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O efeito de princesas da Disney em meninas de diferentes países

Estudo feito com participantes da Suécia, Índia e Ilhas Fiji mostra que onipresença das personagens reforça ideia uniforme de beleza

     

    As princesas da Disney chegam a crianças do mundo todo, seja através dos canais da empresa de mídia, presentes em 133 países, da exibição de seus filmes ou dos produtos que levam a imagem das personagens.

    Um estudo publicado em março de 2019 no jornal científico internacional Social Sciences analisa como as princesas da Disney são percebidas por meninas de 8 a 15 anos em três países diferentes – Índia, Fiji e Suécia – em dois períodos, 2009 e 2018, intercalados por quase uma década.

    A autora, a socióloga Charu Uppal, é pesquisadora da Universidade de Karlstad, na Suécia. Sua preocupação é a percepção do conceito de princesa e de si mesmas por meninas de diferentes nacionalidades, a partir das princesas criadas pela Disney, que são, em sua maioria, brancas e ocidentais.

    Os resultados indicam que a onipresença das princesas Disney criou uma ideia uniforme de beleza entre garotas de diferentes países. Algumas meninas da Índia e das Ilhas Fiji não achavam que poderiam ser princesas por conta da cor de sua pele.

    Princesas não brancas

    A partir da década de 1990, a Disney incluiu personagens de outras etnias entre suas princesas: é o caso da Jasmine, do filme “Aladdin” (1992), Pocahontas, do filme homônimo (1995), Mulan (1998), com sua heroína de mesmo nome, Tiana, de “A Princesa e o Sapo” (2009) e Moana, de “Moana: Um Mar de Aventuras” (2016).

     

    As novas personagens são parte de um esforço da empresa em tornar suas princesas mais diversas e empoderadas, respondendo a críticas de que todas eram brancas e cumpriam papéis passivos em suas respectivas tramas.

    Essa nova onda de princesas, porém, não substituiu a imagem das princesas brancas da marca, com presença global e mais antiga, segundo indica a pesquisa de Uppal. As princesas “clássicas” eram mais conhecidas na Índia ou em Fiji, e preferidas pelas meninas em relação às outras, como Mulan e Jasmine.

    Uma reportagem publicada pelo site da rádio pública americana NPR ressalta que, evidentemente, a Disney não é a única responsável pela noção de beleza branca e ocidental.

    Tanto Fiji quanto a Índia foram colonizadas pelos britânicos até o século 20, o que também desempenha um papel na interiorização da ideia de que para ser bonita é preciso ser branca. O que o estudo de Uppal aponta é que as personagens da Disney reforçam essa concepção.

    Como o estudo foi feito

    A pesquisa combinou entrevistas individuais, discussões em grupos focais e análise de desenhos produzidos pelas participantes de 8 a 15 anos da Índia, Fiji e Suécia.

    O estudo compara os dados coletados em 2018 na Suécia e em 2009 na Índia e Fiji.

    Era solicitado que elas desenhassem uma princesa e quase todos (61 de 63) os desenhos retrataram princesas de pele clara, muitas das quais eram semelhantes às personagens da Disney.

    Nenhuma das participantes indianas e fijanas desenhou princesas em trajes tradicionais de seus países (como o sari e o sulu chamba, respectivamente).

    Perguntas e respostas

    Nas entrevistas privadas conduzidas por Uppal, que duravam  de 10 a 15 minutos, eram feitas perguntas sobre com que idade haviam começado a assistir filmes de princesas da Disney, quem seria sua princesa favorita e por quê, o que gostam e desgostam nas princesas, se elas gostariam ou já haviam desejado ser princesas e se consideram que poderiam ser uma.

    Em todos os três países, as participantes afirmaram que as princesas da Disney faziam parte de sua infância desde antes de serem capazes de lembrar.

    A maioria das participantes, de todas as faixas de idade e países, negou querer ser princesa, mas suas justificativas variaram de acordo com esses dois fatores. A padronização da beleza das princesas da Disney apareceu nas respostas e desenhos de meninas de todos os países.

    As garotas indianas e fijianas, porém, enfatizaram mais do que as suecas a cor da pele como pré-requisito para a beleza e como característica da princesa imaginada.

    “Ser caucasiana retirou [das meninas suecas] a pressão de ter que ser outra pessoa para ser considerada bonita”, diz o estudo.

    Meninas de todos os países, especialmente entre 11 e 15 anos, apontaram a falta de liberdade como uma das razões para não querer ser princesas.

    Entre as participantes da Índia e Fiji que conheciam Jasmine, Pocahontas e Mulan, tampouco houve identificação com as princesas não brancas, que, para elas, eram “americanas”.

    Segundo o estudo, isso acontece porque mesmo as princesas não brancas da Disney são representadas a partir de um olhar ocidental, o que impede que meninas de diferentes etnias se identifiquem com essas personagens.

    Especialmente para as participantes não brancas, a norma de beleza indicada estava ligada à juventude e à pele clara.

     

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