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O que é logoterapia, que Damares quer usar para evitar suicídios

Programa Acolha a Vida, lançado pela ministra em Suzano, quer capacitar profissionais, incluindo religiosos, para identificar sinais de depressão e outros problemas de saúde mental. Psicólogos apontam incorreções em proposta do governo

     

    A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, lançou um projeto-piloto de prevenção ao suicídio a à automutilação de crianças e adolescentes em 13 de maio de 2019, em Suzano, na região metropolitana de São Paulo. A cidade foi escolhida por ter sido palco de um massacre em março de 2019, quando dois homens de 17 e 25 anos entraram numa escola pública e mataram cinco alunos e duas funcionárias.

    Batizado de Acolha a Vida, o projeto quer capacitar professores, conselheiros tutelares, líderes religiosos, jornalistas, advogados, policiais, médicos e familiares de crianças e adolescentes para conseguir ler sinais de depressão. “Pais, e muitos pais, estão pedindo socorro porque não sabem o que fazer. Então esse ministério vem dando o pontapé inicial”, afirmou a ministra durante o evento.

    No site do ministério, um estudo técnico sobre o tema defende o uso da logoterapia como política pública para evitar casos de suicídio e automutilação. Especialistas têm criticado o governo por distorcer o conceito e de reduzi-lo à perspectiva religiosa.

    31

    casos de suicídio por dia foram registrados no Brasil em 2016, segundo dados do Ministério da Saúde; foram 11.433 mortes do tipo no ano

    2,3%

    foi o aumento de suicídios em 2016 em relação ao ano anterior, segundo o Ministério da Saúde

    O que é a logoterapia

    É uma abordagem psicoterápica criada pelo psiquiatra, neurologista e professor da Universidade de Viena Viktor Frankl (1905-1997), que considera fundamental a vida espiritual do paciente. Para ele, a vida tem sentido. O ser humano precisa apenas descobri-lo.

    Na década de 1920, ele organizou centros de prevenção ao suic��dio em Viena, onde dava aconselhamento a pessoas afetadas pela guerra e com depressão. Judeu, foi preso em 1942 durante a Segunda Guerra Mundial e passou por vários campos de concentração, entre os quais Auschwitz, na Polônia. Apenas ao ser libertado, ao fim do conflito, em 1945, descobriu que sua esposa havia sido morta. Também perdeu os pais e o irmão durante o Holocausto.

    Sua experiência, nesse período, foi descrita em seu livro “A Busca do Homem por Sentido”, em que trata de sua teoria de busca de sentido em todas as formas de existência. “O homem, por força de sua dimensão espiritual, pode encontrar sentido em cada situação da vida e dar-lhe uma resposta adequada”, escreve.

    “Na logoterapia, o ser humano é conceitualizado como um ser livre, capaz de tomar consciência desta liberdade, e de agir responsavelmente, motivado pelo que considera os sentidos de sua vida. Quando o sentido de vida não está presente na vida da pessoa, esta pode experienciar um vazio existencial. A logoterapia visa ampliar a capacidade da pessoa de perceber todas as possibilidades existentes de sentido em sua vida, escolhendo para realizar aquelas que considera mais significativas”, escreve o doutor em psicologia Paulo Kroeff, no trabalho “Logoterapia: uma visão da psicoterapia”, publicado em 2011.

    Ainda pouco difundida no Brasil, a logoterapia já foi objeto de 115 artigos entre 1983 e 2014, com aumento de interesse sobre o tema a partir de 2008, segundo um levantamento publicado na revista da Associação Brasileira de Logoterapia e Análise Existencial em 2015.

    As críticas à proposta do governo

    Em seu programa, o governo federal sugere a logoterapia como uma política pública. O estudo divulgado traz dados sobre uma experiência aplicada no Irã, com 20 estudantes com depressão, nos quais dez são tratados pelo método. “Constata-se grandes resultados obtidos com a aplicação do tratamento por meio da logoterapia, no qual percebe-se o aumento dos índices de identificação do sentido da vida e diminuição dos índices de depressão”, diz o documento.

    Doutor em psicologia social pela Universidade Federal da Paraíba, onde dá aulas, ex-presidente da Ablae (Associação Brasileira de Logoterapia e Análise Existencial) Thiago Antonio Avellar de Aquino diz que houve “incompreensões teóricas” no estudo.

    Para ele, o ministério reduz o suicídio a uma dificuldade em encontrar sentido e responder livremente. “Entretanto, Frankl reconhece a complexidade deste fenômeno e não o reduz a frustração existencial, mas reconhece que o seu caráter multifatorial; sobretudo quando sugere que a depressão pode ter diversas origens”, diz o professor.

    Ele defende o uso da logoterapia na forma de “uma escuta psicológica gratuita realizada por profissionais da área da psicoterapia que acolhiam as demandas da juventude”, e diz que sua aplicação não pode se confundir com a religião. No estudo, o governo defende que “as mais diversas instituições religiosas podem ser grandes aliados na luta contra o suicídio e a automutilação”, e que “pensar em políticas públicas que levem em considerações essas parcerias podem ter valia na diminuição dos números”. Para Aquino, o método deve ser implementado “com precisão científica e conceitual e com práticas baseadas em evidências em nosso próprio contexto sociocultural”.

    Para o mestre em psicologia social Vitor Barros Rego, que é conselheiro do Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal, as políticas públicas de assistência à saúde mental no Brasil pouco funcionam porque estão muito no papel e dependem de uma rede de atenção básica que deveria ser mais funcional. “O programa de Saúde da Família, por exemplo, poderia fazer um mapeamento dos gatilhos e comportamentos que poderiam denotar riscos”, diz.

    Segundo ele, o tema do suicídio está ligado à vulnerabilidade social e à desigualdade. “A pessoa que tem um transtorno depressivo e vive numa casa com cinco pessoas com renda familiar de R$ 700 não tem tratamento adequado e pode alimentar a ideia suicida. Isso é um fator preponderante para aumentar os números”, diz.

    Ele diz, porém, que as políticas estão caminhando em sentido contrário. “Estamos num movimento de alimentarem as internações, desassistindo a atenção primária, que já era frágil. Em paralelo, tem a questão das comunidades terapêuticas, que estão tendo ampliação da concessão de crédito.” Na opinião dele, as propostas para o tema, hoje, apenas transferem um problema de saúde pública para a iniciativa privada.

    Uma visão sobre o tema

    O Nexo conversou sobre a inclusão da logoterapia no programa lançado pela ministra Damares Alves com Thiago Antonio Avellar de Aquino, doutor em psicologia social pela Universidade Federal da Paraíba e professor associado da instituição. Ele é conselheiro e ex-presidente da Ablae (Associação Brasileira de Logoterapia e Análise Existencial).

    Como o senhor define a logoterapia?

    THIAGO AQUINO Numa definição breve, seria a psicoterapia centrada no sentido da vida. Ela é fundada pelo Viktor Frankl, psiquiatra vienense, que descobre que a consciência de ter um sentido na vida teria um efeito terapêutico. Por esse motivo, também, ela pode prevenir o suicídio. Não apenas a ideação suicida. Porque a pessoa pode ter a ideação, mas não o comportamento suicida. O que poderia impedir o ser humano de cometer o suicídio é a presença de um sentido, ou seja, ter um “para que” viver. Ele pega uma frase de [Friedrich] Nietzsche que afirma que quem tem um “para que” viver suporta quase todo o como. Essa é a prática da logoterapia: tornar consciente um sentido para a vida.     

    É possível que tenha uma dimensão religiosa?

    THIAGO AQUINO Esse é um erro do documento de Damares Alves. Porque ela reduz o espiritual ao religioso. Eu li esse documento e a Sociedade Brasileira de Logoterapia também, com críticas. Para o alemão, falar em dimensão espiritual não é necessariamente falar do religioso. Por exemplo, existe o “zeitgeist”, o “espírito da época”, e esse espírito não significa necessariamente religioso. A dimensão espiritual para Frankl, que ele chama de noológica, para ele é onde se originam todo os fenômenos especificamente humanos. O que ele está querendo é distinguir os homens dos animais. Tudo o que é humano tem origem na dimensão noológica ou espiritual. Para Frankl, é uma dimensão humana que não pode ser confundida com o religioso. E o documento de Damares cola essa dimensão no religioso. É um erro. Não é essa a compreensão da logoterapia nem dos logoterapeutas. A pergunta sobre o sentido da vida é uma pergunta humana. Onde tem origem? Na dimensão humana e espiritual. A preocupação com a arte, com os valores, com a estética, com a ética, isso só o ser humano possui e o diferencia dos animais e tem origem na dimensão espiritual. Por meio dos valores existenciais se procura o sentido, que não necessariamente tem relação com aspectos religiosos. Frankl foi judeu, assim como Freud foi judeu, e, claro, o pensamento judaico é diferente do nosso, e ele tinha uma prática muito mais espiritual do que religiosa. Para Frankl a religião tem importância, porque é um fenômeno humano. A logoterapia não vai aderir a nenhuma religião, vai tratar a religião como um objeto de estudo apenas. Mas também deixa a porta aberta: se a pessoa quiser interpretar a vida por meio de uma perspectiva religiosa, deixa o ser humano escolher a sua visão de homem e de mundo, porque respeita a liberdade humana. De fato, algumas perspectivas religiosas tentam trazer a logoterapia, mas isso é um grande receio dos logoterapeutas, como uma área científica. A gente tem receio do que as religiões fazem dos conceitos da logoterapia.                   

    Como é vista dentro da comunidade científica?

    THIAGO AQUINO É uma ciência nova que ficou mais conhecida na década de 1950. Mas Frankl já vinha escrevendo e pensando na terapia centrada no sentido antes da Segunda Guerra [1939-1945]. Na década de 1920 ele fala da prevenção do suicídio, por isso a logoterapia nasceu disso. Naquela época, houve uma grande recessão econômica, e isso é importante, porque Frankl não descartava a compreensão do todo, a dimensão social. Com a depressão econômica, aumentaram os índices de suicídio entre jovens. Porque havia uma falsa associação entre não ter emprego e o valor da vida. Quando a pessoa encontrava um para que viver ou se engajava em algo no mundo pelo que valesse a pena viver, logo a ideação suicida era aplacada. Nesse período é que ele está construindo sua teoria. Em 1950, ela ficou mais conhecida porque Frankl foi convidado a dar conferências nos cinco continentes, e começou a se propagar agora nas universidades, no sentido acadêmico. Aqui no Brasil tem vários artigos, inclusive o documento do ministério não cita isso. Cita um estudo em outro país, dados do Irã que não fazem parte da nossa realidade, mas nós temos estudos também.            

    Há comprovação científica de seus resultados?

    THIAGO AQUINO Temos artigos científicos, inclusive produzidos pela minha equipe, com programas de prevenção do vazio existencial. Fizemos um programa com jovens para promover a sensação de sentido de vida. Existem dados sobre isso. A gente já publicou dois artigos em revistas científicas de psicologia. A logoterapia vem se propagando muito nos periódicos científicos de psicologia, então a aceitação já está mais expandida do que algum tempo atrás.      

    Ela serve como política pública?

    THIAGO AQUINO Eu vejo por duas perspectivas: ela pode servir como política pública, de fato. O próprio Frankl fez centros de aconselhamento onde conseguiu reduzir a taxa de suicídio. Inclusive, em 1930, não se registrou nenhum suicídio em Viena, onde ele atuava, e ele atribuiu isso aos centros de aconselhamento para a juventude. Nessa perspectiva, pode sim ser usado como política pública. Mas minha visão pessoal é que, com esse governo, sobretudo nesse ministério, tem uma prática muito mais discursiva, como se fosse um púlpito de igreja, em que se está falando para seus discípulos. Nessa perspectiva, não acredito que possa, de fato, se continuar com essa direção, ter uma prática efetiva de política pública. Ao reduzir a dimensão espiritual ao religioso, ela confere aos pastores e líderes religiosos esse papel preventivo, enquanto deveria olhar para os professores, para as escolas, que poderiam exercer um papel muito mais importante para detectar e promover uma perspectiva de sentido de vida para a juventude. Seria mais eficaz do que delegar para as igrejas. As pessoas que têm ideação suicida não estão nas igrejas. Quem está lá já está com sua cosmovisão religiosa impregnada. 

    NOTA DE ESCLARECIMENTO: A primeira versão deste texto afirmava que, para a logoterapia, definida pelo psiquiatra Viktor Frankl, a vida tem um sentido. O termo “um” foi suprimido para maior clareza às 15h15 de 27 de maio de 2019.

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