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O que é racismo recreativo. E como ele se manifesta

Em declarações recentes, Jair Bolsonaro fez referências sexuais irônicas - em um dos casos, citou especificamente japoneses

     

    Durante visita a Petrolina (PE), na sexta-feira (24), o presidente Jair Bolsonaro afirmou que o ministro Paulo Guedes teria razão em querer deixar o cargo, se for aprovada uma reforma da Previdência “de japonês”.

    “Se for uma reforma de japonês ele vai embora, é isso? Eu já respondi. Pequenininho. Lá (no Japão) é tudo miniaturizado”, afirmou Bolsonaro, ao ser questionado por jornalistas sobre as declarações de Guedes que, à revista Veja, havia sinalizado intenção de renunciar se for aprovada uma “reforminha”.

    Dias antes, Bolsonaro fez uma “brincadeira” com um fã de ascendência asiática durante passagem pelo Aeroporto Internacional de Manaus (AM) a caminho de Dallas, nos Estados Unidos, em 15 de maio. Em vídeo, o presidente, sorrindo, fez referência irônica ao tamanho do órgão genital de seu apoiador: “Tudo pequenininho aí?”

    Os comentários do presidente viralizaram nas redes sociais e foram considerados inapropriados por parte dos internautas.

    Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, o músico Lobão, ex-apoiador do governo, por exemplo, criticou as declarações. “O cara faz piada com tamanho do pau de japonês e os imbecis gritam ‘mito!’ e tal. Esse cara não me representa”, afirmou.

    Questão de representatividade

    Em julho de 2017, a equipe de João Dória, em visita à China, instruiu chineses a dizer “acelela!”, reproduzindo o bordão do então prefeito paulistano, #acelera. Depois, diante da repercussão negativa ao incluir a expressão na legenda da foto com executivos da gigante chinesa Huawei, emitiu nota afirmando que “admira e respeita os chineses e não teve a intenção de ofendê-los”.

    Nos últimos anos, descendentes de imigrantes asiáticos vêm buscando visibilidade e discutindo abertamente como antigas piadas se inserem no debate sobre racismo no Brasil. “Brincadeiras” e comentários jocosos reforçam estereótipos e podem ser consideradas microagressões.

    Pessoas de origem asiática compõem uma minoria étnica no Brasil. Segundo dados do Censo do IBGE de 2010, cerca de 2 milhões de brasileiros se declararam amarelos (isto é, de origem asiática, como japoneses, coreanos e chineses).

    Ações ‘inofensivas’

    Microagressões são atitudes, comentários ou pretensas piadas que podem parecer brincadeiras inofensivas, mas que, na prática, acabam atuando como agressões sutis no cotidiano.

    A definição é da acadêmica americana Tricia Serio, diretora do Departamento de Biologia Celular e Molecular da Universidade do Arizona, nos EUA. Em artigo publicado na revista científica Nature, em abril de 2016, Serio criou uma campanha para incentivar mulheres cientistas a denunciar a ocorrência de microagressões nas universidades.

    O psicólogo americano Derald Wing, professor da Universidade de Columbia, também nos EUA, define microagressões como “indelicadezas, menosprezos e insultos verbais ou não verbais do cotidiano, intencionais ou não-intencionais, que comunicam mensagens hostis, derrogatórias ou negativas em relação a pessoas baseando-se somente no fato de que elas pertencem a alguma minoria.

    Em artigo na revista digital Psychology Today, em novembro de 2010, Wing dá três exemplos de microagressões relacionadas à questão racial nos Estados Unidos:

    • Uma pessoa branca segura a bolsa ou confere a carteira ao ver uma pessoa negra ou latino-americana se aproximar - a mensagem oculta, diz o psicólogo, é: “Você e seu grupo são criminosos”
    • Uma pessoa asiático-americana, nascida e criada nos EUA, é “elogiada” por ter um bom domínio da língua inglesa - a mensagem oculta, segundo o autor, é: “Você não é um verdadeiro americano. Você é eternamente estrangeiro no seu próprio país”
    • Um casal negro é acomodado em uma mesa no restaurante perto da cozinha, embora o salão possua mesas vazias, mais bem posicionadas no estabelecimento - a mensagem oculta é: “Você é um cidadão de segunda classe e não merece tratamento de primeira classe”

    Raça e humor

    No Brasil, o jurista Adilson José Moreira, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, abordou a questão no livro “O que é Racismo Recreativo?” (ed. Letramento, 2018).

    Segundo Moreira, racismo recreativo se refere a uma política cultural que utiliza o humor para hostilizar minorias raciais. Trata-se, de acordo com o livro, de um mecanismo que propaga manifestações racistas sob o argumento “é só uma piada”.

    “O conceito de microagressões designa uma série de atos e falas que expressam desprezo ou condescendência por membros de grupos minoritários. Eles diferem de formas tradicionais de discriminação baseadas na intenção aberta de ofender e marginalizar porque podem ser conscientes ou inconscientes, podem ocorrer sem violar normas jurídicas, podem ser produto da ausência de visibilidade de grupos minoritários”, afirmou o autor, em entrevista à revista CartaCapital, em dezembro de 2018.

    “Uma mulher branca que atravessa a rua porque vê um homem negro está praticando uma microagressão. [...] Uma piada sobre asiáticos pode parecer uma forma de criar uma oportunidade de aproximação, mas ela reproduz estereótipos que afetam a dignidade e a saúde mental dessas pessoas”, exemplificou.

    Para o antropólogo Alexandre Kishimoto, porém, os comentários recentes do presidente não se referem apenas a microagressões, mas a “manifestações de racismo”.

    “Minha masculinidade não é frágil pra se abalar com esse tipo de comentário, mas é óbvio que se trata de um comentário racista, um estereótipo racial sobre o homem asiático que o associa à falta de masculinidade [...]. E por que essa manifestação racista perdura no tempo? Pra começar, por falta de reclamação, de demonstração de descontentamento por parte dos próprios asiáticos-brasileiros”, criticou o documentarista e mestre em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo, em post no Facebook, em maio de 2019.

    Nas redes sociais, jovens descendentes criticam o uso de expressões como “abre o olho, japonês”, “flango” e “japa”.

    “É racista, é xenófobo. Não é ‘apenas uma piada’”, resumiu o cineasta Leonardo Hwan, fundador do canal Yo Ban Boo no YouTube, em entrevista à BBC de agosto de 2017 que voltou a circular atualmente. “[Quer dizer] que a pessoa não pertence, que ela é estrangeira, que não é bem-vinda”, afirmou.

    Em entrevista ao Nexo, em agosto de 2016, a socióloga Marcia Regina de Lima Silva, professora da Universidade de São Paulo, analisou que o argumento da “brincadeira” serve como carta para manifestar o racismo, sem ter que sofrer, pelo menos imediatamente, o custo de ser racista. “É uma brincadeira, mas com marcadores racistas. Quantas brincadeiras com a heterossexualidade ou branquitude você conhece?”, perguntou.

     

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