro, mas que ficou honrada com a decisão do presidente. Ela contou ao jornal O Globo, em sua primeira grande entrevista após a confirmação de que ocupará o cargo, cujo mandato é de quatro anos, ter procurado toda a bancada de deputados federais do Rio de Janeiro e falado com os senadores do estado antes de sua nomeação.

“Esse é um caminho importante não só para minha nomeação, mas para a gestão da universidade. O apoio da bancada é fundamental para as instituições”, afirmou ao jornal carioca.

Questionada sobre que avaliação faria do ministro da Educação, Abraham Weintraub, disse que não poderia responder pelo pouco tempo dele no cargo, mas que o ministro precisa “abrir o diálogo com a área educacional do país”.

No final de abril, o ministro havia anunciado o corte de verbas de três universidades federais alegando “balbúrdia” e baixo desempenho acadêmico das instituições. No mesmo dia, porém, o MEC divulgou nota retificando a informação e dizendo que o contingenciamento, por motivos técnicos, iria valer a todas as federais, atingindo R$ 2,5 bilhões. A fala de Weintraub, porém, mobilizou professores e estudantes em todo o país. Eles já foram às ruas duas vezes em defesa da educação.

“O contingenciamento é muito grave porque a UFRJ tem não só atividade de ensino. Temos mais de 1.200 laboratórios funcionando. Temos mais de 10 prédios tombados”, disse Carvalho ao Globo.

Um de seus maiores desafios será a reconstrução do Museu Nacional. Os recursos para as obras também foram afetados em 21,63% pelo contingenciamento.

“Estaremos muito próximos do MEC para resolver a questão do Museu. É do nosso interesse que a gente o reconstrua o mais rápido possível. É importante frisar que o museu também produz conhecimento, essas estruturas de ensino, pesquisa e extensão foram todas destruídas”, afirmou ao jornal.

A reitora afirmou esperar que as obras para refazer a fachada e o telhado do museu sejam iniciadas até o final de 2019.

 

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