A ‘caça às bruxas’ no Brasil. E a atualidade da expressão

Novos estudos abordam casos de perseguição a mulheres acusadas de feitiçaria no período colonial, de norte a sul do país

     

    Às vésperas da primeira visita do presidente Jair Bolsonaro ao nordeste na sexta-feira (24), circulou um vídeo da ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos), que dizia, em tom alarmante: “Está chegando no Nordeste um manual prático de bruxaria para crianças de 6 anos de idade. Como ser bruxa, como fazer a roupa de bruxa, inclusive como fazer a vassoura de bruxa na sala de aula”.

    Símbolo de mulheres más e perigosas, as mulheres acusadas de serem bruxas foram perseguidas especialmente nos tempos da Inquisição, instituída com os Tribunais do Santo Ofício que visavam “inquirir” heresias (doutrinas contrárias às determinações da Igreja Católica).

    As bruxas na história europeia

    Na Europa, as perseguições marcaram dois momentos: o fim da Idade Média (principalmente nos séculos 13 e 14) e na Idade Moderna, especialmente na Península Ibérica (Portugal e Espanha, dos séculos 15 ao 19). Inquisidores ibéricos visitavam a América colonial, entre os séculos 16 e 18, para investigar denúncias.

    Acusadas de serem bruxas eram ‘caçadas’: denunciadas, detidas, interrogadas, julgadas e, se condenadas, queimadas na fogueira

    No território europeu foi difundido o “Martelo das Bruxas”, livro do monge dominicano alemão Heinrich Kramer, publicado em 1486 e desdobrado em 29 edições, que trazia argumentos para identificação de feiticeiras — seriam mulheres más, poderosas e capazes de prejudicar os outros.

    As “bruxas” brasileiras eram levadas para julgamento na capital da colônia, em Portugal.

    No Brasil, de norte a sul

    No livro pioneiro “O Diabo e a Terra de Santa Cruz: Feitiçaria e Religiosidade Popular no Brasil Colonial” (ed. Companhia das Letras, 1986), a historiadora Laura de Mello e Souza reuniu registros de confissões e denúncias de casos de mulheres acusadas de serem feiticeiras.

    Segundo Souza, a presença de diversas tradições culturais na colônia era intolerada pela Igreja Católica e pela metrópole, o que impulsionou tentativas lusitanas de “homogeneizar” a humanidade “animalesca e demoníaca” do Brasil.

    Integrantes da Igreja Católica no Brasil eram orientados a observar os costumes dos fiéis e reportar comportamentos suspeitos às instâncias superiores. Os crimes incluíam blasfêmia, “transgressões” sexuais (como sodomia), sacrilégio, judaísmo, luteranismo e religiões de matriz africana — mais de 1.000 mulheres e homens foram perseguidos.

    No livro “Inquisição: Prisioneiros do Brasil” (ed. Perspectiva, 2002), a historiadora Anita Novinsky, professora emérita da Universidade de São Paulo, registrou 1.076 brasileiros levados aos tribunais portugueses. Os casos ocorreram de norte a sul: de polos como Rio e Minas Gerais, mas também do Espírito Santo, Goiás e Piauí.

    3 novos estudos

    Três estudos, finalizados recentemente, trazem exemplos colhidos em Belém (então capitania do Grão-Pará), Curitiba (Paraná) e Jundiaí (São Paulo).

    Na dissertação de mestrado “Magia e Inquisição : O ‘Mundo Mágico’ do Grão-Pará e Maranhão (1763-1769)”, defendida na Universidade Federal do Amazonas, em 2016, o historiador Arthur Narciso Bulcão da Silva resgata a história da portuguesa Isabel Maria de Oliveira, que vivia em Belém, acusada de conversar com o diabo na década de 1750. Segundo as denúncias da época, ela teria dito que, por medo do marido violento, preparou um ritual para conseguir dominar homens.

    Na tese de doutorado “Um ‘Cartório de Feiticeiras’: Direito e Feitiçaria na Vila de Curitiba (1750-1777)”, defendida na Universidade Federal do Paraná, em 2016, a advogada Danielle Regina Wobeto de Araújo narra a história de diversas denúncias contra mulheres indígenas acusadas de enfeitiçar mulheres católicas na vila de Curitiba: 8 indígenas foram levadas à Ouvidoria de Paranaguá, mas não há registro do que aconteceu depois; a 9ª indígena acusada foi denunciada como feiticeira “linguaruda” e ficou presa por 10 anos, sem julgamento.

    Na dissertação de mestrado “Feitiçaria Paulista: Transcrição de Processo-Crime da Justiça Eclesiástica na América Portuguesa do Século 18”, defendida na Universidade de São Paulo, em 2018, a filóloga Narayan Porto analisou manuscritos originais encontrados na Cúria Metropolitana de São Paulo sobre um processo contra Thereza Leyte e Escholástica Pinta da Silva. Acusadas de terem feito pacto com o demônio para matar Manoel Garcia (marido de Escholástica), na cidade de Jundiaí, as rés foram absolvidas.

    Expressão atual

    Nas últimas décadas, com a consolidação do campo de estudos de gênero no Brasil, acadêmicos vêm investigando e tentando compreender a trajetória de mulheres perseguidas ao longo da história.

    Referência na área, a filósofa americana Judith Butler, em passagem pelo Brasil em novembro de 2017, foi alvo de protestos sob gritos de “queimem a bruxa!”.

    Ao longo dos últimos anos, na esteira de discussões sobre a chamada “ideologia de gênero”, a frase “nós somos as netas das bruxas que vocês não conseguiram queimar” se tornou recorrente.

    “Ser bruxa sempre foi associado a coisas ruins. A bruxa é a vilã de todas as histórias, é quem causa o mal em diversos contos de fada, é quem acaba com o amor. A bruxa é aquela que tem que morrer. E foi exatamente isso que aconteceu na Idade Média”, publicou a escritora Helena Zelic, na revista digital Capitolina, em outubro de 2014.

    As bruxas e a divisão sexual do trabalho

    No livro “Calibã e a bruxa”, a historiadora italiana Silvia Federici relaciona a caça às bruxas como marco que anulou a autonomia das mulheres. Se antes elas exerciam atividades diversas, de curandeiras a lavradoras, depois da perseguição passaram a ficar relegadas ao lar.

    “Estamos acostumados a pensar na caça às bruxas como algo que já passou, mas sempre que o capitalismo bambeia, voltamos a experimentá-la. É uma história do presente”, afirmou Federici, no lançamento do livro no Brasil, traduzido para o português pelo Coletivo Sycorax, em julho de 2017.

    O Nexo conversou sobre a história da caça às bruxas e a atualidade da expressão com a antropóloga Sônia Weidner Maluf, professora titular aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina e autora de “Encontros Noturnos” (1993) e “Les Enfants du Verseau au Pays des Terreiros” (1998), entre outros.

    Quem eram as ‘bruxas’ brasileiras no tempo da Inquisição?

    Sônia Weidner Maluf  No Brasil, a Inquisição se instalou mediante comissários, emissários e visitadores outorgados pelo Tribunal do Santo Ofício, especialmente perseguindo mulheres. Ao longo de quase 300 anos, pessoas foram denunciadas no território colonial e depois eram levadas para Portugal, onde eram julgadas e, se condenadas, punidas e queimadas. Uma simples briga de vizinhos poderia provocar uma denúncia de feitiçaria.

    Entre os acusados estavam mulheres que praticavam tradições religiosas e saberes não reconhecidos pela Igreja Católica, como benzedeiras, curandeiras e líderes espirituais. Estima-se que 1.000 pessoas foram perseguidas no Brasil, mas pode ter sido muito mais. Este é um fenômeno histórico que ainda está sendo estudado.

    Acusadas de bruxaria estavam concentradas em uma região geográfica?

    Sônia Weidner Maluf  Visitações eram feitas principalmente nas regiões mais estruturadas, isto é, onde a metrópole Portugal tinha estrutura administrativa, como Grão-Pará, Minas Gerais, São Paulo, Santa Catarina, Rio de Janeiro. E há singularidades.

    Na ilha de Santa Catarina, há uma vertente de narrativa sobre bruxas e um imaginário mais popular sem influência católica cristã enraizada. Durante pesquisa de campo na década de 1980, no litoral catarinense, nenhuma das narrativas colhidas trazia a figura do diabo. O que encontrei foram narrativas interessantes do imaginário popular, interpretadas como histórias reais pelos narradores, de mulheres que se transformam em bruxas. Eram representadas como figuras femininas poderosas, que provocavam mal-estar e medo nos moradores.

    Nos estudos sobre bruxaria na Europa medieval, o historiador italiano Carlo Ginzburg aborda como os tribunais foram introduzindo a figura do diabo no imaginário popular, um processo de demonização dos cultos pagãos na Itália. Há diversos estudos na Itália e na Península Ibérica.

    No Brasil, temos os clássicos de Anita Novinsky e Laura de Mello e Souza. E é ótimo que o assunto esteja despertando interesse para novas pesquisas, para dar dimensão da extensão desse fenômeno no país.

    Nas últimas duas décadas, com a explosão dos estudos de gênero, um campo interdisciplinar (que envolve antropologia, história, sociologia, entre outras disciplinas), vemos uma tendência de tentar entender a trajetória de mulheres na história do Brasil. Inclusive mulheres perseguidas. É um debate muito atual.

    Vê relação entre as feministas de hoje e as bruxas de ontem?

    Sônia Weidner Maluf  Duas expressões ganharam a história e ainda marcam o presente: a bruxa e a caça às bruxas.

    De um lado, temos “a bruxa” como símbolo de uma mulher com poder. No imaginário dessas comunidades litorâneas de Santa Catarina, por exemplo, remete a uma mulher “empoderada”: não no sentido de deter “o” poder da autoridade oficial, mas poderes no plural, sempre vistos como perigosos. Assim, a figura da bruxa se tornou uma figura importante no imaginário feminista contemporâneo, na Europa e no Brasil. Remete a uma mulher rebelde, contra o status quo, as regras machistas e misóginas da sociedade. É extremamente atual e algumas autoras têm trabalhado com isso não apenas como questão simbólica, mas fenômeno factual e histórico de perseguição às mulheres.

    De outro lado, temos “a caça às bruxas” como memória do sistema de perseguição da Inquisição, que incluía o contexto jurídico do tribunal, mas também denúncias de vizinhos, familiares e amigos, isto é, engajava-se a comunidade comum na “deduragem”, digamos. Não à toa, na década de 1950, o macartismo nos Estados Unidos [campanha de perseguição aos comunistas, iniciada pelo senador americano Joseph McCarthy] também era chamado de caça às bruxas.

    No Brasil, vivemos situação semelhante, com diferentes investidas de caráter denuncista, inquisidor e perseguidor — rumores de cartilha ensinando bruxaria e estudante sendo incentivado a denunciar professor, por exemplo. É uma campanha que mimetiza esse sistema medieval e moderno, em todas as esferas da sociedade.

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