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PIB brasileiro recua 0,2%: quais os riscos de nova recessão

Economia volta a ter resultado negativo depois de oito trimestres. Recuperação já era lenta e economistas ouvidos pelo ‘Nexo’ não descartam nova recessão

    A recuperação da economia brasileira, que já era lenta após uma longa e profunda recessão, agora corre riscos. O Produto Interno Bruto do país recuou 0,2% nos três primeiros meses de 2019 na comparação com o último trimestre de 2018. Os dados foram divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na manhã de quinta-feira (30).

    Isso significa que a soma de todos os bens e serviços que o país produziu em janeiro, fevereiro e março é 0,2% menor do que a produção de outubro, novembro e dezembro de 2018.

    R$ 1,462 tri

    é o valor do PIB brasileiro do 1º trimestre de 2019

    É o primeiro resultado negativo do PIB desde o fim de 2016, quando o Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), da Fundação Getúlio Vargas, constatou o fim da recessão. Desde então, a economia brasileira vinha em uma lenta recuperação que já dava sinais de estagnação.

     

    Depois do fim de 2016, foram sete trimestres com crescimento e um com estagnação – sob efeito da greve dos caminhoneiros em 2018. No período, a economia brasileira cresceu mais de 0,5% somente em um trimestre uma vez. No primeiro resultado de 2017, graças a uma supersafra, o PIB avançou 1,6%. Depois disso, todos os resultados variaram entre 0% e 0,5%, até que apareceu a primeira queda agora.

     

    O resultado desmembrado

    O PIB é tudo que o país produz, mas também tudo que o país consome. Por isso, existem duas maneiras de se medir a economia: pela oferta e pela demanda de bens e serviços. E o resultado do primeiro trimestre foi problemático dos dois lados.

    Na produção, o setor de serviços – o maior da economia brasileira e que por isso tem mais peso no PIB – avançou  0,2% e evitou uma queda maior do índice geral. Agropecuária e indústria tiveram resultados negativos.

    Entre os motivos apontados pelo IBGE para a nova queda da indústria está o desempenho ruim do setor de petróleo e o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho. A tragédia foi um dos fatores que fez a indústria extrativa cair 6,3% no primeiro trimestre, puxar a queda da indústria geral e, consequentemente, o PIB. Sem esses dois fatores, o crescimento do PIB poderia até ter sido levemente positivo, segundo a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis.

    Oferta

     

    Olhando a demanda, houve avanços nos gastos do governo e no consumo das famílias – que, da mesma forma que os serviços pela ótica da oferta, têm o maior peso. Mas voltou a cair, de maneira forte, a chamada Formação Bruta de Capital Fixo, nome técnico para o investimento das empresas.

    Demanda

     

    Investimento é todo o gasto das empresas destinado a aumentar a produção, seja comprando máquinas e equipamentos para produzir mais bens, seja criando infraestrutura. O dado é importante porque é um indicador da capacidade de o país crescer no futuro – é um gasto que se transforma em mais crescimento. Além disso, o investimento sinaliza o grau de confiança dos empresários no crescimento da demanda e no futuro da economia.

    A queda no trimestre mantém a taxa de investimentos (investimentos/PIB) em um patamar baixo.

     

    A crise e a lenta recuperação

    O Codace considera que a recessão brasileira começou no segundo trimestre de 2014 e terminou no fim de 2016. Para identificar uma recessão, ou o fim dela, o Comitê analisa uma série de componentes da economia além de simplesmente a variação do PIB total.

    Antes de 2014, houve 20 trimestres de crescimento. Depois do fim de 2016, já são nove trimestres de um período que, até aqui, é identificado como de lenta recuperação. Uma retomada insuficiente para aproximar a economia brasileira do patamar que ela tinha antes da crise. O que o país produz atualmente está no nível do que produzia no início de 2012.

     

    No total, o Produto Interno Bruto é, atualmente, 5,26% menor do que era no primeiro trimestre de 2014, último resultado antes da crise. Mas uma recessão da magnitude da que o Brasil sofreu entre 2014 e 2016 tem impactos diferentes em diferentes setores da economia. O PIB é o número geral, composto por várias atividades.

    Do lado da oferta, só a agropecuária avançou desde o início da crise. O setor de serviços, que tem grande peso no índice geral, teve trajetória parecida com a do PIB total. A indústria foi a que mais sofreu. Depois de atingir uma queda de 13,8% no fim de 2016, houve leve recuperação em 2017 e estagnação desde então.

    Oferta

     

    Do lado da demanda, chama a atenção o investimento, que segue mais de 25% abaixo do volume do primeiro trimestre de 2014. O país investiu no primeiro trimestre deste ano 27% menos do que investia cinco anos antes.

    Demanda

     

    Sobre os números divulgados pelo IBGE e as perspectivas para a economia brasileira, o Nexo conversou com duas economistas:

    • Juliana Inhasz, coordenadora da graduação em Economia no Insper
    • Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro e pesquisadora sênior do Ibre/FGV

    O que significa o primeiro resultado negativo em 9 trimestres?

    Juliana Inhasz É um resultado que a gente não gostaria, mas não é uma surpresa. A gente tem visto a economia andando muito de lado. Isso acontece porque a gente não consegue passar reformas que criem realmente impacto. Se não passa reforma, as expectativas não melhoram, quem tem capital não investe, não cria emprego, não consegue incentivar a demanda. Há uma cadeia que a gente não consegue alavancar.

    O número mostra uma economia que saiu da recessão, que teoricamente não está mais em recessão, mas que continua sofrendo os efeitos dela. As reformas que o governo Temer conseguiu aprovar foram importantes, mas tímidas. Naquele momento, a economia conseguiu um fôlego, mas curto. Reformas que realmente podem fazer com que as coisas melhorem são reformas estruturais muito mais profundas. E aí não é a reforma da Previdência o remédio exclusivo. Para melhorar de fato no curto prazo, tem que aliar a outras reformas, a tributária talvez hoje seja mais efetiva no curto prazo que a Previdência.

    Silvia Matos Um pouco da explicação está no efeito da indústria extrativa [impactada por petróleo e Brumadinho], há também o impacto que a queda das exportações para a Argentina tem na indústria de transformação, desde 2018. A exportação tinha sido importante para que a indústria saísse da recessão antes de outros setores, a Argentina tinha sido importante.

    Mas o problema não é esse. Se tira todos esses efeitos, teríamos um PIB positivo baixo, mas isso é ruim. Todos os nossos modelos apontavam um crescimento mais significativo no primeiro trimestre. E o dado que mostra a fraqueza é o investimento, que já tinha contraído no trimestre passado. É o segundo negativo, esse é o pior número do PIB, é um dos fatores que resultam em um PIB mais fraco.

    Investimento depende muito de previsibilidade, poder avaliar o futuro. E isso tem sido um fator que limita o nosso crescimento. Infelizmente, há uma piora recente. Há uma correlação entre o investimento e a incerteza, nosso indicador até abril já mostrava um patamar de incerteza do período pré-eleição, tinha cenário externo. Então, até abril, toda a melhora do pós-eleição já havia se perdido e agora é uma coisa muito doméstica. O ponto é: se a gente tem um cenário doméstico que amplifica choques externos e gera choques novos, complica.

    Existem sinais de recuperação? De onde pode vir?

    Juliana Inhasz Em algum momento, a recuperação vai ter que vir, a gente só não sabe de onde. Investimento é uma variável interessante, o grande problema é que ele demora para acontecer. Se hoje todos os empresários entenderem que a economia vai andar, o resultado disso para a economia não é imediato.

    Uma variável que tem segurado a economia, tem evitado um vexame, é o consumo das famílias. Não é um crescimento, mas tem ajudado a manter. Por isso, consumo das famílias pode ser uma variável importante para um início de recuperação. O problema é que para as famílias consumirem mais é preciso emprego, que depende de investimento, de confiança. Pode-se tentar aumentar o consumo por outros caminhos, tentativas de reduzir o custo do crédito, a própria ideia de liberar o FGTS. Mas tudo isso é coisa de curto prazo.

    Por outro lado, esse patamar de consumo atual está em risco por conta da crise prolongada. Enquanto não houver uma recuperação da economia de fato, há o risco do desemprego. Ele nem tem aumentado tanto em taxa, mas olhando o número de empregados, são 13 milhões, mais outros milhões em desalento, além dos que têm trabalho intermitente. Isso é 10% da nossa população total, sem falar da qualidade desse emprego que se tem hoje. Quanto mais se demora para fazer as reformas que mudam o rumo da economia, mais a gente está arriscando essas pessoas e o consumo das famílias.

    Silvia Matos O PIB pode até continuar sendo positivo baixo puxado pelo setor de serviços, consumo das famílias. A comparação nos próximos trimestres com os mesmos do ano anterior é muito favorável, é com greve dos caminhoneiros e período de mau humor com emergentes. A questão é saber a composição desse crescimento, é saber se o investimento terá alguma recuperação. Se houver outra contração de investimento, mesmo se o PIB vier positivo próximo de zero, a gente estará matando nossa capacidade de crescimento.

    Então o importante no segundo trimestre, independente do número, é o investimento. Se ele demonstrar alguma recuperação, algum alento, a gente ainda tem alguma esperança de pensar em crescimento. De qualquer maneira, mesmo com um PIB igual ou um pouquinho melhor que o do ano passado, o investimento deve ser pior. Estaremos complicando 2020 e o futuro.

    Quais os riscos de o Brasil voltar a ter uma recessão?

    Juliana Inhasz Riscos de voltar à recessão a gente sempre teve. Conseguimos deixar pra trás a recessão com medidas muito superficiais, não houve reforma estrutural que mudasse a condição. A gente deixou de andar para trás, mas o risco existe. Desde o final do ano passado, há uma deterioração de expectativa que é impressionante.

    No fim do ano passado, os empresários achavam que o país ia conseguir reverter a situação, uma esperança com o novo governo. Aí virou o governo e o dia a dia, a vida real começou a ser uma variável importante, as pessoas perceberam a dificuldade de se passar uma reforma. Houve um desgaste muito rápido das relações políticas no primeiro trimestre. Se isso continuar acontecendo, se isso continuar travando mudanças que sejam significativas, há um risco de passar da inércia para uma condição de voltar a andar para trás.

    Por outro lado, a gente tem visto uma pressão popular, que não é imensa nem desprezível, para ajudar a aprovação de reformas. No momento ainda há muita dúvida, o risco da recessão existe, mas não acho que ele é tão grande assim.

    Silvia Matos O risco hoje é maior do que era no cenário mais pessimista meses atrás. Se a gente falar de recessão mesmo, segundo trimestre negativo, não está nos modelos hoje um número negativo, mas não dá para colocar a mão no fogo.

    Independente do número, se olharmos o Codace, mesmo que o número não venha muito negativo, pode-se classificar como recessão, se tiver investimento negativo, desemprego elevado. Recessão a gente tem clareza quando é contundente, agora é um PIB próximo da estagnação, ainda não temos oficialmente uma recessão, mas temos uma recessão nos investimentos.

    E aí existem problemas estruturais e conjunturais. Está meio tumultuado, o governo precisava dar uma sensação de mais segurança, de que as coisas estão sob controle e que há um plano articulado para a economia. Claro que poderia ter resultado ruim, mas é um choque que parece estar se espalhando pela economia, todo mundo falando em recessão, depressão. E isso é ruim porque ninguém mais tem condição de passar por um período assim, não tem mais gordura para queimar, nem famílias, nem empresas.

    O segundo trimestre vai ser crucial para identificarmos ou não uma recessão, o Codace olha a tendência. Mas independente disso, é uma estagnação. Acho que ainda não é uma recessão, mas não é necessário uma recessão para mostrar que a gente está mal. No segundo trimestre acho que vai haver alguma recuperaçãozinha em relação ao primeiro, mas o risco está aí.

     

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