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Quem é quem nas manifestações a favor do governo

Atos pelo país em apoio a Jair Bolsonaro têm organização difusa, que inclui desde grupos de extrema direita nas redes sociais até empresários

    Apoiadores do governo Jair Bolsonaro realizam manifestações neste domingo (26) pelo Brasil. Os atos ocorrem menos de cinco meses depois de o presidente tomar posse e uma semana e meia depois de Bolsonaro enfrentar seu primeiro protesto nacional — em 15 de maio, milhares foram às ruas contra cortes de verba na área da educação.

    As manifestações têm uma pauta oficial, mais branda, que inclui o apoio à reforma da Previdência, em tramitação no Congresso, o apoio ao pacote anticrime do ministro Sergio Moro, que ainda não começou a tramitar, o apoio à reforma administrativa, que ainda precisa passar pelo Senado, e o apoio à Operação Lava Jato.

    Alguns vídeos e publicações de grupos específicos trazem mensagens de repúdio ao centrão, grupo de parlamentares de partidos como PP, PR e PRB que vêm resistindo à agenda bolsonarista no Congresso, e a defesa da CPI da Lava Toga, para investigar o Judiciário. Apoiadores mais radicais chegam a falar em fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal.

    Quem faz a convocação das manifestações

    Não há uma organização centralizada para os atos — também por isso as reivindicações são difusas. Alguns grupos, porém, se destacam na convocação de manifestantes.

    Um deles são os grupos políticos de direita e extrema-direita que têm origem nas redes sociais: Movimento Avança Brasil, NasRuas, Direita São Paulo, Consciência Patriótica, entre outros. É uma base com forte identificação com o bolsonarismo.

    Parte dos grupos menores é formada por dissidências de outros grupos, com milhões de seguidores, como o MBL (Movimento Brasil Livre) e o Vem Pra Rua, que tiveram papel importante nas manifestações de rua em 2015 e 2016 pelo impeachment de Dilma Rousseff e a favor da Lava Jato, mas são contrários às manifestações deste domingo (26).

    Outra fonte de convocação é o Clube Militar, que reúne entre seus sócios militares da reserva, da ativa e também civis. Em nota oficial, a instituição convocou seus quase 40 mil sócios a irem às ruas e declarou que os atos apoiam “reformas necessárias à governabilidade”. Não é comum o Clube Militar apoiar institucionalmente manifestações.

    Fundado no século 19 e sediado no Rio, o Clube Militar não tem nenhum vínculo formal com as Forças Armadas e é dirigido por oficiais que já passaram à reserva, mas exerce influência na corporação. O vice-presidente Hamilton Mourão chefiou o Clube Militar em 2018.

    Além disso, um grupo de empresários apoia publicamente as manifestações, por meio do recém-criado Instituto Brasil 200, que reúne executivos e defende a implantação de medidas liberais na economia. Entre eles estão João Appolinário (dono da Polishop) e Luciano Hang (dono da Havan).

    Quem está fora das manifestações

    O MBL e o Vem Pra Rua, que adotam agora discurso mais moderado do que os grupos que estão na linha de frente dos atos, declararam não apoiar a manifestação. Segundo o MBL, há ataques antidemocráticos com o qual o grupo não pode compactuar. Segundo o Vem Pra Rua, trata-se explicitamente de um ato pró-Bolsonaro e o grupo não defende pessoas e partidos, apenas projetos e ideias.

    Legendas que dão apoio à agenda de Bolsonaro no Congresso, como o DEM e o Novo, estão de fora. Políticos desses dois partidos fazem parte do governo, chefiando ministérios de Bolsonaro.

    Partido do próprio presidente, o PSL autorizou a participação dos seus parlamentares e demais integrantes. Mesmo assim, houve uma divergência interna que ficou evidente com a posição de Janaina Paschoal (PSL-SP), deputada estadual mais votada da história do Brasil e que chegou a ser considerada como vice de Bolsonaro em 2018.

    Segundo Janaina, coautora do pedido de impeachment que resultou na queda de Dilma Rousseff, as manifestações deste domingo (26) “não têm racionalidade” e o presidente e seu entorno é que estão criando dificuldades para governar.

    A posição de Bolsonaro

    Em 17 de maio, Bolsonaro divulgou via WhatsApp um texto de um candidato derrotado a vereador do Rio no qual dizia que o Brasil era “ingovernável” sem que houvesse “conchavos”. A mensagem trazia ataques ao Legislativo e ao Judiciário.

    Sobre as manifestações a favor do governo em si, o presidente deu sinais e declarações ambíguas. Ao mesmo tempo em que mobilizava sua base de apoiadores contra a “velha política” do Congresso, evitava se vincular diretamente aos atos.

    Primeiro, Bolsonaro disse que não há “nada de anormal” entre as reivindicações, depois afirmou que quem defende fechamento do Congresso ou do Judiciário “está na manifestação errada”. No fim, Bolsonaro anunciou que não compareceria aos atos. Ele também orientou seus ministros a não ir.

    O contexto político dos atos pró-governo

    Desde a posse do presidente e da nova composição do Congresso, entre janeiro e fevereiro de 2019, existe uma tensão política entre o governo e os parlamentares.

    Eleito com um discurso antissistema, Bolsonaro, que foi deputado federal por sete mandatos consecutivos, diz praticar uma “nova política”, sem fazer o que chama de “toma-lá-dá-cá” e que governa ancorado na vontade da população.

    Para muitos congressistas, essa posição evita o diálogo e praticamente criminaliza negociações políticas. No Congresso, o principal setor que contesta essa atitude do presidente é o centrão — grupo informal de partidos que reúne uma quantidade expressiva de parlamentares, de legendas como PP, PRB, Solidariedade e PSD.

    Em busca de mais espaço, deputados e senadores do centrão têm tentado pressionar o governo e impor derrotas a Bolsonaro em votações. Parte dos manifestantes que vão às ruas neste domingo (26) busca, na prática, pressionar o centrão.

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