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O fim dos ‘lixões do mundo’. E o destino do lixo agora

Malásia e Filipinas decidiram mandar milhares de toneladas de resíduos plásticos de volta a seus países de origem

 

A Malásia decidiu mandar 3.300 toneladas de resíduos plásticos de volta a seus países de origem - entre eles, Austrália, Canadá e Estados Unidos. O anúncio foi feito pela ministra Yeo Bee Yin, responsável pelas áreas de Energia, Ciência, Tecnologia, Meio Ambiente e Mudança Climática, nesta terça-feira (28).

Segundo a ministra, 60 contêineres cheios de lixo entraram ilegalmente no território malaio e seriam devolvidos.

Entre os itens estavam fiações britânicas, caixas australianas e lixo eletrônico vindos de Canadá, Estados Unidos, Arábia Saudita, China e Japão. No início do mês, o governo malaio também mandou 5 contêineres de lixo de volta para a Espanha.

“A Malásia não será um ‘lixão do mundo’. Somos um país pequeno, mas não seremos intimidados pelos países desenvolvidos. [...] Reivindicamos que os países desenvolvidos revejam suas políticas para resíduos plásticos e parem de mandar seu lixo para outros países”

Yeo Bee Yin

durante visita à cidade de Port Klang

Segundo Yeo, o lixo que chega ali é o resíduo do resíduo: o que as nações desenvolvidas não conseguem reciclar adequadamente é despachado para territórios asiáticos.

Desde a década de 1980, a China importou e aceitou receber resíduos do mundo todo: os chineses separavam o lixo, identificando o que é realmente aproveitável, e transformavam-no em matéria-prima para fazer novos produtos.

Embora lucrativo, o negócio foi reavaliado pelo governo chinês devido a “efeitos colaterais”, como o risco ecológico, as situações precárias do processo (o material muitas vezes era submetido a triagens manuais) e a saúde dos trabalhadores.

O caso filipino

Em maio de 2019, as Filipinas decidiram mandar 69 contêineres com cerca de 2.000 toneladas de lixo de volta para o Canadá. O governo filipino ameaçou despejar os resíduos no mar se o país norte-americano se recusar a recebê-los.

Os contêineres tinham sido levados do Canadá para as Filipinas entre 2013 e 2014, mediante uma transação comercial feita sem o consentimento do governo filipino, segundo o porta-voz da presidência.

Em geral, esses acordos de transferência de resíduos plástico eram feitos entre empresas, sem necessariamente contar com o aval dos governos. Entretanto, esse mercado está mudando.

O mercado do lixo

Plástico é um material sintético criado a partir do rearranjo das moléculas do petróleo bruto. Cerca de 300 milhões de toneladas do material são produzidas por ano - e a maioria vai parar em lixões ou oceanos.

200%

é quanto a produção de plástico anual no mundo cresceu entre a década de 1950 e 2015

381 milhões

é a quantidade de toneladas de plástico produzida ao redor do mundo em 2015

Nos próximos 20 anos, a expectativa do setor é dobrar a produção de plástico. Nesse ritmo, os oceanos do planeta terão mais plástico do que peixes até 2050, de acordo com um estudo divulgado no Fórum Econômico Mundial de 2016.

 

Uma das expressões mais evidentes da saturação da superfície do planeta com plástico é a chamada Grande Porção de Lixo do Pacífico, uma área com alta concentração de plástico que se formou entre o Havaí e a Califórnia, estendendo-se até a costa do Japão.

O plástico continua a ser produzido - e a ser descartado. Os resíduos podem ser reincorporados em outros processos produtivos como matéria-prima secundária. Atualmente, milhões de toneladas de plástico reciclável são comercializadas ao redor do mundo, compondo parte do mercado global de commodities.

A rota comercial de resíduos plásticos recicláveis geralmente vai dos países mais desenvolvidos para os menos desenvolvidos:

  • Os países exportadores despacham e não precisam lidar com o destino de todo o plástico que produzem – o que pode ser uma atividade bastante cara, principalmente quando o material contém aditivos químicos e diferentes misturas
  • Os países importadores, por sua vez, têm acesso a uma matéria-prima barata, de valor inferior ao plástico que produziria internamente a partir do petróleo

Entretanto, muitos países não contam com um aparato legal para esse tipo de comércio internacional e, muitas vezes, as vendas são feitas via internet – o que dá margem a operações ilegais e informais.

A ausência de forte regulação também abre brechas para o comércio de plástico de baixa qualidade, que dificulta o seu reaproveitamento no país importador.

Nesses países, os resíduos podem acabar misturados a outros tipos de lixo, em lixões a céu aberto, e podem ser levados pelo vento e pelas chuvas até os oceanos.

O destino do lixo

Nos últimos anos, esses territórios ficaram conhecidos como “paraísos de resíduos”, ou seja, países menos desenvolvidos que recebem esses materiais, por vezes plásticos provenientes do lixo doméstico ou plásticos misturados com outros materiais.

O maior destino desses resíduos plásticos recicláveis está na Ásia.

Parte considerável do lixo mundial ia parar na China, o principal importador mundial de muitos tipos de materiais para reciclagem, como metais, papel e plástico. Estados Unidos e União Europeia são os principais exportadores.

Segundo dados de 2014 da Iswa (Associação Internacional de Resíduos Sólidos), a China era a maior importadora individual de plástico para reciclagem, respondendo por 56% desse mercado.

Em 2016, o país importou 7,3 milhões de toneladas de plástico - mais da metade de todo o plástico exportado no mundo (14,1 milhões de toneladas). Ficou, assim, conhecida como “lixeira do mundo”. Mas, desde 2007, a China tem aumentado restrições a importações de resíduos plásticos recicláveis.

Em julho de 2017, implementou regras ainda mais estritas, banindo permanentemente a importação de plásticos recicláveis que não têm origem industrial.

No total, o país proibiu 24 tipos de resíduos sólidos, incluindo ferro, papel e plástico, considerados “sujos” e “perigosos”. A nova regra do chamado “lixo estrangeiro” passou a valer em março de 2018.

Para onde vai o lixo agora

Após a mudança chinesa, o fluxo de importação de resíduos plásticos aumentou consideravelmente em países como Vietnã e Malásia, em lugares sem infraestrutura e muitas vezes ilegais. Segundo relatório da WWF de 2019, esses plásticos podem ter ido parar em aterros, incineradores ou despejados em local aberto.

O argumento é endossado pelo relatório do Banco Mundial de 2018, que diz que mais de 90% do lixo de países menos desenvolvidos é descartado em lixões não regulamentados ou queimado a céu aberto. Somente 10% do lixo é de fato reciclado.

 

De acordo com o Bir (Escritório Internacional de Reciclagem), que representa a indústria em nível global, novos mercados estão sendo buscados. Segundo a Gaia (Aliança Global para Alternativas à Incineração), após a decisão chinesa, cidades e vilarejos de agricultura na Indonésia, Tailândia e Malásia se tornaram “lixões”.

Alternativas e acordos

Além da China, Malásia e Filipinas se posicionaram agora sobre a questão, introduzindo restrições recentes à importação de resíduos. Indonésia e Tailândia também.

Reabriu-se, assim, a discussão sobre a importância de pensar novos programas de reciclagem e de utilização de toneladas de produtos plásticos e de papel descartados - ou um novo tipo de gestão do lixo.

Em 10 de maio de 2019, 187 países-membros das Nações Unidas assinaram um acordo para diminuir o desperdício de plástico no planeta. Os signatários se comprometeram a monitorar o movimento dos dejetos plásticos para além de suas fronteiras e a restringir o envio de seus resíduos para países menos desenvolvidos.

Trata-se de uma emenda à Convenção de Basileia, de 1989, que trata do controle de movimentos transfronteiriços de resíduos perigosos e seu depósito. Brasil e Estados Unidos, que estão entre os maiores produtores de lixo plástico do mundo, não aderiram ao novo acordo.

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